O Demolidor e como não devemos esperar um “escolhido” para resolver os nossos problemas

por Sarah Skwire

wpid-demolidor-destaque.jpgMeus super-heróis favoritos não são aqueles que vem de planetas distantes ou de dimensões paralelas, dotados com força sobre-humana, habilidade para voar, artefatos mágicos, poderes psíquicos e assim por diante. Heróis como esses são divertidos, é claro. Ninguém está argumentando contra o apelo duradouro de heróis como o Super-Homem; contudo, eles não são meus favoritos.

Meus super-heróis favoritos também não são bilionários discretos que utilizam os lucros de seus negócios para combater o crime, construir mecanismos, e proteger suas verdadeiras identidades. Eu amo seus dispositivos e carros velozes. Eu gostaria de participar de suas festas, embora tenha certeza de que não sou tão descolada para tal. Mas tampouco eles são meus favoritos.

Meus super-heróis favoritos são os caras comuns que acidentalmente são picados por aranhas radioativas ou entraram em contato com um composto químico X e acabaram com poderes que não queriam ou mesmo esperavam ter. Eu gosto dos heróis que, nos dias ruins, mal conseguem pegar o ônibus na hora. Aqueles que derrubam café em sua camisa minutos antes de uma reunião importante com seu chefe. Aqueles que não se encaixam nos padrões convencionais. Aqueles que às vezes simplesmente não conseguem administrar as coisas.

Esses são os meus favoritos.

Eles são meus favoritos porque suas histórias não nos falam para esperar salvação dos céus, ou esperar por ajuda de uma galáxia distante, ou colocar toda nossa fé nas habilidades e poderes de uma pessoa. Suas histórias não nos falam que a fórmula para tornar o mundo melhor é deixar que os caras com os dispositivos bacanas resolvam nossos problemas. Suas histórias nos falam que as pessoas nas quais devemos confiar são aquelas que trabalham duro – aquelas que são acidentalmente heroicas em um primeiro momento, e que continuam sendo porque seus poderes acidentais acabam por chegar com grandes responsabilidades. Aqueles que tentam proteger suas casas, famílias ou vizinhanças porque as conhecem e as amam – não porque pensam que sabem o que é melhor para os outros.

Eles nos falam que as pessoas que podem nos salvar são aquelas que são muito parecidas conosco.

Tenho me divertido muito com a nova série de TV da Marvel, Demolidor, por essa mesma razão. O pobre, cego e órfão Matt Murdock é um advogado briguento vivendo em Hell´s Kitchen. É verdade que o acidente que o deixou cego aguçou seus outros sentidos a um nível excepcional – permitindo-lhe ler materiais impressos através do toque de seu dedo e detectar mentiras ao escutar os batimentos cardíacos. Comparado com outros super-heróis, Murdock é um dos mais comuns. Ele não possui nenhuma habilidade de cura e tampouco força sobre-humana. Quando ele apanha, dói. E Murdock apanha bastante.

Mas, como diz a música, mesmo caindo, ele levanta e segue em frente. Ele continua lutando contra os vilões, apesar de seus recursos limitados e de seu corpo machucado. Ele faz isso porque vê as coisas que estão erradas com sua vizinhança, e ele deseja corrigi-las. Ele não é um super-herói, mas está suando sangue para tentar fazer coisas heroicas.

O investimento pessoal do Demolidor na resolução dos problemas da sua comunidade, em vez de esperar por algum terceiro que possa resolvê-los no lugar dele, é uma história especialmente importante com a proximidade de uma nova campanha eleitoral. (E não é coincidência que o principal inimigo do Demolidor, o Rei do Crime, candidata-se a prefeito em algumas histórias do quadrinho e tem, pelo menos, um senador sob o seu domínio). As campanhas políticas, particularmente em nível nacional, estão tentando persuadir eleitores que um candidato ou outro é a pessoa que pode salvar o mundo para você. Vote no candidato X para a presidência e, como o Super-Homem, ele reverterá o fluxo do tempo de forma que nada mau jamais voltará a acontecer. Vote no candidato Y para a presidência e, como o Batman, ele usará seu conhecimento perfeito das circunstâncias e seu conhecimento perfeito da cidade para prender todos os bandidos. Eu vi um meme circulando pela internet com a cara de Rand Paul no corpo do Capitão América. Não é nenhuma surpresa que confundamos os limites entre políticos e super-heróis. O livro The Power of Glamour de Virginia Postrel usa políticos como JFK e Obama, assim como super-heróis como Super-Homem, como exemplos prototípicos de glamour. Eles nos seduzem. Eles nos fazem desejar vivamente um mundo melhor.

O desejo por um mundo melhor não é algo totalmente ruim. Ele pode inspirar mudança, movimento e melhoria. Mas frequentemente na política e nas histórias em quadrinhos isso significa que todos nós estamos vendo o mundo desmoronar, esperando por alguém com uma capa aparecer e colocar tudo de volta no seu lugar. Ao invés disso, nós poderíamos ser Matt Murdock, levantando a cada queda, fazendo os devidos curativos e resolvendo os problemas por nossa própria conta.

Se nós pudéssemos controlar esse impulso de desejar que os políticos fossem super-heróis prontos para nos salvar, talvez pudéssemos nos considerar como os super-heróis que irão resolver os problemas do nosso dia-a-dia que tanto esperamos.


Sobre o autor

Sarah Skwire publicou artigos acadêmicos em áreas tão diversas quanto Shakespeare e Buffy, the Vampire Slayer, e seus escritos figuraram em diversos jornais renomados. Ela ocasionalmente palestra para o Institute for Human Studies e outras organizações. Sua poesia já figurou no Standpoint, no The New Criterion, e no The Vocabula Review. Seu atual projeto aborda longamente o tópico do dinheiro na jovem poesia moderna. Ela gradou-se com honra em Inglês pela Wesleyan University, e recebeu o Mestrado e o PhD em Inglês pela University of Chicago.
Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Terceiro. | Artigo Original

 

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