A culpa é da sociedade

por Benjamin A. Rogge
wpid-29multidao_afp3.jpgEm aproximadamente 63,7% de todas as minhas entrevistas em meu escritório como reitor do Wabash College, a pessoa do outro lado da mesa está ali para me dizer quem é culpado. E em 99,6% dos casos nos quais esta é a questão, a resposta é a mesma: o culpado não é ele.

Agora, se esses fossem casos de meras mentiras, nós poderíamos simplesmente balançar as nossas cabeças com a perda do antigo “Sim pai, eu cortei a cerejeira” [N.R. Refere-se a famosa história em que George Washingon teria cortado fuma cerejeira e incapaz de mentir teria admitido o fato ao pai] e nos voltarmos para outro problema, como o perigo apresentado à estabilidade da Terra pelo acumulo de gelo nas calotas polares. Mas negar a responsabilidade raramente é tão simples, e aqui está a história.

Os George Washingtons de hoje, no campus ou em qualquer outro lugar, dizem “Sim, eu derrubei a cerejeira, mas …” e aí se segue de 10 a 90 minutos de explicação, que supostamente deveria, no final, me fazer chorar e perdoar tudo. Depois disso, ele vai para casa planejar novas mentiras.

Os pequenos Georges de hoje dizem, “Sim, eu derrubei a cerejeira, mas deixe-me contar a história toda. Todo mundo da casa estava me dizendo que cortar a cerejeira era uma tradição por aqui. O que é isso? Algum deles realmente já derrubou alguma cerejeira? Bom, eu não sei, mas de qualquer forma existe a tradição, veja, e com essa falta de espírito escolar, eu achei que eu estaria fazendo à escola um favor quando eu cortasse aquela árvore velha e miserável”

Ou pode ser dito assim: “Veja, esse professor pediu para nós irmos à floresta coletar alguns espécimes. Ele talvez tenha dito quais árvores nós deveríamos cortar, mas, francamente, eu não conseguia entender metade do que ele falava e eu honestamente achei que ele tivesse se referido à cerejeira. Agora, na verdade, eu não estava na aula no dia que ele deu essa tarefa e esse meu amigo anotou e eu não posso fazer nada se ele cometeu um erro, posso? De qualquer forma, se o despertador tivesse funcionado e eu tivesse acordado na hora e ido a aula, eu saberia que ele disse para tirar as folhas de um arbusto de mirtilo europeu”

Até o momento nós só tratamos dos casos mais simples. Agora vamos mais complexos. Neste caso em particular, o pequeno George diz para o pai “Sim, pai, eu cortei a cerejeira, mas eu não pude evitar. Você e a mãe estão sempre fora de casa e quando você está em casa, tudo o que você faz é me mandar sair e ir praticar, lançando um dolár através do Rio Rappahannock. Eu achei que se eu cortasse a árvore você me daria um pouco de atenção, e você não pode me culpar por isso, pode?”

Pode se tornar ainda mais confuso. Aqui vai outro exemplo. Neste caso, o jovem George contratou um advogado habilidoso que leu todos os livros recentes sobre a sociologia do crime. O advogado defende o caso de George Washington da seguinte maneira: “É verdade que este jovem cortou a árvore, que é a prova A e está nas dez primeiras fileiras de assentos do tribunal. Também, não há nenhuma dúvida de que ele fez isso intencionalmente e maliciosamente, e também não se pode negar que ele fez a mesma coisa com metade das cerejeiras da Virginia do Norte. Mas podemos culpar o garoto? Ele pode ser responsabilizado pelas próprias ações? Não. O verdadeiro crime é a sociedade na qual ele vive, e não o dele. Ele é um produto do ambiente, uma vítima do sistema social que gera crimes sob todas as formas. Nascido na pobreza [vamos deixar o exemplo de George Washington de lado], criado na favela, abusado pelos pais” e assim por diante. O advogado termina apontando o dedo para mim e dizendo dramaticamente “Você, Reitor Rogge, como um membro da sociedade que produziu este jovem monstro, é tão culpado quanto ele e merece a mesma punição que ele”. O garoto acaba com uma pena de seis meses e eu sou expulso da cidade.

