Os Anticapitalistas de Hoje Continuam Ignorando os Problemas Mais Básicos do Socialismo

Por Jonathan Newman

A grande ironia é que, com o colapso do modelo social-democrata e assistencialista na Europa e na América Latina, a retórica anti-mercado e pró-socialismo está ressurgindo com força nas manchetes dos jornais (ver aquiaquiaqui) e aparecendo cada vez mais frequentemente nas mídias sociais.

Invariavelmente, tais pessoas acreditam firmemente que organizações financiadas pelo governo — como o FMI (instituição criada por Keynes e financiada pelos impostos pagos pelos cidadãos dos países ricos) — são representantes da genuína economia de mercado.

Esse tipo de confusão conceitual não interessa a essas pessoas, pois os artigos e os memes de internet recorrem ao típico tom populista e a frases curtas e triviais, repletas de clichês e soluções fáceis — e são intencionalmente construídas assim para facilmente evitar ataques e causar mais impacto nos leigos.

Ao final, tudo pode ser resumido à seguinte mensagem: o socialismo funciona e é melhor do que o capitalismo.

Embora a maior parte dessa retórica venha da esquerda, a direita não é inocente, uma vez que a direita parece estar majoritariamente preocupada em promover sua própria versão de populismo, a qual aparentemente não envolve a defesa dos mercados.  Por exemplo, “Vamos restringir a entrada de imigrantes pobres!” não é a resposta certa para “Abaixo os lucros abusivos!”.

Em vez de descer a este nível tosco de argumentação ou de simplesmente dizer “Leiam Mises!” (essa, sem dúvida, uma resposta bem mais adequada), temos de mostrar, mais uma vez, que o socialismo — até mesmo sob o comando de líderes políticos angelicais e genuinamente bem intencionados — é impossível e gera consequências desastrosas.

A necessidade de haver lucros, preços e empreendedores

O socialismo é a propriedade coletiva (ou seja, o monopólio estatal) dos meios de produção.  O socialismo defende a abolição da propriedade privada dos fatores de produção (indústrias, fábricas, maquinários, bens de capital, e trabalhadores).  Salários e lucros são duas fatias do mesmo bolo, e o socialismo diz que a “fatia lucro” deve ser zero.

Todos os problemas teóricos do socialismo emanam de sua definição, e não de pontos específicos de sua aplicação.  Os defensores do socialismo definem “propriedade coletiva” como sendo a proibição de um mercado privado para os fatores de produção.  Só que, sem um mercado para esses fatores de produção, não há como haver formação de preços e salários para esses fatores.  E, sem essa formação de preços e salários para os fatores de produção, não há como mensurar os custos de produção.  E aí tudo se complica.

Em uma economia de mercado livre e desimpedido, os preços e os salários dos fatores de produção são determinados pela sua capacidade de ajudar a produzir bens e serviços que os consumidores querem.  Em termos mais técnicos, os fatores de produção tendem a ganhar o valor do seu produto marginal (“produto marginal” se refere às unidades extras produzidas quando se aumenta em uma unidade quantidade de fatores de produção).  E, dado que cada trabalhador possui alguma vantagem comparativa, há uma fatia do bolo para todos.

Se eventuais mudanças tecnológicas tornam certos fatores mais produtivos, ou se a educação e o treinamento tornam um trabalhador mais produtivo, então seus preços ou salários serão elevados a esse novo e mais alto produto marginal (um mesmo trabalhador ou um mesmo maquinário produzem agora mais bens).  Um empreendedor não irá contratar ou comprar um fator de produção cujo preço seja maior do que seu produto marginal, pois isso faria com que esse empreendedor sofresse prejuízos.

Prejuízos empreendedoriais são mais importantes do que muitos imaginam.  Prejuízos não são apenas um golpe no resultado financeiro do empreendedor.  Prejuízos significam que os recursos que estão sendo utilizados para produzir algo valem mais do que esse algo que eles estão produzindo.  Ou seja, prejuízos significam que o capital está sendo mal empregado; está sendo utilizado de maneira ineficiente.  Prejuízos, portanto, mostram que está havendo uma destruição de riqueza.

Já os lucros significam o oposto.  Lucros representam crescimento econômico e criação de riqueza.  Uma linha de produção lucrativa é aquela cujos itens utilizados para produzir um determinado bem de consumo custam menos do que o valor que os consumidores estão dispostos a pagar por esse bem de consumo.

Sendo assim, lucros e prejuízos são mais do que apenas incentivos importantes; são mais do que uma tramóia conspiratória do sistema capitalista.  Lucros e prejuízos são a única maneira de saber se está havendo criação de riqueza ou destruição de riqueza em alguma linha de produção.

Sob o socialismo, há um único proprietário para todas as linhas de produção.  E, por causa da ausência do sistema de lucros e prejuízos, esse proprietário não tem como utilizar os fatores de produção de maneira eficiente.  Ele não tem como saber quais fatores de produção devem ser direcionados para quais linhas de produção.  É impossível fazer uma alocação eficiente.  É impossível ter um mínimo de certeza sobre qual maquinário específico, qual ferramenta específica ou qual fábrica específica poderiam ser utilizados para produzir algum outro bem de maneira mais eficiente.

É impossível saber quanto de cada produto deve ser produzido em cada etapa da cadeia de produção.  É impossível saber quais técnicas ou quais matérias-primas devem ser utilizadas na produção como um todo.  É impossível saber qual a quantidade de matérias-primas a ser utilizada.  É impossível saber onde especificamente fazer toda essa produção. É impossível saber seus custos operacionais ou qual processo de produção é mais eficiente.

