A importância de zombar do regime

Nota do IMB
wpid-1367097384_ngbbs469e90596314c.jpgUma das coisas que mais ameaça o estado é o humor e a risada. O estado presume que você deve respeitá-lo, que você deve levá-lo muito a sério.  Thomas Hobbes dizia que era algo muito perigoso o fato de as pessoas rirem do governo, pois nada é mais eficaz do que o escárnio para desmoralizar os agentes do estado.Na busca pela liberdade, o conhecimento econômico é de extrema importância, principalmente porque ele ajuda a fazer as pessoas decentes entenderem não apenas que o estado é desnecessário, como também — e ainda mais importante — é uma instituição ilegítima.Mas o conhecimento econômico, por si só, não basta.  É necessário algo mais para abolir a legitimidade do estado.  E é por isso que é importante ridicularizar o estado.  É crucial desmascarar as autoridades políticas e mostrar os verdadeiros bufões que eles são.  Só assim, por meio do escárnio, os cidadãos os levarão menos a sério.

Infelizmente, poucas pessoas dão o devido valor à zombaria.  Mas ela foi e continua sendo crucial para a desmoralização de vários regimes tirânicos ao redor do mundo.  Não fossem as piadas, as pessoas comuns não estariam realmente a par das humilhações e penúrias vivenciadas nos regimes socialistas e comunistas.  Pense nas atuais escassezes de papel higiênico na Venezuela e de absorventes na Argentina, e todas as piadas que isso gera.

Por isso é de suma importância seguir sempre a seguinte regra: ria e zombe do governo o máximo possível.  Ridicularize e escarneça os burocratas e as autoridades políticas.  Sempre.  Jamais os leve a sério.

O artigo a seguir, de estilo leve e humorístico, é uma homenagem a algumas grandes piadas anti-soviéticas que ajudaram a desmoralizar, perante o mundo, os burocratas que o comandavam, e também os ideólogos que os alimentavam.

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A União Soviética produziu o mais eficaz e bem-sucedida máquina de propaganda da história da humanidade.  O nome dessa máquina era Mikhail Suslov.

Talvez sua maior obra tenha sido aquela tática que foi rotulada de “A Manobra Suslov”: sempre que você estiver na iminência de ser acusado de algo — seja um simples ataque ideológico ou mesmo uma acusação de atrocidade —, imediatamente acuse seu opositor de ser exatamente ele o autor da atrocidade ou do fracasso ideológico.

Um dos mais divertidos exemplos da Manobra Suslov ocorreu imediatamente após a invasão russa do Afeganistão, em 1979.  Após os protestos mundiais, os soviéticos emitiram um comunicado condenando a intervenção do Ocidente nos assuntos internos do Afeganistão.

Suslov dominava com tamanha perfeição a arte da propaganda, que os políticos ocidentais pareciam totalmente amadores quando incorriam em qualquer confronto ideológico com ele.  O mais eficaz e desmoralizante contra-ataque a Suslov não foi feito por nenhum político ou ideólogo profissional, mas sim pelo cidadão comum, que criou piadas populares a respeito do comunismo.

Essas piadas transmitiam muito mais sabedoria e compreensão a respeito da real situação soviética do que todos os discursos feitos por todos os políticos, economistas e cientistas políticos ocidentais juntos.  Os ecos do confronto ideológico entre o grande mestre, Suslov, e os amadores anônimos que criaram as piadas anti-soviéticas podem ser ouvidos até hoje.

Considere, por exemplo, a maneira como são tratadas as pessoas de classe média que têm uma postura anti-estado.  No mais brando dos cenários, elas são acusadas de “ingratidão”, pois atacam o mesmo governo que lhes propicia vários “benefícios”, como estradas, saúde pública, universidades públicas, programas culturais “gratuitos” e previdência social.

O que é interessante é que o termo ingrato — mais especificamente “infelizes ingratos” — soa muito familiar para qualquer um que tenha vivido sob o comunismo: esse era exatamente o termo que Suslov utilizava para descrever qualquer cidadão soviético que ousava expressar qualquer oposição ao regime soviético.  Como podiam ser tão atrevidos?  Afinal, eles tinham educação gratuita, saúde gratuita, e moradia subsidiada.  Como podiam eles reclamar de um governo que cuidava deles de maneira tão abnegada?  Só para constar, na URSS, havia algo pelo qual os indivíduos tinham de pagar: eles recebiam a conta da munição utilizada na execução de seus familiares.  Mas isso, obviamente, não era mencionado por Suslov, embora fosse uma prática corriqueira.

