Os efeitos da revolução industrial nas mulheres e crianças

por Robert Hessen

 

wpid-unnamed-2.jpg.jpegO menos entendido e mais deturpado aspecto da história do capitalismo é o trabalho infantil.

Não se pode avaliar o fenômeno do trabalho infantil na Inglaterra durante a Revolução Industrial do final do século XVIII e início do XIX, a não ser que se entenda que a introdução do sistema fabril ofereceu um sustento, um meio de sobrevivência, para dezenas de milhares de crianças que não viveriam até suas adolescências nas eras pré capitalistas.

O sistema fabril levou a um aumento no padrão de vida geral, à rápida queda das taxas de morte urbana e à mortalidade infantil decrescente – e produziu uma explosão populacional sem precedentes.

Em 1750, a população na Inglaterra era de seis milhões; era de nove milhões em 1800 e doze milhões em 1820, uma taxa de crescimento sem precedentes em qualquer era. A distribuição etária da população alterou-se significativamente; a proporção de crianças e jovens aumentou acentuadamente. “A proporção desses nascidos em Londres que morriam antes dos cinco anos de idade” caiu de 74,5 por cento em 1730-49 para 31,8 por cento em 1810-29 [1]. Crianças que até então teriam morrido em sua infância, agora tiveram um chance de sobrevivência.

Ambos o aumento populacional e a crescente expectativa de vida desmentem as afirmações dos socialistas e fascistas críticos do capitalismo de que as condições das classes trabalhadoras progressivamente deterioravam-se durante a Revolução Industrial.

É moralmente injusta e ignorante em história a pessoa que culpa o capitalismo pelas condições das crianças durante a Revolução Industrial, visto que, de fato, o capitalismo trouxe uma enorme benfeitoria nas suas condições da época anterior. A origem dessa injustiça foram desinformados, emotivos romancistas e poetas, como Dickens e Sra. Browning; medievalistas fantasiosos, como Southney; escritores de tratados políticos posando de historiadores econômicos, como Engels e Marx. Todos eles pintaram um quadro turvo e rosado de uma “idade de ouro” perdida das classes trabalhadoras, que, supostamente, foi destruída pela Revolução Industrial. Historiadores não sustentaram suas afirmações. Investigações e o bom senso removeram o glamour do sistema pré fabril de indústria doméstica. Nesse sistema, os trabalhadores faziam um investimento inicial custoso, ou pagavam pesados aluguéis, para um tear ou um filatório, e sustentavam a maioria dos riscos especulativos envolvidos. Sua dieta era insípida e escassa, e até a subsistência dependia do fato de se achar um trabalho para sua esposa e crianças. Não havia nada de romântico ou invejável no modo de vida e de trabalho de uma família em uma indústria caseira mal iluminada, impropriamente ventilada, e deficientemente construída.

Como as crianças prosperavam antes da Revolução Industrial? Em 1679, John Locke escreveu um relatório para a Comissão de Comércio sobre o problema da pobreza e sobre atividades para reduzi-la. Locke estimou que um trabalhador e sua esposa de boa saúde poderiam sustentar não mais que duas crianças, e ele recomendou que todas as crianças com mais de três anos deveriam ser educadas para ganharem seu dinheiro em escolas de fiação e tricô, onde se daria comida a elas. “O que eles podem ter em casa, de seus pais”, escreveu Locke, “é raramente mais do que pão e água, e isso de forma bastante escassa também”.

Professor Ludwig von Mises nos lembra:

Os proprietários das fábricas não tinham poderes para obrigar ninguém a aceitar um emprego nas suas empresas. Podiam apenas contratar pessoas que quisessem trabalhar pelos salários que lhes eram oferecidos. Mesmo que esses salários fossem baixos, eram ainda assim muito mais do que aqueles indigentes poderiam ganhar em qualquer outro lugar. É uma distorção dos fatos dizer que as fábricas arrancaram as donas de casa de seus lares ou as crianças de seus brinquedos. Essas mulheres não tinham como alimentar os seus filhos. Essas crianças estavam carentes e famintas. Seu único refúgio era a fábrica; salvou-as, no estrito senso do termo, de morrer de fome [2].

