Conservadores contra o capitalismo

por Stephen Hicks

 

O vocabulário político norte-americano tende a dividir as pessoas entre liberais¹ (na esquerda) e conservadores (na direita). Todas essas definições são generalizantes, e a grande questão é como classificar libertários, democratas, socialistas, teocratas e outros. Contudo, uma alegação comum nas discussões é que os conservadores favorecem o capitalismo de livre mercado. Progressistas e socialistas são hostis ao capitalismo, e estão na esquerda”, de forma que os capitalistas devem estar na direita junto com os conservadores.

É uma alegação com um traço de verdade jornalística. No entanto, apresenta um grande defeito: por séculos, os grandes pensadores do lado conservador têm argumentado, praticamente sem exceção, que os conservadores não podem ser capitalistas. E os grandes pensadores do capitalismo de livre mercado têm buscado, quase sem exceção, explicar o porquê de não serem conservadores. Ambos os lados estão corretos.

Começaremos com os grandes nomes do conservadorismo. No contexto norte-americano, existem diversas subespécies – conservadores religiosos, neoconservadores, conservadores tradicionais e conservadores moderados. Então, veremos o que os representantes de cada subespécie dizem sobre o capitalismo de livre mercado.

Vou começar com Robert Bork, representante do conservadorismo religioso. Bork foi o jurista a quem o Senado norte-americano negou um assento na Suprema Corte. O que segue é uma citação do seu livro Slouching Towards Gomorrah: “Como os libertários e os progressistas estão alheios à realidade social, ambos demandam autonomia pessoal radical de expressão. Essa é uma razão pela qual os libertários não devem ser confundidos, como frequentemente o são, com conservadores”. Bork prossegue, argumentando que: “os economistas de livre mercado são particularmente vulneráveis ao vírus libertário” e cita erros no campo da ética e da natureza humana como a causa raiz – frequentemente, o economista de livre mercado “ignora a questão de quais desejos são moralmente justificáveis” e falham em reconhecer que “a natureza humana irrestrita buscará a decadência com tal frequência que criará uma sociedade perigosa, hedonística e desordenada”.       

Note a linguagem agressiva: o livre mercado desencadeia a decadência e é como um vírus.

Agora, considere Irving Kristol. O “padrinho” dos neoconservadores, na sua contribuição ao Capitalism Today:

o caos espiritual intrínseco aos nossos tempos, tão poderosamente criado pelas dinâmicas do próprio capitalismo, é tão forte que torna o niilismo uma tentação fácil. Uma ‘sociedade livre’, na concepção hayekiana, dá origem ao grande número de ‘espíritos livres’ – vazios de substancia moral.

Novamente, linguagem agressiva: o capitalismo leva ao caos, ao niilismo e ao vazio moral.

Agora, como representante do conservadorismo tradicional, temos Russell Kirk. Como um articulista do website conservador Heritage Foundation coloca: “Para Russell Kirk, ‘o verdadeiro conservadorismo’ – o conservadorismo de [Edmund] Burke – foi totalmente contrário ao capitalismo irrestrito e à ideologia egoísta do individualismo”. O próprio Kirk, na crítica à defesa de Ayn Rand ao livre mercado, escreveu “nós, seres humanos imperfeitos, já somos suficientemente egoístas, sem sermos exortados a buscar o egoísmo como princípio”. Sob o capitalismo implacável, Kirk argumentou, um homem se torna “um átomo social, faminto por emoções exceto a inveja e o tédio, separado da verdadeira vida familiar e reduzido a um mero ente doméstico, seus velhos pontos de referência, mortos, sua antiga fé, dissipada”.

Logo, um conservador deve opor-se ao individualismo, atomismo e egoísmo capitalistas.

No coração de todos esses conservadores está o reconhecimento de que o capitalismo ameaça a moralidade tradicional. Como o colunista conservador George Will claramente expôs, temos uma dura escolha a fazer: “Ou o conservantismo cultural. Ou o dinamismo capitalista. O último anula o primeiro”.

Do lado capitalista, os expoentes mais importantes do livre mercado retornaram o favor e criticaram ferozmente o conservadorismo.

Milton Friedman, economista vencedor de prêmio Nobel e poderoso defensor do livre mercado, favorecia tanto a legalização das drogas quanto o casamento gay, assim ganhando a inimizade de muitos conservadores. Friedman também era ferozmente contrário ao alistamento militar obrigatório, uma causa frequentemente defendida pelos conservadores. (Recentemente, o conservador moderado David Brooks, escrevendo no New York Times, argumentou em prol do restabelecimento do alistamento civil).

