A Persistênte Influência de Más Ideias

Por Stephen Davies

Às vezes livros e as ideias que eles contem, possuem um impacto mais duradouro que qualquer pessoa iria esperar. Muito depois de o livro em si ter sido esquecido e ter permanecido não lido, empilhado nos estoques das livrarias ou nas prateleiras de sebos, as ideias lá pregadas continuam a influenciar as pessoas e a forma como elas veem e entendem o mundo e os acontecimentos da atualidade. Em tais casos, o efeito no pensamento das pessoas é ainda mais profundo, pois as ideais não estão mais associadas a um autor ou ponto de vista particular. Ao invés disso, eles alcançaram o status glorioso de “senso comum” ou coisas que todo mundo sabe estar certo – mesmo quando elas não estão. Uma das funções mais importantes do historiador é descobrir tais influências ocultas e, com frequência, mostrar como elas podem estar incorretas. As ideias ruins possuem uma longa vida e é comum que se perpetuem além da vida dos seus idealizadores.

Um clássico exemplo é um livro primeiramente publicado em 1902. Esse foi Imperialism: A Study, de J.A. Hobson. Embora esse livro seja frequentemente citado por estudiosos (eruditos), é quase nunca lido hoje em dia. Mas as suas ideias principais continuam a ter grandes efeitos nos debates atuais. O autor, John Atkinson Hobson, foi uma das mais importantes figuras do “Novo Liberalismo” o qual, entre 1890 e 1914, causou uma transformação no Partido Liberal Britânico, distanciando-o do liberalismo clássico, de governo limitado de Gladstone e Cobdent, em direção ao liberalismo social de Keynes e Beveridge. Hobson e outros “Novos Liberais” eram intimamente associados aos Progressistas dos Estados Unidos, como Herbert Croly, que no decorrer do mesmo período gerou uma transformação na estrutura da política norte-americana e uma mudança no Partido Democrata similar à aquela ocorrida no Partido Liberal Britânico. Hobson escreveu extensivamente sobre questões econômicas, mas as suas ideias pouco ortodoxas impediram que ele lograsse obter uma posição acadêmica. Então ele ganhou a vida por meio do jornalismo político. O que ele e seus aliados intelectuais fizeram foi apossar-se das ideais clássico-liberais e de seus argumentos, relançando-as de maneira que frequentemente modificaram seu conteúdo de forma considerável enquanto não totalmente abandonando-as. Imperialism foi um exemplo disso.

O contexto para esse trabalho foi o grande renascimento do imperialismo na parte final do século XIX. Durante os primeiros dois-terços do século, o imperialismo tinha estado fora de moda como uma política deliberada. A visão geral era que as colônias eram uma perda de recursos e que as guerras para adquiri-las não eram só insensatas, mas imorais. Essa visão, compartilhada mesmo por pessoas que posteriormente tornaram-se identificadas com o Império, tais como Benjamin Disraeli, derivou-se, principalmente, dos argumentos feitos por uma série de pensadores liberais clássicos, de Adam Smith em diante. Sua versão definitiva foi proposta pelo liberal clássico inglês Herbert Spencer. Ele argumentou que todas as sociedades humanas poderiam ser divididas em dois tipos, as militares e as industriais. A do tipo militar, historicamente predominante, foi marcada pela hierarquia social e pelo governo de classes que obtiveram suas posições através do uso da força.

Em contrapartida, a sociedade industrial, que tinha aparecido na era moderna, caracterizou-se por relações sociais baseadas na livre associação e comércio. Império, significando a autoridade de uma pessoa sobre a outra, foi um dos elementos centrais da organização social do tipo militar. Para Spencer e outros liberais clássicos, o crescimento do capitalismo moderno e a crescente interconexão das pessoas do mundo através do comércio e a divisão do trabalho (a globalização no sentido atual) necessariamente implicava o desaparecimento dos impérios. O renascimento do imperialismo poderia somente ser retrógrado. Além disso, era economicamente insensato e contra produtivo, dado que a riqueza era criada pelo comércio, não pela autoridade imperial e nem pela força – um ponto feito por Smith.

Até cerca de 1870 essas ideias foram geralmente aceitas, contudo as últimas três décadas do século XIX viram o renascimento do imperialismo na teoria e na prática. Em 1884, a Conferência de Berlim dividiu a África entre os poderes europeus. Os anos de 1899 até 1902 viram a Guerra dos Bôeres, com a Grã-Bretanha buscando conquistar a República de Transvaal e o Estado Livre de Orange para poder ganhar controle dos minerais e diamantes da África do Sul.