As crianças das fábricas foram trabalhar em função da insistência de seus pais. As horas de labor das crianças eram muito longas, mas o trabalho era sempre muito fácil – frequentemente cuidar das máquinas de fiação ou tecelagem e amarrar cordas quando quebravam. Não era em nome dessas crianças que o movimento para a legislação fabril começou. A primeira lei de trabalho infantil da Inglaterra (1788) regulou as horas e as condições de trabalho das crianças miseráveis que trabalhavam como lavadoras de chaminés – um trabalho sujo e perigoso que antecedeu a Revolução Industrial por muito tempo, e que não era relacionado às fábricas. A primeira lei que se aplicava às crianças das fábricas foi aprovada para proteger aqueles que foram mandados para escravidão virtual pelas autoridades da paróquia, um órgão governamental: elas eram crianças abandonadas ou órfãs que estavam legalmente sob custódia de oficiais poor-law da paróquia, e que eram obrigadas por esses oficiais a participar de programas de aprendizado longos e não pagos em troca de uma mera subsistência.

Condições de emprego e saneamento são conhecidas por terem sido melhores nas maiores e mais novas fábricas. À medida que sucessivas Leis Fabris, entre 1819 e 1846, estabeleciam maiores e maiores restrições para o emprego de crianças e adolescentes, os proprietários das maiores fábricas, que eram mais facilmente e frequentemente sujeitas à visita e ao exame detalhado dos inspetores fabris, progressivamente decidiram despedir crianças dos empregos em vez de sujeitarem-se às regulações detalhadas, arbitrárias, e em constante mudança de como eles deveriam dirigir uma fábrica que empregava crianças. O resultado da intervenção legislativa foi que essas crianças desempregadas, que precisavam trabalhar para sobreviver, foram forçadas a procurar empregos em fábricas menores, mais velhas e mais distantes, onde as condições de emprego, saneamento, e segurança eram destacadamente inferiores. Aqueles que não podiam achar novos empregos eram reduzidos ao status de seus semelhantes de centenas de anos atrás, isso é, ao instável trabalho agrícola, ou pior – nas palavras do Professor von Mises – a “infestar o país vivendo como vagabundos, mendigos, andarilhos, ladrões e prostitutas”.

O trabalho infantil não foi terminado por decreto legislativo; o trabalho infantil terminou quando se tornou economicamente desnecessário para crianças ganharem salários para sobreviver – quando a renda de seus pais se tornou suficiente para sustentá-los. Os emancipadores e benfeitores dessas crianças não foram legisladores ou inspetores fabris, mas foram manufatores e financistas. Seus esforços e investimentos em maquinaria levaram a um aumento nos salários reais, a uma abundancia crescente de bens a menores preços, e à melhoria incomparável no padrão de vida geral.

A resposta apropriada aos críticos da Revolução Industrial é dada pelo Professor T. S. Ashton:

Há hoje nas planícies da Índia e China, homens e mulheres, infestados por pragas e famintos, vivendo pouco melhor, aparentemente, do que o gado que trabalha com eles de dia e que compartilha seu local de dormir à noite. Esse padrão Asiático, e esses horrores não mecanizados, é o destino daqueles que aumentam seus números sem passar por uma revolução industrial [3].

Deixe-me adicionar que a Revolução Industrial e sua consequente prosperidade foram realizações do capitalismo e não podem ser alcançadas sob qualquer outro sistema político-econômico. Como prova, eu lhes ofereço o espetáculo da Rússia Soviética que combina industrialização e fome.

Mulheres e a Revolução Industrial

Para se condenar o capitalismo, deve-se primeiro deturpar sua história. A noção de que o capitalismo industrial levou a nada mais que miséria e degradação para as mulheres é um artigo de fé entre críticos do capitalismo. É tão prevalecente quanto a visão de que as crianças foram vitimadas e exploradas pela Revolução Industrial – e é tão falsa quanto.

Deixe-nos examinar a origem dessa visão. Para avaliar os benefícios que o capitalismo trouxe às mulheres, deve-se comparar seu status sob o capitalismo com suas condições nos séculos precedentes. Mas os críticos do capitalismo do século XIX não fizeram isso; em vez disso, eles distorceram e fraudaram a história, exaltando o passado e depreciando tudo de moderno, em contraste.

Por exemplo, Richard Oastler, um dos mais fanáticos críticos do capitalismo do século XIX, afirmou que todos estavam melhores espiritualmente e materialmente na Idade Média, em comparação ao início do século XIX. Descrevendo a Inglaterra medieval, Oastler escreveu com entusiasmo sobre a idade de ouro perdida: “Oh, que bela expedição era a Inglaterra antigamente! Ela era bem construída, bem tripulada, bem abastecida, bem equipada! Todos estavam alegres, animados e felizes a bordo”.

