Modelos inertes versus economias em movimento

por Sandy Ikeda

wpid-hong-kong_03_681x298.jpg.jpeg


Os economistas de mercado contra a “concorrência perfeita”.

 

Desde 2008, versões “espantalho” da economia de livre mercado surgiram onde quer que alguém necessitasse de um vilão fácil. Keynes voltou a se destacar, e parece que essa reação pode estar ganhando força.

De acordo com um artigo do The Guardian, estudantes em algumas universidades inglesas, incitados por um “acadêmico proeminente“, estão demandando que professores de economia parem de ensinar ao que eles se referem como “teorias neoclássicas de livre mercado“.

Michael Joffe, um professor de economia no Imperial College, disse: “o objetivo deveria ser oferecer aos estudantes uma análise baseada na forma como o mundo funciona, não a forma pela qual as teorias dizem que ele funciona“.

Joffe vai direto ao ponto. Mas seu alvo está errado: não é a economia de livre mercado que é o problema, é o modelo de concorrência perfeita que frequentemente se mistura com a economia de livre mercado. Um leitor de minhas colunas recentes que tratavam dos mitos sobre o livre mercado sugeriu que eu discutisse essa união.

Eu estava pensando em escrever um terceiro artigo com “mitos”. Mas a reportagem do Guardian faz-me pensar que a questão merece maior atenção. Aqui segue um trecho:

A profissão tem sido criticada pela sua adesão a modelos de livre mercado que afirmam mostrar que a demanda e a oferta continuamente se equilibram em curtos períodos de tempo – em contraste com vários problemas que vieram antes da crise bancária em mercados-chave tais como imobiliário e de derivativos exóticos, onde as bolhas acionárias aumentaram [minha ênfase].

Por que você apoia o livre mercado?

 

Algumas pessoas apoiam o livre mercado puramente por causa da ideologia: eles acreditam que ela é consistente com os direitos individuais à vida, liberdade e propriedade. Para eles, pouco importa se os críticos estão certos com relação à fragilidade dos modelos econômicos ou sobre os fatos daquele caso. Em outras palavras, mesmo se o livre mercado fosse realmente responsável pela crise de 2008, tal fato não abalaria sua crença no valor do livre mercado.

“Os economistas de livre mercado”, por outro lado, normalmente confiam no livre mercado devido a nossa compreensão da economia, embora nós frequentemente discordemos relativo a qual é exatamente a correta economia. Uma série de economistas de livre mercado baseia sua confiança no que é chamado modelo da “concorrência perfeita”. Em síntese, aquele modelo mostra que, no longo prazo, o preço de um bem em um mercado competitivo se igualará ao custo adicional de produção de uma unidade daquele bem (isto é, seu custo marginal), e mostra que ninguém tem o poder de estabelecer preços por sua própria conta. Como conseguir tais resultados? Através da composição de suposições como essas:

  1. Livre entrada: enquanto compradores e vendedores podem incorrer em custos para consumir e produzir, não existem custos adicionais para a entrada ou saída do mercado.
  2. Homogeneidade de produto: do ponto de vista de qualquer comprador no mercado, a produção de um vendedor é um substituto perfeito para a produção de qualquer outro vendedor.
  3. Muitos compradores e vendedores: nenhum comprador ou vendedor isoladamente tem tamanho suficiente para aumentar ou reduzir de forma independente o preço do mercado.
  4. Conhecimento perfeito: todos os compradores e vendedores têm uma quantidade de informação suficiente para nunca se arrepender das ações que tomam.

Dessas suposições você pode derivar não somente a precificação do custo marginal, mas também as suas propriedades eficientes: não existe perda e os custos são reduzidos ao mínimo. É por isso que as pessoas gostam do modelo. Além disso, para algumas questões importantes, a análise da oferta e da demanda sob a concorrência perfeita é muito útil. Aumente muito o valor do salário mínimo legal e você gerará desemprego; coloque o valor máximo do aluguel muito baixo e você terá escassez de casas. Da mesma forma, às vezes, os mercados financeiros – embora tenhamos visto que, não sempre – correspondam às previsões da concorrência perfeita. É uma teoria robusta em muitos aspectos, mas se você baseia o seu apoio ao livre mercado em um modelo de concorrência perfeita, você está em terreno movediço. A evidência em contra disso é consideravelmente devastadora.