Tornou-se popular a seguinte piada anti-soviética sobre os “infelizes ingratos”.

Um homem havia solicitado um visto para poder sair da União Soviética.  Como seu pedido estava demorando muito para sair — vários anos, na verdade —, ele já havia praticamente desistido.  E então, em uma madrugada, aproximadamente às 3:30 da manhã, ele ouviu várias batidas fortes na sua porta.  Ele se levantou da cama, foi cambaleando de sono até a porta e perguntou, “Quem é?”

Uma voz respondeu: “É o carteiro”.  O homem imediatamente abriu a porta, cheio de esperança de que seu visto havia sido concedido.  Qual não foi o seu susto ao ver vários homens uniformizados adentrarem violentamente sua casa.  Eles logo lhe disseram que eram do KGB e que queriam ter uma palavrinha com ele.

O tema do interrogatório subsequente foi o de como ele era um infeliz ingrato: “A pátria mãe socialista deu a você um lugar para morar, cuidou de você, deu-lhe educação gratuita, saúde gratuita, e lhe foi tão boa.  Como você pode ser tão ingrato?”

O homem hesitou por um momento, e então disse: “Bom… Eu estava querendo me mudar para um país onde a entrega de correspondências ocorresse ao final das manhãs, ou então à tarde.”

Sim, é verdade que essa piada não está entre as três melhores sobre o comunismo, pois as três melhores abordam exatamente os três principais pesadelos da vida sob o comunismo: era um sistema economicamente ineficiente, era cruel (e totalmente entediante) e era letal.

A piada sobre a ineficiência econômica é mais bem conhecida entre os americanos, pois representa a perspectiva americana em relação à União Soviética.  A história se passa na Moscou de 1987.  Uma mulher pede que o marido vá a uma quitanda estatal para ver se ele consegue algum pão.  O homem chega lá e se depara com uma longa fila; ele entra no final dela e começa a esperar pacientemente.

Para quebrar o tédio, ele puxa conversa com o homem imediatamente à sua frente.  “A fila está grande hoje, hein?”.  “Sim”, respondeu o outro.  “Mas podia ser pior: ouvi dizer que nos EUA o governo nem pão dá!”.  “Ah, sim…”.  E continuou a esperar.

As horas foram se passando e a fila permanecia completamente imóvel.  Isso o deixou perplexo.  Sim, ele estava acostumado a longas e demoradas filas, mas elas ao menos se moviam.  Após várias horas de espera, completamente imóvel, ele ficou exasperado, irritado e começou a gritar em alto e bom som para expressar seu descontentamento com o sistema soviético.

À medida que ele foi chamando a atenção de todos, três homens grandalhões trajando casacos cinzas se aproximaram dele e silenciosamente pediram que ele saísse da fila e os acompanhasse.  Eles falaram que eram do KGB e que queriam ter uma palavrinha com ele.  Após levarem o cidadão para um cômodo isolado, eles lhe disseram que sua manifestação anti-governo, feita de maneira estrepitosa e em público, era totalmente inaceitável.

E então disseram: “Escute aqui, camarada, se isso ocorresse há uns cinco anos você seria imediatamente fuzilado ali mesmo.  Agora, porém, como estamos em glasnost e perestroika, temos de fazer as coisas de maneira diferente.  Mas você realmente deveria reconsiderar sua postura.  Por que você não vai para a sua casa e pensa com mais cuidado sobre isso?  Vá correndo e nunca mais faça isso de novo.”

O homem, então, vai correndo para sua casa.  Ao entrar no apartamento, sua mulher já vai logo dizendo: “Finalmente voltou, hein? Conseguiu o pão?”  E o homem responde: “Mulher, esqueça o pão!  Esse país está totalmente quebrado.  Não, não há mais pão nenhum.  Mas isso é o de menos.  A coisa está tão feia, que eles nem sequer têm munição!”

Embora o sistema soviético fosse cruel e enfadonho, os longos discursos proferidos pelos membros do alto escalão do Politburo tinham lá seu aspecto divertido porque eram completamente insanos.  A dúvida que assombrava a população era o que a mataria primeiro: a crueldade do regime ou a imbecilidade dos discursos.  Havia uma piada sobre isso.

