O ser humano é inerentemente mau?

por Stephen Hicks

 

As pessoas são escória.” “A humanidade é um deserto moral.” “Eu tenho vergonha de ser humano.”

Sempre quando os cínicos se expressam, fico tentado a retrucar que a filosofia é uma autobiografia e que eles deveriam colocar suas afirmações na primeira pessoa: “Eu sou a escória.” “Eu sou um deserto moral.” “Eu tenho vergonha de ser quem sou.”

Certa vez, um colega de profissão aceitou meu desafio. Ele era um conservador religioso, e estávamos debatendo a natureza humana. Ele era pessimista, argumentando que os humanos são pecadores, movidos por desejos obscuros e antissociais, além de não confiáveis. Ele era um sujeito grande que praticou esportes agressivos, como futebol americano, na faculdade. A conversa voltou-se para mulheres e ele se recordou de uma antiga namorada. Ela era ingênua, ele pensava, por querer conhecê-lo de verdade. Ele disse, “Eu sou um homem de 1,90 e 110 kg. E ela quer que eu expresse meus sentimentos?”

O cinismo não é uma alegação jornalística de que existem muitas pessoas desprezíveis na sociedade. É uma alegação geral de que a natureza humana é repulsiva e nociva. (Veja Somos perversos demais para a liberdade?)

Na tradição religiosa ocidental, o cinismo com respeito à humanidade é mais fortemente expressado na doutrina incoerente, mas influente, do Pecado Original. Santo Agostinho, a principal voz da fé por mil anos, argumentou que “Ninguém está livre do pecado, nem mesmo a criança cuja vida conta só um dia na Terra”.

Se questionarmos a origem deste Pecado, temos que localizá-la no corpo ou na alma. De acordo com a perspectiva religiosa/dualista da natureza humana, tal como lemos, por exemplo, no livro do Gênesis, Deus pegou a poeira do chão, transformou-a em um corpo humano e soprou alma no seu interior. Os primeiros humanos, Adão e Eva, também cometeram os primeiros pecados, e depois de muitas gerações, ainda nascemos infectados com o pecado.

Inicialmente, é tentador situar o pecado dentro do corpo, já que é dali que advêm os impulsos fisiológicos por alimento, sexo e bebida. Nossos corpos são também tudo que herdamos pela reprodução sexual de nossos pais – que receberam seus corpos de seus pais e assim por diante, regressando até Adão e Eva. Por outro lado, cada alma individual é criada do zero por Deus, a sua imagem e semelhança. Portanto, a alma é pura, e é o corpo que é a fonte das corrupções da luxúria, gula e assim por diante.

Contudo, pensadores importantes na tradição religiosa, entre eles Agostinho, quase sempre negaram que o corpo é a fonte do pecado. Em vez disso, o pecado é algo que a alma faz ao se entregar a coisas que ela sabe serem erradas. Na sua forte e bem escrita autobiografia, Confissões, Agostinho nos diz que quando evitava seus estudos, quando roubava uma pera, quando mantinha relações sexuais com uma mulher – o pecado estava em saber que essas coisas eram proibidas e, mesmo assim, fazê-las. Quando ele roubou a pera, por exemplo: “Não me importei em desfrutar do que roubei, pois meu prazer estava no roubo e no pecado, isto é, no ato em si”.

Nós não culpamos um esquilo por “roubar” uma noz, já que o esquilo não tem “consciência” do que está fazendo. Agostinho tinha “consciência” – e deseja que nós ouçamos o eco do roubo original no Jardim do Éden. Eva sabia que o fruto da árvore era proibido, mas ela o consumiu da mesma forma. Isto é, sua alma era corrupta, assim como foi sua alma que fez a escolha de fazer a coisa que ela sabia ser errada.

Então, devemos concluir, a fonte do pecado está na alma. E aqui está o problema: a alma é criada diretamente por Deus, então, não pode ser originalmente corrupta. Diz-se que Deus é um ser perfeito, logo, tudo que Deus cria deve ser perfeito. É impossível que um ser perfeito criasse uma alma malvada – muito menos bilhões delas.

Então, onde pode estar a fonte da maldade humana? E como ela é transmitida de geração em geração, de tal forma que todos nós somos ainda responsáveis pelas transgressões de Adão e Eva? Nem o corpo, nem a alma são possíveis candidatos, logo a explicação tradicional parece incoerente.

Uma explicação suplementar à incoerência é culpar o livre arbítrio. Deus efetivamente fez a alma perfeita, e ele a dotou de livre arbítrio. O livre arbítrio é o tipo de poder – a capacidade de escolha entre alternativas. Dessa forma, não podemos culpar Deus por nos dar a capacidade de escolher o abuso.

Todavia, a incoerência não termina, dado que o suposto livre arbítrio dado por Deus é tão fraco que não nos protege do pecado. Eva pecou gravemente, assim como todas as pessoas da geração de Noé, de Agostinho, até os dias de hoje. Deus sabe disso; ainda assim, ele continua a criar almas de pouca força de vontade que Ele sabe que irão somente escolher o mau, o prejudicial e o pecado em detrimento do bem.

No final das contas, chegamos ao mesmo ponto que os pensadores da tradição religiosa chegaram, o qual é a asserção de que a doutrina do Pecado Original é um artigo de fé, um dogma no qual se deve acreditar, mas não necessariamente entender. O que devemos supostamente fazer é aceita-lo, admitindo nossa fraqueza e indignidade, submetendo e obedecendo às autoridades superiores.

Na era moderna, a influência da abordagem religiosa/dualista diminuiu entre intelectuais e em grande parte do público em geral.  A fé carrega menos peso em uma era comprometida com a evidência e a lógica. O apelo à alma tem pouco poder explanatório dado o poder das ciências físicas. E as demandas por obediência são uma afronta aos amantes da liberdade e da auto-responsabilidade.

Mas se nos afastarmos da explicação religiosa/dualista da natureza humana, então qual é alternativa? Se não existem almas, então isso não implica que os humanos são somente animais? Animais, nós (modernos) frequentemente ensinamos, são o produto de um longo caminho de desenvolvimento evolucionário e o resultado de forças materiais – as forças da química orgânica e da biologia como moldadas pelas forças físicas da geologia e do clima. Os humanos são parte daquela história e não eximidos dela. Eles podem ter alcançado o topo da cadeia alimentar, mas o que lhes permitiu chegar lá foi o seu poderoso instinto predatório.

Mas se rejeitarmos a explicação religiosa/dualista da natureza humana e a substituirmos pela explicação materialista/predatória da natureza humana, então ainda temos uma compreensão pessimista da condição humana. “Natureza, rubra nos dentes e nas garras” é dificilmente uma fundação para a visão otimista de que os humanos possam manejar a liberdade total e trabalhar em conjunto para o desenvolvimento de arranjos sociais mutualmente benéficos.

No meu próximo artigo, tratarei do desafio proposto pelo materialismo reducionista e seu entendimento da razão, emoções e impulsos humanos.


 

Sobre o autor

Stephen Hicks é professor de Filosofia na Rockford University em Illinois. Ele é o autor de “Explaining Postmodernism: Skepticism and Socialism from Rousseau to Foucault” (Scholargy Publishing, 2004). Ele pode ser contactado pelo seu website.

Tradução Matheus Pacini. Revisão Russ da Silva. | Artigo Original

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