Eu quero me referir a outra possibilidade. Neste caso, o advogado chama como testemunha um psicanalista eminente que, como resultado de um exame realizado por ele no jovem, absolve o garoto de toda a responsabilidade consciente pelo crime, em um testemunho cheio de jargões desta semiciência, portanto obscura e um tanto pornográfica. Acontece que a cerejeira é um símbolo fálico e a ação do garoto é uma resposta inconsciente e perversa para o complexo universal da castração.

Improvável? De forma alguma. Como Richard LaPiere escreve no seu livro The Freudian Ethic (A Ética Freudiana):

A doutrina freudiana do homem não é nem clara nem simples, mas aqueles freudianos que focaram suas atenções nos criminosos criaram uma teoria, a partir da ideia freudiana, do ato criminal e uma prescrição de tratamento social que qualquer um pode entender. A teoria diz que é perfeitamente natural para os humanos violar a lei – qualquer lei, da lei que regula a velocidade máxima de automóveis até a lei que impede um ser humano de matar o outro.A explicação freudiana dos crimes absolve o indivíduo de toda responsabilidade pessoal pelo crime e coloca a culpa sobre os ombros de uma abstração – a sociedade. A sociedade moderna é especialmente dura com o indivíduo, já que impõe sobre ele tantas restrições, às vezes contraditórias, e ao mesmo tempo demanda dele tanto que não parece natural para ele. Os crimes cometidos por ele são, portanto, nada além de um sintoma da patologia oculta da sociedade, e é inútil puni-lo pelos pecados da sociedade, da mesma forma que é inútil tentar curar a acne medicando as pústulas, que são apenas um sintoma.

Onde é que tudo isto nos deixa? Quem é culpado? Bom, ninguém, ou, ao invés, todo mundo. A ética freudiana eliminou o pecado (e, claro, isso significa que eliminou a virtude também).

Pessoalmente, eu não sou capaz de aceitar isso. Eu não posso aceitar uma visão do homem que faz dele um peão indefeso tanto dos seus impulsos quanto da sociedade. Eu não nego que a nossa mente é uma câmara escura e complexa, nem que o individuo é muito influenciado pelo ambiente, nem mesmo a influência potencialmente prejudicial dos pais. Na verdade, depois de alguns meses como reitor, eu estava pronto para recomendar para a universidade que, dali por diante, nós só admitiríamos órfãos. Mas como um ato de fé eu insisti que o que faz um homem um homem é a habilidade potencial de conquistar tanto ele mesmo como o ambiente em sua volta. Se esta capacidade é, de fato, dada ou possuída por cada um de nós, o que segue é que nós somos, inevitavelmente e terrivelmente, para sempre responsáveis pelo que fizemos. A resposta para a pergunta “Quem é culpado?” sempre é “Mea Culpa, eu sou”.

Esta é uma filosofia dura. Os cristãos podem ter esperança no pensamento que, apesar dos pecados nunca poderem ser perdoados, ele ainda pode estar sobre a graça de Deus, apesar de ser um pecador. Os não-cristãos tem de encontrar alguma outra fonte de força, e acredite em mim, não é fácil encontrar.

O que isto tem a ver com a nossa vida no dia a dia, tanto dentro ou fora do campus? Na verdade, tudo. Isso significa que, como estudantes, nós devemos parar de culpar professores, colegas, pais, escolas onde cursamos o ensino médio, sociedade e até mesmo o despertador pelos nossos erros e falhas. Isso significa que como professores e administrados da universidade, nós temos de parar de culpar nossos estudantes, o conselho de administração, o espírito opressivo da sociedade (e até mesmo nossas esposas) das nossas próprias falhas.

Como indivíduos, isso significa que nós temos de parar de criar desculpas para nós mesmos, que nós devemos carregar cada cerejeira que nós cortamos na nossa consciência para sempre. Isto significa dizer, como Cassio “A falha, caro Brutus, não está nas estrelas, mas em nós mesmos”. Esta é uma filosofia dura, mas é também a única filosofia esperançosa que o homem já concebeu.


Sobre o autor

Benjamin A. Rogge

Benjamin A. Rogge é um economista americano e um dos fundadores da Foundation for Economic Education (FEE).

Tradução de Daniel Coutinho. Revisão de Matheus Pacini. // Artigo Original 

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