Isso foi dito sobre séculos em que “a maior parte da população era de camponeses em uma condição servil, amarrados pelo status, não livres para mudar seu modo de vida ou para se mudarem de sua terra natal” [4] – quando pessoas tinham somente a promessa de felicidade na vida após a morte para socorrê-las de pragas dizimadoras, recorrentes escassezes de comida e, na melhor das hipóteses, estômagos satisfeitos pela metade – quando pessoas viviam em casas tão infestadas de sujeira e insetos daninhos que o veredito de um historiador sobre essas pequenas casas é: “Do ponto de vista da saúde, a única coisa a ser dita em seu favor era que elas incendiavam-se muito facilmente!” [5].

Oastler representou o ponto de vista dos medievalistas. Os socialistas, que concordaram com eles, eram igualmente historiadores imprecisos.

Por exemplo, descrevendo as condições das massas no século XVII e início do XVIII pré industrial, Friedrich Engels alegou: “Os trabalhadores desenvolviam-se em uma existência confortável, tendo uma vida justa e pacífica com religiosidade e integridade; e seu estado material era bem melhor do que o de seus sucessores”.

Isso foi escrito sobre uma época caracterizada por comoventes altas taxas de mortalidade, especialmente entre crianças – cidades abarrotadas e vilas sem saneamento – alto e notório consumo de bebidas. A dieta da classe trabalhadora consistia principalmente em farinha de aveia, leite, queijo, e cerveja; enquanto que pão, batatas, café, chá, açúcar e carne ainda eram caros bens de luxo. O banho era infrequente e lavar roupa era raro porque o sabão era muito caro, e a roupa – que deveria durar por uma década ou uma geração – não resistiria se fosse lavada muitas vezes.

A mais rápida mudança acarretada pela Revolução Industrial foi a transferência da produção têxtil da casa para dentro da fábrica. Sob o sistema anterior, chamado de “indústria doméstica”, a fiação e a tecelagem eram feitos na própria casa do trabalhador com a ajuda de sua esposa e crianças. Quando avanços tecnológicos causaram a transferência da produção têxtil para as fábricas, isso levou, disse um crítico do capitalismo, “à dissolução do lar como uma unidade social” [6].

A Sra. Neff escreve com aprovação que “sob o sistema da indústria doméstica, os pais e as crianças tinham trabalhados juntos, o pai era o chefe autocrático, embolsando os ganhos das famílias e direcionando seus gastos”. Seu tom se torna de condenação quando ela relata: “Mas sob o sistema fabril cada membro da família tinha seu próprio salário, eles trabalhavam em departamentos separados do moinho, voltando para casa somente para comer e dormir. A casa era nada mais que um abrigo”.

As fábricas foram responsáveis, segundo essas críticas, por todo problema social dessa época, incluindo promiscuidade, infidelidade, e prostituição. Implícito na condenação de mulheres trabalhando nas fábricas, estava a noção de que o lugar da mulher é na casa e que seu único papel é cuidar do lar para seu marido e educar suas crianças. As fábricas foram culpadas simultaneamente por tirar garotas da vigilância atenta de seus pais e por encorajar casamentos precoces; e mais tarde, por estimular a negligência material e o desleixo com os cuidados domésticos, assim como por encorajar a falta de subordinação feminina e o desejo por bens supérfluos.

É uma denúncia incriminadora ao sistema pré fabril considerar que tipo de “bens supérfluos” a Revolução Industrial trouxe ao alcance do orçamento das classes trabalhadoras. Quando as mulheres procuravam bens supérfluos como sapatos em vez de pedaços de madeira, chapéus em vez de véus, “delicadezas” (como café, chá e açúcar) em vez de “comida simples”.

Críticos denunciaram o hábito crescente de vestir roupas de confeição, e eles viam a substituição da lã e do linho por algodão barato como um sinal de pobreza crescente. As mulheres eram condenadas por não fazerem com suas próprias mãos aquilo que elas poderiam comprar mais barato, graças à revolução na produção têxtil. Vestidos não precisavam mais durar uma década – mulheres não precisavam mais vestir ásperas roupas de baixo até que elas desintegrassem com a sujeira e o tempo; vestidos baratos de algodão e roupas de baixo foram uma revolução na higiene pessoal.

As duas explicações mais prevalecentes do século XIX de por que as mulheres trabalhavam nas fábricas eram: a) que seus “maridos preferiam permanecer ociosos em casa, sustentados por suas esposas”, e b) que o sistema fabril “desalojou homens adultos e impôs às mulheres ‘o dever e a carga de sustentar seus maridos e famílias’ “. Essas acusações são examinadas em Esposas e Mães na Indústria Vitoriana [Womans and wives in Victorian industry], um estudo definitivo da Dra. Margaret Hewitt da Universidade de Exeter. Sua conclusão é: “Nenhuma dessas suposições foram provadas por fundamentos estatísticos até agora” [7].