Livre entrada, não concorrência perfeita.

 

Na verdade, não é necessário considerar o pânico de 2008 para desequilibrar o modelo; qualquer comparação do modelo com a realidade diária seria suficiente. As suposições 2 e 3 sobre a homogeneidade do produto e muitos compradores e vendedores são bastante irrealistas, mas é a última suposição sobre a concorrência perfeita que é matadora. (Eu estou ciente do “twist” de Milton Friedman, o qual argumenta que isso é irrelevante e somente as previsões importam, mas é uma metodologia com a qual eu não concordo). Os mercados chegam raras vezes, se é que o fazem, ao equilíbrio ou quase-equilíbrio, e as pessoas com conhecimento imperfeito cometem erros que levam ao desequilíbrio, mesmo sem o tipo de intervenção governamental que causou o pânico de 2008.

Quando as instituições estão corretas, contudo, as pessoas aprendem dos erros cometidos por outros ou elas mesmas, e existe uma teoria dos mercados – certamente não keynesiana e, muito menos, marxista – que é mais adequada do que a concorrência perfeita.

É a teoria austríaca. Seus praticantes argumentam que a concorrência é um processo empresarial competitivo. Sua teoria não somente diz que a concorrência existe na presença da ignorância, erro e desequilíbrio, ela explica como empreendedores em busca de lucro no livre mercado efetivamente prosperam nesse ambiente. A suposição principal na qual a teoria sustenta-se, além da existência da propriedade privada, é a nº 1: a livre entrada

Enquanto não existir barreiras legais à entrada, se Jack deseja vender uma maçã por US$ 1 e Jill está pedindo US$ 2 por aquela mesma maçã de qualidade – isto é, existe um desequilíbrio aqui no qual Jack ou Jill (ou ambos) está cometendo um erro – você pode lucrar comprando barato de Jack e vendendo caro para o consumidor de Jill, Lucy. Se outro empresário, Linus, descobre o que você está fazendo, ele pode fazer subir o preço que está pagando a Jack e fazer cair o preço no qual você está vendendo para Lucy. Resumindo: o processo de concorrência empresarial tende a remover erros. Não é necessário assumir o conhecimento perfeito para obter um resultado competitivo; em vez disso, a própria concorrência aumenta o nível de conhecimento.

Dessa maneira, Joffe e seus críticos estão errados sobre a teoria. Você não destrói as bases teóricas do livre mercado por meio da “ridicularização” do modelo da concorrência perfeita. Ele também está errado sobre a história. Como referenciei diversas vezes, economistas como Steve Horwitz e Pete Boettke documentaram como uma dinâmica governamental e intervencionista, e não o livre mercado, levaram à crise de 2008.

Joffe, um professor do Imperial College, “pediu que os cursos de economia abraçassem os ensinamentos de Marx e Keynes para enfraquecer o domínio das teorias neoclássicas de livre mercado“. Ele também reclama que “existe muito que é ensinado nos cursos de economia que possui pouca relação com a forma pela qual as coisas funcionam no mundo real”. Eu concordo. No entanto, aquela reclamação deveria ser aplicada, pelo menos na mesma intensidade, à economia keynesiana e marxista que ele exalta, tanto quanto aos modelos de equilíbrio de concorrência que ele critica.


 

Sobre o autor

Sandy Ikeda é Professor de Economia na Purchase College da Universidade Estadual de Nova York, local em que recebeu o seu Ph.D. em economia e onde estudou com Israel Kirzner, Mario Rizzo, Fritz Machlup e Ludwig Lachmann. Autor de “The Dynamics of the Mixed Economy: Toward a Theory of Interventionism (1997).”, é um Associado do Institute for Humane Studies (IHS).

Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Russ da Silva. | Artigo Original

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s