Mais dramática foi a mudança de atitude e política nos Estados Unidos. De 1776 em diante, a maioria dos norte-americanos viram seu país como inevitável e naturalmente oposto ao Império e ao colonialismo. Na década de 1890, entretanto, pessoas como Theodore Roosevelt argumentaram que os Estados Unidos deveriam juntar-se à busca pelo Império. Tal visão encontrou ressonância na Guerra Hispano-Americana de 1898 e a subsequente conquista sangrenta das Filipinas. Em 1902, parecia que os Estados Unidos, juntamente com as potências europeias e o Japão, estavam pretendendo competir para desmembrar a China. Naquele momento, o imperialismo foi corretamente associado com o lado “progressista” da política e com aqueles que queriam expandir o poder do governo (como Roosevelt), enquanto que os liberais clássicos remanescentes opunham-se. Nos Estados Unidos, grande parte da oposição ao novo imperialismo veio dessa direção e envolveram tais figuras como Mark Twain, Andrew Carnegie, e ex-presidentes como Benjamin Harrison e Grover Cleveland. A reiteração mais clara do argumento individualista clássica contra o imperialismo foi feito por William Graham Sumner em seu severo discurso “A conquista dos Estados Unidos pela Espanha”.

Em meados de 1902, a divisão de opiniões parecia nítida. Um lado apoiava o governo limitado, o livre mercado, o capitalismo e o individualismo, e era oposto ao Império. O outro favorecia o Império e argumentava em favor da expansão do governo, protecionismo, socialismo, intervencionismo e o coletivismo. O livro de Hobson mudou o panorama completamente. A sua crença central, quase que uma obsessão, era o subconsumo. Ele pensou que em um sistema capitalista uma desigual divisão de riqueza e renda levava a uma excessiva poupança por parte dos ricos e uma falta de consumo por parte dos pobres. Como resultado, o sistema não funciona efetivamente, pois existe uma crônica insuficiência de demanda e grande parte da produção não pode ser consumida. Isso significa que uma economia moderna necessita de intervenção governamental e redistribuição para corrigir a situação. 

Um apoiador do livre mercado

Hobson, entretanto, era favorável ao livre mercado e era ferozmente contra o imperialismo, seu livro combinou esses dois elementos. Ele argumentou, seguindo a vertente liberal clássica, que o imperialismo, além de ser moralmente errado, não beneficia a maioria mesmo em uma nação imperial. Ao invés disso, ele somente beneficia uma corrupta, predatória e improdutiva classe. No entanto, ele identificou essa classe não com os detentores do poder político (como Spencer e Sumner), mas com os capitalistas, em especial, os capitalistas financeiros (explicitamente relacionados aos Judeus em diversas passagens de Imperialism). A sua tese era que o imperialismo era dirigido pelos interesses econômicos dos capitalistas financeiros, acima de tudo pela necessidade de encontrar locais para investir o capital que não poderia ser investido internamente. Esse argumento era seriamente deficiente, pois o grosso do investimento estrangeiro britânico não era no império, mas nos Estados Unidos e na Europa. Apesar de muitas críticas, Hobson lançou uma segunda edição virtualmente inalterada em 1938, embora admitisse na sua autobiografia que ele não mais pensava que o imperialismo tivesse primariamente um motivo econômico, vendo-o preferencialmente dirigido pelo desejo de poder.

Contudo, por essa época, a mensagem do seu livro tinha se tornado parte do senso comum. Isso foi parcialmente porque Lênin tinha eficientemente adotado o argumento de Hobson em seu próprio livro Imperialism: The Highest Stage of Capitalism e deste modo transformando-o ortodoxia na maior parte da esquerda marxista. Nos Estados Unidos, a análise de Hobson foi exitosa por contra própria e tornou-se amplamente aceita nos anos de 1920. Hoje, Hobson foi esquecido por muitas pessoas, mas suas ideais persistem. Acima de tudo, ele estabeleceu o que hoje se tornou lugar-comum, que o capitalismo e o imperialismo estão intimamente conectados, com um se alimentando do outro. Autores como Naomi Klein veem esse processo de “globalização” como envolvendo a difusão do neoimperialismo. Ao invés de corretamente ver o crescimento do comércio, da troca, da integração econômica como sendo diametralmente opostos ao imperialismo, esses autores o veem como aliados.

O que torna isso particularmente trágico é a forma que os últimos 15 anos têm visto a causa do império novamente tornar-se respeitável, sobretudo entre os defensores da “terceira via”. Ideias ruins, como aquelas que Hobson produziu, obscurecem nosso entendimento do que está em jogo e quais são os verdadeiros problemas.

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