Friedrich Hayek, outro economista de livre mercado vencedor do prêmio Nobel, escreveu um ensaio intitulado “Por que não sou conservador”, no qual se descreve como um liberal de princípios. O problema com os conservadores, argumentava Hayek, é que como seu rótulo sugere, eles tem se preocupado em manter o status quo e evitar os extremos da liberdade e do autoritarismo. Como resultado, Hayek destacou, “normalmente têm sido os conservadores que fizeram concessões ao socialismo”.

E a romancista e filosofa Ayn Rand, no seu estilo guerreiro, caracterizou o conservadorismo como intelectualmente morto e atacou seus princípios centrais na obra Conservatism: An Obituary (tradução livre, Conservadorismo: um obituário). Rand se definiu como uma radical pró-capitalismo e argumentou que necessitamos uma moralidade racional e moderna em substituição às moralidades antigas e obsoletas de obediência e fé defendidas por muitos conservadores. É surpreendente que mesmo tendo recebido pesadas críticas da esquerda, as piores vieram da direita conservadora.

Então, identificamos um padrão: os principais conservadores opõem-se ao capitalismo e os principais capitalistas opõem-se ao conservadorismo. E estamos frente a um dilema: na linguagem popular, o conservadorismo e o capitalismo são frequentemente confundidos.

A questão da linguagem popular é facilmente explicável. Existe uma tendência geral à busca de dualidades ideológicas – democratas versus conservadores, esquerda versus direita. Nos Estados Unidos, essa tendência é reforçada pelo sistema bipartidário, o qual parece resumir a política a duas opções possíveis. E dentro do sistema bipartidário, os esforços generalizantes atuais podem levar facções a omitir ou ignorar diferenças significativas.

O problema mais desafiador é de ordem filosófica, enquanto o debate conservadores contra capitalistas revelava duas concepções conflitantes de moralidade – uma mais otimista e moderna, a outra mais pessimista e tradicional.

Indivíduos são fracos, argumentam os conservadores, eles irão destruir a si e aos outros se forem deixados livres. Legalizar as drogas e o álcool significa intoxicação em massa, liberdade sexual significa promiscuidade, e escolha do estilo de vida significa que indivíduos não irão pertencer a unidades socialmente significativas, a não ser que sejam coagidos indiretamente, ou até mesmo abertamente, a participar delas. Seres humanos necessitam de estrutura – não a estrutura que eles escolhem, mas aquela que é imposta a eles pelo condicionamento familiar, pelo valor da tradição e apoiado pela lei.

Indivíduos são competentes, provavelmente diria o capitalista em resposta. Eles podem lidar com a liberdade e utilizá-la de modo produtivo. Sim, alguns indivíduos irão abusar dela e irão se viciar e isolar, contudo, a maioria busca relações familiares e amorosas verdadeiras e com significado, e ainda aprendem a utilizar entorpecentes de maneira responsável. Através de livre experimentação e exploração, todos os indivíduos poderão melhorar as suas vidas de maneira racional. Porém, para aproveitar o dinamismo das sociedades liberais modernas, precisamos estar dispostos a modificar ou até mesmo rejeitar as velhas tradições

A política é dependente da filosofia – outra maneira de demonstrar o argumento. Os grandes debates sobre política contemporânea são, em sua origem, debates sobre a natureza humana e moralidade.

 

¹ Nota do Revisor: Liberal é um termo que se refere aos membros da esquerda atual. Os liberais, no sentido empregado em terras tupiniquins, são os classic liberals (liberais clássicos) e os libertarians (libertários).


 

 

Stephen Hicks é professor de Filosofia na Rockford University em Illinois. Ele é o autor de “Explaining Postmodernism: Skepticism and Socialism from Rousseau to Foucault” (Scholargy Publishing, 2004). Ele pode ser contactado pelo seu website.

// Traduzido por Matheus Pacini. Revisado por Russ da Silva | Artigo original.

Anúncios

2 comentários sobre “Conservadores contra o capitalismo

  1. Eu não entendi esta tradução que fizeram: “debate de conservadores contra capitalistas”. Os “capitalistas”, pela tradução, seriam o que chamamos de “liberais” no Brasil, não? Sei que nos E.U.A a esquerda conseguiu ser chamada de liberal. Entretanto, não faz sentido chamar de “capitalistas” aos que aqui chamamos de “liberais”. Afinal, também não são os conservadores defensores do capitalismo? O debate entre os conservadores e liberais (pela terminologia brasileira) não se concentra na forma econômica, pois ambos defendem o capitalismo. O debate se concentra no âmbito moral.

    Curtir

    • É isso mesmo que está escrito. O texto trata justamente da questão de que os conservadores, supostos defensores do capitalismo, na verdade são contra o mesmo em muitas situações. O debate “liberais e conservadores”(termos assim como usados no Brasil), é mais intenso no que tange a moral e às liberdades sociais, mas também existem discordâncias quanto aos “limites” do capitalismo.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s