A vida é injusta? Meu desafio ao melhor jogador de tênis do mundo

por Stephen Hicks

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Vou me gabar um pouco. No ensino médio, eu era muito bom no tênis. Agora, muitos anos depois, sou um jogador ocasional de fim de semana que, de alguma forma, adquiriu a resistência (e os joelhos) de um homem de meia idade.

Contudo, ainda tenho essa fantasia recorrente que jogarei contra o melhor jogador de tênis do mundo. A minha fantasia é a seguinte: eu estou no parque local rebatendo algumas bolas e quem resolve caminhar por ali? O atual campeão de Wimbledon. Eu o desafio a um jogo e, por alguma razão, ele aceita. Outro jogador no parque concorda em ser o juiz – e o jogo começa.

Agora, um elemento de realismo é adicionado ao cenário. Em 2014, o campeão de Wimbledon é Novak Djokovic. Ele tem 1,87m e 27 anos de idade. Eu tenho 5 centímetros a menos e o dobro de sua idade. Seu primeiro serviço alcança 193 km/h e é preciso 73% das vezes. Meus números são consideravelmente menores.
E como o jogo termina? Djokovic vence 6-1. Que surpresa!

Agora, a pergunta séria desse artigo: o que é uma partida justa?

Justiça é um conceito-chave da ética, no entanto, se você perguntar a três filósofos o que ela significa, você receberá quatro respostas. Muitos dos nossos debates políticos recentes voltam-se para concepções concorrentes do que é ou não é justo.

  • Insider trading: se um vendedor de uma ação sabe algo que o comprador não sabe e não poderia saber, isso torna a troca injusta?
  • Telecomunicações e a “Doutrina da Justiça”: Se uma estação de rádio critica uma figura pública, os reguladores do governo deveriam requerer, em nome da justiça, que a estação conceda “tempo no ar” para a resposta da figura pública?
  • Financiamento de campanha: se um candidato político arrecada muito mais fundos do que o seu concorrente, a eleição será justa?

Contudo, vamos usar a partida de tênis para mostrar com que frequência apelamos para dois padrões muito diferentes quando respondemos questões relacionadas à justiça.

O primeiro grupo argumenta: Hicks vs Djokovic – a partida foi tão injusta!

Djokovic é um profissional e Hicks, um amador. Djokovic pratica várias horas por dia enquanto Hicks lê livros na biblioteca. Djokovic é mais jovem, rápido e alto, além de ser mais preciso e forte nas raquetadas. Portanto, Hicks não tinha chances reais de vencer.

O segundo grupo argumenta: Hicks versus Djokovic – a partida foi perfeitamente justa!

Hicks escolheu jogar contra Djokovic e sabe quem ele é. Eles jogaram dentro das regras, que foram aplicadas pelo juiz. Djokovic usou suas habilidades para conquistar pontos, e derrotou Hicks de forma limpa. Ele mereceu a vitória.

Agora, vamos abstrair os princípios incorporados aos argumentos dos dois grupos.

O primeiro grupo considera decisivo o fato que os competidores possuem habilidades desiguais. Habilidades relevantes no tênis incluem: tempo de prática, forma física e habilidades. Como um competidor tem mais e o outro tem menos, são desiguais em habilidades; mas a justiça é uma questão de igualdade, então a partida é injusta.

Segue-se do argumento do primeiro grupo que, para tornar a partida justa, teríamos que igualar as chances de vitória dos competidores por meio do nivelamento das habilidades. Poderíamos prejudicar Djokovic obrigando-o a utilizar pesos nos tornozelos para torna-lo mais lento, ou poderíamos obriga-lo a jogar somente com a mão esquerda, com a qual é menos preciso. Ou poderíamos conceder a Hicks uma vantagem inicial de pontos ou que a marcação do lado adversário fosse alargada. Alguma combinação desses métodos equalizaria suas chances de vitória e, portanto, tornaria o jogo mais justo.

O segundo grupo toma como decisivo o fato de que as regras foram conhecidas e aceitas pelos dois competidores, foram imparcialmente aplicadas, e que o competidor que tinha maior habilidade e maior pontuação conquistou a vitória. Justiça é uma questão de igualdade, mas uma igualdade de conhecimento das regras do jogo, da aplicação uniforme das regras e da liberdade de participação ou ausência dos competidores.

Segue-se do argumento do segundo grupo que o jogo seria injusto se Hicks pudesse inventar as regras no meio do jogo, se o arbitro fosse tendencioso ou subornado por um dos competidores, ou se nenhum dos dois estivesse participando do jogo voluntariamente. Djokovic escolheu praticar tênis e adquiriu habilidades, enquanto Hicks escolheu pensar sobre filosofia; então, ambos obtiveram seus níveis relativos de habilidade. E se é importante para Hicks ter uma chance realista de vencer, então ele pode escolher jogar contra um competidor mais fraco – ou escolher um esporte diferente no qual competir. (Talvez, desafiarei Djokovic a um jogo brutal sobre conhecimentos filosóficos).

Esportes são atividades metódicas nas quais aplicamos importantes valores de vida – busca de objetivos, o exercício da habilidade, coragem, perseverança, vitória e derrota, além de justiça. Então, são modelos úteis para o ensino de crianças, assim como para o entendimento dos debates sobre justiça nos projetos mais complexos dos adultos.

Por exemplo, se eu sou um investidor, o conhecimento do valor das empresas é um ativo fundamental. Mas outros investidores, especialmente insiders (de dentro da própria empresa), frequentemente sabem mais sobre essas empresas do que eu. Deveria eu acusa-los de injustiça, demandando que não usassem seu conhecimento para a tomada de decisões? Deveria eu investir somente em empresas nas quais sou especialistas – ou investir em outro lugar além da bolsa de valores? Esse é um subdebate sobre a questão do insider trading.

Ou imagine que eu seja uma figura pública que é criticada por um radialista famoso. Nesse caso, “o tempo no ar” é um ativo – mas suponha que o proprietário da estação de rádio não gosta de mim e se recusa a me conceder “tempo no ar”. Reclamo de injustiça e demando que ele seja forçado a fazê-lo, ou deveria respeitar o fato de que a rádio é dele e, portanto, pode fazer o que quiser, e que eu posso ir ao vivo na televisão, escrever uma postagem em um blog, ou encontrar algum outro meio pelo qual falar meu lado da história? Esse é um subdebate das regulações inspiradas na Doutrina da Justiça.

Ou se eu estiver me candidatando a um cargo político e meu oponente arrecadou muito mais dinheiro do que eu, citando injustiça, devo pedir por controles equalizantes sobre quanto dinheiro podem ser doados aos candidatos? Ou devo dizer “Parabéns para ela” – e, para ser mais competitivo, investir mais tempo na angariação de fundos porta-a-porta, melhorar o design dos cartazes de campanha e planejar uma melhor campanha de levantamento de fundos da próxima vez? Esse é um subdebate na questão do reforma campanha de financiamento.

Todas essas questões são claramente complexas, mas a identificação de conceitos divergentes de justiça em nossos debates é uma tarefa fundamental para a resolução das mesmas.


 

Sobre o autor

Stephen Hicks

Stephen Hicks é professor de Filosofia na Rockford University em Illinois. Ele é o autor de “Explaining Postmodernism: Skepticism and Socialism from Rousseau to Foucault” (Scholargy Publishing, 2004). Ele pode ser contactado pelo seu website.
// Traduzido por Matheus Pacini. Revisado por Russ da Silva | Artigo original.

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