Na década de 1970, houve um encontro especial entre quatro líderes do mundo: o secretário-geral Leonid Brezhnev, o presidente francês Valéry Giscard d’Estaing, o presidente americano Jimmy Carter, e a Rainha Elizabeth, da Inglaterra.  Eles almoçaram juntos e, após o almoço, sentaram-se para um chá.

Constrangedoramente, durante o chá, a Rainha flatulou de maneira relativamente estrondosa — e, como todos nós sabemos, a Rainha não flatula estrondosamente.

Imediatamente, o presidente Giscard d’Estaining elegantemente se levantou, assumiu a culpa e pediu desculpas em profusão pelo lamentável incidente, e explicou que ele havia comido muita sopa de cebola durante o almoço, e que isso afetava sua digestão.

O chá prosseguiu.

No entanto, apenas alguns minutos depois, a rainha disparou um novo foguete.

O presidente Jimmy Carter instantaneamente se levantou e se desculpou com grande sinceridade, explicando que ele sempre carregava consigo alguns amendoins, e que ele provavelmente não deveria tê-los comido.

Mas de nada adiantou.  Três minutos depois, a rainha expeliu uma nova rajada.

Dessa vez, ao ver que ninguém mais estava disposto a assumir a culpa, Brezhnev lentamente se levantou, olhou ao seu redor, levou a mão ao bolso do casaco, retirou um papel no qual estavam escritas algumas considerações, e as leu de maneira lenta e deliberada: “A responsabilidade por esse terceiro e consecutivo desarranjo intestinal de Elizabeth Windsor, conhecida por alguns como a Rainha da Inglaterra, é graciosamente assumida pelas massas operárias e trabalhadoras das cidades e vilarejos da União Soviética”.

E o que dizer, por fim, de todos os cadáveres?  Sim, havia uma piada sobre os homicídios.  Ela envolvia o grande líder da revolução, a lenda, o gigante, o homem mais importante que já viveu: Vladimir Ilyich Lênin.

Antes de se tornar o grande líder do mundo, Lênin passou uma temporada na Polônia, em uma pequena cidade nas montanhas ao sul do país chamada Poronin.  Enquanto estava em Poronin, Lênin alugou um quarto no andar superior de uma casa que pertencia a um comerciante local.

Um belo dia, Lênin acordou e abriu a janela.  O sol estava brilhando, os pássaros cantavam alegremente, e o ar estava agradavelmente fresco.  Lênin sentiu a grande exuberância da vida e finalmente percebeu que seu grande plano para a humanidade tinha um belo futuro.

Após a contemplação, ele começou a fazer suas higienes matutinas e, mais uma vez, sentiu-se limpo e revigorado.  Começou a se barbear enquanto olhava pela janela, admirando a magnificência daquele mundo que ele estava prestes a salvar, e pôs-se a pensar sobre novas ideias revolucionárias.

Ele, no entanto, tinha de ser cuidadoso, pois essa ainda era uma época anterior aos barbeadores elétricos, e ele estava usando uma navalha tradicional e muito afiada.

Enquanto se barbeava cuidadosamente, um garoto de cinco anos, filho do dono da casa, repentinamente entrou em seu quarto, fazendo algazarra, correndo, gritando e fingindo ser um cowboy, atirando com o dedo indicador de sua mão.  Lênin ficou estarrecido e irado, mas o garoto simplesmente continuou correndo dentro do seu quarto.

Lênin, então, colocou a navalha cuidadosamente sobre a pia e, com grande ira, gritou: “Pare com isso, seu menino maldito e idiota!  Saia do meu quarto imediatamente, e cale a boca, senão vou lhe dar um chute no traseiro com tanta força, que você jamais irá conseguir andar novamente!”

O garoto ficou paralisado de medo, começou a chorar e saiu correndo.  E todo o mundo ficou paralisado por um minuto, em choque e descrença.

Como era possível que esse grande e visionário líder da humanidade tenha agido de forma tão atípica, tão fora de sua característica tradicional?  Gritar com uma criança e perder seu temperamento desta maneira?  Por quê?  Não havia necessidade disso.  Ele poderia ter resolvido o problema ali mesmo, sem estardalhaço, sem gritaria e sem demonstrar suas emoções.  Afinal, ele tinha uma navalha bem afiada em suas mãos.


 

Krzysztof Ostaszewski  é nativo de Lodz, Polônia.  É professor de matemática e diretor e do departamento de ciências atuarias na Universidade de Illinois.
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