De fato, mulheres trabalhavam nas fábricas por razões bem mais rotineiras. Dra. Hewitt enumera-as: muitas mulheres trabalhavam porque “os salários de seus maridos eram insuficientes para sustentar o lar”; outras eram viúvas ou abandonadas; outras eram estéreis ou tinham filhos crescidos; algumas tinham maridos que eram desempregados, ou empregados em empregos sazonais; e algumas poucas decidiram trabalhar para ganhar dinheiro para confortos extras em casa, embora os salários de seus maridos fossem suficientes para cobrir as necessidades [8].

O que o sistema fabril oferecia a essas mulheres era – não miséria e degradação – mas um meio de sobrevivência, de independência econômica, de elevar-se da mera subsistência. Cruéis como eram as condições fabris do século XIX, as mulheres progressivamente preferiam trabalhar nas fábricas em vez de qualquer outra alternativa aberta a elas, como o serviço doméstico, pesados serviços em grupos agrícolas, ou trabalhando como transportadoras e carregadoras nas minas; além disso, se uma mulher pudesse se sustentar, ela não era levada ao casamento precoce.

Até o Professor Trevelyan, que persistentemente depreciava as fábricas e exaltava “os bons velhos dias”, admitiu:

… as mulheres que iam trabalhar nas fábricas, embora elas perdessem algumas das melhores coisas na vida [Trevelyan não explica o que isso significa], ganhavam independência…. O dinheiro que elas ganhavam era delas. O trabalho fabril forneceu uma posição econômica pessoal para ela, que, com o tempo, outras mulheres vieram a invejar.

E Trevelyan concluiu: “A casa dos da classe trabalhadora se tornou mais confortável, quieta e higiênica, por deixar de ser uma fábrica de miniatura” [9].

Críticos do sistema fabril ainda tentam argumentar que os fiadeiros e tecelões domésticos poderiam ter orgulho das criações de seu trabalho, que eles perderam ao se tornarem meras ferramentas em um imenso complexo industrial. A Dra. Dorothy George facilmente destrói essa tese: “Parece improvável que o tecelão comum, trabalhando horas depois de horas, torcendo os fios para trás e para frente em um trabalho que era monótono e exaustivo, tenha as reações que iriam satisfazer um entusiasta moderno pelas artes camponesas” [10].

Finalmente, foi declarado que o trabalho fabril tornou as mulheres muito preocupadas com o conforto material a custa das considerações espirituais.

A miséria em que viviam as mulheres antes do capitalismo pode ter tornado-as esperançosas com a injunção do Novo Testamento: “Não ameis o mundo nem as coisas que há mundo”. Mas o esplendor produtivo do capitalismo venceu essa visão. Hoje, os principais defensores desse ponto de vista são o Professor Galbraith e os pregadores da austeridade atrás da Cortina de Ferro.

Notas

[1] Mabel C. Buer, Health, Wealth and Population in the Early Days of the Industrial Revolution, 1760-1815, London: George Routledge & Sons, 1926, p. 30. (Tradução Nossa)

[2] Ludwig von Mises, Ação Humana, Rio de Janeiro: Instituto Liberal, 1995 [1949], p. 626.

[3] T. S. Ashton, The Industrial Revolution, 1760-1830, London: Oxford University Press, 1948, p. 161. (Tradução Nossa)

[4] Buer, p. 250.

[5] Ibid., p. 88.

[6] Wanda Neff, Victorian Working Women, New York: Columbia University Press, 1920, p. 51. (Tradução Nossa)

[7]London: Rockliff, 1958, p. 190. (Tradução Nossa)

[8] Ibid., pp. 192, 194.

[9] George M. Trevelyan, English Social History, New York and London: Longmans, Green & Company, 1942, p. 487. (Tradução Nossa)

[10] M. Dorothy George, England in Transition: Life and Work in the Eighteenth Century, London: Penguin, 1953, p. 139.


Sobre o autor

Robert Hessen

Robert Hessen é economista, historiador de negócios e professor da Graduate School of Business at Stanford.

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3 comentários sobre “Os efeitos da revolução industrial nas mulheres e crianças

  1. Estou fazendo um projeto de pesquisa sobre p trabalho infantil no período da Revolução Industrial e achei esse artigo muito bom para contrapor as ideias que já tenho no meu projeto, você poderia me informar qual a fonte original desse artigo? Obrigada!!

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