Ninguém sabe o que produzir, quanto produzir, como produzir, onde produzir.  Tem-se apenas caos econômico.

Quem é contra a liberdade de preços e salários está, em maior ou menor grau, defendendo a instauração desse caos econômico no sistema produtivo.

Sem mercado, impossível saber o que ou como produzir

O sistema de lucros e prejuízos é o que guia e corrige empreendedores no processo de produzir os bens que eles esperam ser demandados pelos consumidores.

Sem essa informação, incluindo-se aí muito especificamente os custos de produção, os empreendedores não podem incorrer em nenhum tipo de cálculo econômico.  Sem o sistema de lucros e prejuízos, é impossível estimar a diferença entre receitas futuras e os custos de produção necessários para alcançar essas receitas futuras.

Consequentemente, trabalhadores serão alocados para trabalhar em áreas nas quais não possuem nenhuma vantagem comparativa.  Agricultores são enviados para trabalhar em fábricas, e alfaiates são enviados para trabalhar em minas.  Trabalhadores estão em linhas de produção erradas tendo de lidar com máquinas e ferramentas que desconhecem.  A economia se torna uma bagunça.

O filme polonês Brunet Will Call, de 1976, satiriza situações como essa ao longo de toda a película, mostrando bens de consumo e bens de capital nos lugares mais improváveis.  Um açougueiro retira um cabo de embreagem do seu congelador e o repassa ao personagem principal, que paga fornecendo informações sobre a localização de dois carrinhos de bebê que talvez sejam do interesse do açougueiro caso ele venha a gerar filhos gêmeos (os carinhos estão em uma loja de flores, obviamente).

O fracasso do socialismo não depende da cultura, da época ou da localização das vítimas.  O socialismo já é falho em seu núcleo: a propriedade “coletiva” dos meios de produção.

Sendo assim, não há como criar uma versão funcional e produtiva do socialismo em lugar nenhum do mundo.  Na prática, os problemas teóricos do socialismo geram convulsões sociais e protestos, os quais são combatidos com rigor pelas forças policiais do estado, resultando em uma carnificina maior que a de todas as guerras oficiais já travadas no mundo.

Sem o sistema de lucros e prejuízos para guiar a produção, cotas de desempenho têm de ser impingidas.  Com essas cotas, e mesmo naqueles casos em que os trabalhadores não mintam sobre sua produção, o caos reina supremo.  Por exemplo, se o governo institui uma cota de produção de parafusos, impondo um número mínimo de parafusos a ser produzido, os trabalhadores dessa linha de produção irão produzir vários, pequenos e inúteis parafusos.  Já uma cota de parafusos baseada no peso estimularia os trabalhadores a produzir parafusos massudos e totalmente inúteis — uma situação satirizada neste desenho da revista satírica russa Krokodil durante a década de 1960.

Intermináveis filas se formavam na URSS repletas de pessoas procurando por sapatos — muito embora a produção de sapatos na URSS excedesse à dos EUA.  O problema era que todos os sapatos produzidos ma URSS eram pequenos demais, pois a produção de sapatos era mensurada unicamente pelo número de unidades produzidas, sem levar em consideração o tamanho e o estilo demandados pelos consumidores.

Não há como escapar da lei da escassez: se o governo impõe que deve haver um grande número de sapatos produzidos, e se os recursos disponíveis para produzir esses sapatos não são infinitos, então cada sapato produzido tem ser pequeno; caso contrário, não haverá material para fazer o número mínimo de sapatos determinados pelo governo.

Essa lei vale não apenas para sapatos, mas também para absolutamente qualquer outro item cuja produção seja estimada por burocratas e não pelas forças de mercado guiadas pelo sistema de lucros e prejuízos.

Nos estertores do socialismo

Alguns casos são apenas engraçados; outros são trágicos.  Aproximadamente sete milhões de pessoas morreram de fome na Ucrânia apenas no biênio 1932-33.  Os autores d’O Livro Negro do Comunismo (1999) estimam em 100 milhões de pessoas o número de mortos gerados por regimes socialistas e comunistas.  Isso é mais de 200 vezes o número de americanos mortos na Segunda Guerra Mundial.

Mesmo hoje, em Cuba, o salário médio é de aproximadamente US$ 20 por mês.  Na Coréia do Norte, os cidadãos são rotineiramente capturados e publicamente executados pelo “crime” utilizar televisões sul-coreanas contrabandeadas para o país.  E, na Venezuela, há escassez de alimentos e remédios.

Quando o povo se torna faminto e infeliz, é impossível o estado sobreviver caso esse povo saiba que há pessoas em outros lugares do usufruindo uma vida muito melhor.  Por isso, os estados comunistas recorrem à propaganda, à desinformação e à censura para fazer com que uma já cativa população fique ainda mais confusa e submissa.

Por tudo isso, devo-me confessar surpreso ao ouvir clamores por socialismo em pleno 2015 — se o poderoso argumento da impossibilidade do cálculo econômico sob o socialismo e a astronômica carnificina gerada por esse regime ainda não foram capazes de desanimar a esquerda em suas reiteradas exortações por mais socialismo, então nada mais o fará.

O socialismo é uma ideia falida e mortal, tanto na teoria quanto na prática.

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