Contra a coletivização

por Victor Hugo Lima

Certa vez George W. Bush perguntou aos seus compatriotas:

– Vocês já imaginaram um país incapaz de cultivar alimentos suficientes para prove sua própria população? Seria uma nação exposta a pressões internacionais. Seria uma nação vulnerável. Por isso, quando falamos de agricultura, estamos falando de uma questão de segurança nacional.

wpid-mi_2771457265211580.jpgEsse deveria ser mais um argumento para manter as mãos do governo longe da agricultura, mas os esquerdistas ainda defendem erroneamente a coletivização da terra. No Brasil vemos o MST, que mesmo após ações nefastas contra fazendeiros é defendido pelo governo¹. É muito fácil explicar aos socialistas o quão improdutível será  – e foi – uma instituição ou pedaço de terra que ficou sob comando “do povo”, mas sempre vemos respostas como “ isso não foi socialismo”, “ foi aplicado de modo errado” e afirmações ainda piores, mas nesse artigo vamos tratar esse assunto com não apenas teorias e suposições, mas sim  com dados das que já existiram focando nas fazendas chinesas,principalmente pré-1978.

“Terra para o lavrador”, esse era um dos principais slogans dos revolucionários chineses desde 1924 quando foi usado pela primeira vez por Sun Yat-sem.  Esse era o começo da propaganda que em 30 de Junho de 1950 foi realmente aplicada por Mao Tse Tung através da Lei da Reforma Agrária. Por meio dessa lei o governo confiscou a propriedade dos latifundiários rurais, redistribuiu e esmagou a classe identificada como feudal ou semifeudal. A propriedade de traidores, “capitalistas burocratas” (especialmente das “quatro grandes famílias” do Partido Nacionalista [KMT] -O K’ungs [Kongs], Soongs, Chiangs e Chen foi tomada pelo governo até 1953 quando o plano foi totalmente concluído, com algumas pequenas exceções em Taiwan².

Ao todo, cerca de um milhão de opositores foram executados para que, durante o período 1950-52, 300 milhões de camponeses receberam 730 milhões de metros quadrados de terra ³. Justiça seja feita, até 1958 o setor agrícola cresceu muito bem, até 1958, pois como toda medida governamental ela teve um efeito positivo rápido e consequências infinitamente mais catastróficas do que seus benefícios. Uma crise explodiu em 1959, muitos estudiosos dizem que isso aconteceu em função da transição da coletivização voluntária para um método compulsório, porém isso mesmo prova como o socialismo não funciona. Um dos setores mais importante de um país que é a agricultara acabou sendo destruído no socialismo, e em menos de uma década a própria população já não gostava mais do sistema econômico e quando isso influenciou na sua produção o governo usou seu poder coercitivo para fazer com que o lavrador continuasse a produzir para o Estado. Não por mera coincidência, em 1958, o governo lançou a campanha “ Grande Salto Adiante” que pretendia acelerar a coletivização do campo e da indústria, como esperado de uma ação governamental gigante o resultado foi totalmente inverso. Apenas 6 anos após o que deveria ser a salvação do povo, houve uma  repentina queda de 15% na produção de grãos, nos dois anos seguintes o setor produziu apenas 70% do que havia gerado em 1958, isso ocasionou a morte de 30 milhões de chineses e impediu o nascimento de mais 33 milhões de pessoas.*4

Ainda há divergências sobre o que causou isso, mas existem três principais hipóteses além da transição da coletivização voluntária para a compulsória:

1)      Três sucessivos anos de chuvas ruins
2)      Más políticas e mal gerenciamento das fazendas
3)      Problemas de incentivos devido o tamanho das fazendas coletivas *5

Dos três problemas nós vemos dois que seriam facilmente resolvidos se as fazendas fossem privadas. Estabelecimentos privados num livre mercado são muito mais bem gerenciados devido è preocupação do dono em obter seu lucro, o que não ocorre no caso do gerenciamento de uma propriedade que você pouco se importa, pois de qualquer modo você vai estar ganhando. Isso também implica em conseguir controlar melhor as atividades dos funcionários independente do tamanho pois no decorrer do tempo o proprietário se ajustará ao melhor modo de conseguir fazer com seus funcionários trabalhem melhor, o que num livre mercado seria definido por contratos voluntários.

Posteriormente os próprios socialistas admitiram a ineceficiência da coletivização, como escreveu Zhao Zyiang, ex-Primeiro-ministro da República Popular da China (1980-1987) e ex-secretário geral do Partido Comunista da China  ( 1987-1989 ) em seu livro Prisioner of the State: “ O abandono da coletivização resolve uma série de problemas que perturbam a liderança, a começar pelos baixos retornos e baixa produtividade do solo resultante de cultivos inadequados”.*6

Exatamente como a frase acima explica, o apogeu da vergonhosa administração aconteceu ao noroeste da província de Shandong.

Antes de 1983, as fazendas coletivas dessa região  só produziam cereais porque  o país sofria com a escassez crônica e Mao era obcecado pela autossuficiência alimentar *7. Contudo, a região de Shandong, no noroeste do país, onde o solo tem um alto teor alcalino, era mais adequada à produção de algodão. Embora esse também tivesse pouca oferta no país, o programa agrícola nacional dava prioridade às culturas alimentares sobre todas as outras: por imposição de Pequim, os agricultores de Shandong, foram obrigados a cultivar cereais, com resultados medíocres. Deng e Zhao revolucionaram o sistema, introduzindo um dos conceitos básicos do livre-comércio: os negócios com o mundo exterior. Graças às importações Shandong passou a trocar algodão por cereais.*8

Isso demonstra como o governo leva as pessoas a pagarem por seus atos, mas isso só é possível se eles têm o poder para tal ato. O problema agrícola chinês perdurou até 1978 quando um novo líder político subiu ao poder, Deng Xiaoping. Ciente das péssimas condições que o país estava, ele propôs um plano de modernização das fazendas agrícolas chamado Sistema de responsabilidade familiar. Os camponeses passaram a poder vender parte de sua produção, em vez de cedê-la integralmente ao governo, reforma que apresentou um tímido passo em direção à propriedade privada. A experiência foi bem sucedida:  a produção agrícola cresceu e passou a estar disponível nos mercados públicos.*9

Esse foi um pequeno avanço em direção ao livre-mercado que fez com que a produção de grãos e outros alimentos aumentasse absurdamente como ilustra a tabela abaixo.
wpid-table.pngA produção de grãos (grain) dobrou em 1978, assim como muitos outros setores  aumentaram com exceção da pesca. Isso é explicável devido ao fato de que o governo de Deng também permitiu que os cidadãos do campo pudessem migrar para as cidades (antes isso era proibido por lei). Em 1984 como o mesmo gráfico mostra, a produção aparenta ter “caído num buraco”, porém a explicação é que a medição foi feita por um órgão diferente, mesmo que semelhante. Enquanto as medições de 1970 até 1984 foram feitas pelo State Statistical Bureau, a medição de 1984-1987 foi feita pelo Agricultural Division of State Statistical Bureau.

Mesmo assim observa-se que a produção total do último período foi maior que a de quando este era totalmente coletivizado, tal fato é comentado por Justin Yifu Lin, formado na Universidade de Chicago e Vice Presidente Sênior do Banco Mundial:

“ Nós podemos ver que os índices do fator total de produtividade entre 1952-1988 podem ser divididos em quatro períodos, 1952-1958, 1959-1978, 1979-1983 e 1984-1988. No primeiro período de 1952-1958, que é dito o período da coletivização voluntária, o fator total de produção mostra uma tendência crescente, embora os incrementos sejam muito pequenos. Os fatores totais de produção caíram dramaticamente entre 1959 e 1960, quando a coletivização compulsória foi imposta, e todo o segundo período permaneceu cerca de 20% do fator total de produção atingido no primeiro sub-período.  Os registros melhoraram dramaticamente no terceiro período, o período da descoletivização. A partir de 1983 o fator total de produtividade recuperou o nível de 1952. No último período, os chamados sistemas de responsabilidade familiar reformaram o período, os índices do fator total de produtividade foram 30% maior que os de 1952. “

Com isso concluímos que não houve queda na produção agrícola no período 1984-1987, na verdade, segundo a explicação de Lin, a produção foi muito maior que a de 1952, o auge da coletivização. Não obstante aos dados teóricos, temos também um vasto acervo de dados matemáticos que mostram como a coletivização é ineficaz.

Mais recentemente, podemos citar o caso da Coréia do Sul que tem suas fazendas quarenta vezes mais produtivas que a da China atual. (http://www.businessinsider.com/chinese-farmer-productivity-2012-8) A notícia reforça muito bem o que foi tratado neste artigo, a Coreia do Sul, mesmo com menos água e terra arável, tem uma produção muito maior que a da China. Não é por menos que os fazendeiros chineses protestam há alguns anos, porém com o alto nível de poder que o governo ainda tem por lá é difícil que haja alguma mudança, mas esperamos que eles não repitam os mesmos erros do passado. (http://www.reuters.com/article/2011/09/23/us-china-guangdong-riot-idUSTRE78M30U20110923).

 

Referências:

  1. http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2015/03/dilma-participa-de-atos-do-mst-em-assentamentos-do-estado-4722609.htmll
  2. http://chineseposters.net/themes/land-reform.php
  3. (Chinese Academy of Social Sciences, 1992)
  4. Collectivization and China’s agricultural crisis in 1959-1961, p. 04
  5.  Collectivization and China’s agricultural crisis in 1959-1961, pp. 04-5
  6. Zhao, Prisoner of the State, p. 98
  7. Jasper Becker, Hungry Ghosts ( Nova York: Henry Holt ad Company , 1998)
  8. Loretta Napoleoni, Maonomics, pp. 63-4
  9. .Loretta Napoleoni, Maonomics, p. 41
  10. http://www.econ.ucla.edu/workingpapers/wp579.pdf
  11. http://econ.lse.ac.uk/courses/ec307/L/lin.pdf
  12. http://www.businessinsider.com/chinese-farmer-productivity-2012-8
  13. http://content-portal.istoe.com.br/istoeimagens/imagens/mi_2771457265211580.jpg
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