O gigante Estadius

por Hiago Luiz

Vivemos em uma época politicamente tumultuada, não apenas na questão da crise governamental, mas também na conturbada esfera dos discursos ideológicos. Da direita para esquerda, os espantalhos e as argumentações rasas não têm fim. Em meio a pessoas que gritam por intervenção militar, e pessoas que anseiam por ditaduras proletárias, é difícil encontrar espaço para a liberdade. Essas pessoas amam o estado, elas o idolatram, odeiam os políticos, mas o estado jamais. Devemos então, recorrer a uma projeção imaginária para tentar entender se esse clamor é justificado. Seria realmente, o estado, uma instituição justa?

Vamos então pensar sobre essa pergunta: Se o estado fosse uma pessoa, ainda assim o amariam?
Imagine que o estado é uma pessoa, chamaremos a ele de “Estadius”. Estadius é um gigante, naturalmente bruto e violento, desprovido de qualquer noção de convívio social. Estadius habita uma pequena vila, onde exerce um papel a sua altura. Estadius exerce, sob esse vilarejo, o monopólio da utilização da força. O que isso significa? Significa que dentro do vilarejo Estadius pode utilizar de sua força pra fazer suas vontades.

Falemos um pouco sobre o tal vilarejo. O vilarejo costumava ser um lugar próspero, diversos comerciantes de todo o mundo vinham pro vilarejo abrir seus negócios. Iam para lá, pois o mundo estava tomado pelos gigantes e sua natural violência, e no vilarejo isso não existia. Os cidadãos do vilarejo eram os únicos a se considerarem livres, tinham liberdade para vender sua força de trabalho, para comprar a força de trabalho de outros, tinham liberdade plena, e se gabavam disso. É claro que existiam conflitos, mas nada que os tribunais locais não resolvessem, eram pagos de bom grado pelos cidadãos, e concorriam entre si, aumentando sua eficiência e sua qualidade. A pobreza existia, como em qualquer lugar do mundo, a diferença é que aqui os gigantes não impediam os pobres de saírem dessa situação, além do que, os próprios cidadãos cuidavam dos mais necessitados, os gigantes aqui não “monopolizavam” a caridade, isso incentivava a filantropia e aumentava o bem estar geral.

Bom, esse era o vilarejo há alguns anos, mas depois de ficarem sabendo dessa terra livre, um grupo de burocratas se estabeleceu no vilarejo, e pouco a pouco trouxeram Estadius para dentro. “A pobreza é causada pelos mais ricos, Estadius acabaria com a pobreza se aqui estivesse” diziam eles, mas sem explicar suas próprias afirmações. Diziam que enquanto Estadius não chegasse, aquilo ali seria um caos, uma injustiça. Muitos não conseguiam entender o novo vocabulário dos burocratas, enchiam a boca para falar sobre justiça social, sobre luta de classes e sobre o sonho de uma igualdade forçada. Nada disso fazia sentido para os moradores, mas eles nada podiam fazer, no vilarejo todos eram livres para expressar seus pensamentos.

Foi então que Estadius chegou ao vilarejo, e os moradores jamais se esquecerão desse dia. Estadius não se parecia com nada que eles conheciam, sua brutalidade era natural, inata à ele. Estadius chegou e se colocou aos comandos dos burocratas, que começaram dizendo que Estadius ia ficar responsável somente pela segurança do vilarejo, e que todos seriam obrigados a pagar por essa segurança. Os moradores não gostaram da ideia, alguns indivíduos já eram pagos para patrulhar e cuidar da segurança, quem quisesse contratava seus serviços, e quem não quisesse não contratava, e os moradores não enxergavam o erro nesse arranjo. Mas Estadius foi firme, e disse que ele, e somente ele, faria a patrulha. Quem não seguisse essa regra, ou não pagasse por seu serviço, seria encarcerado até a resolução dessa questão.

Os burocratas, é claro, ficavam com uma parcela do dinheiro arrecadado, justificavam essa parcela por supervisionar o trabalho de Estadius, mas ninguém engolia essa. Os burocratas com o passar do tempo aumentaram as funções de Estadius. Apaixonados pela ideia de algo que eles chamavam “justiça social”, eles mandaram Estadius roubar diretamente das pessoas que mais tinham dinheiro no vilarejo para distribuir para os mais pobres, esse roubo era justificada pela tal justiça social, e é claro, uma parcela desse roubo ia para os burocratas (os únicos realmente beneficiados por essa extorsão).

A partir desse momento, muitas pessoas começaram a ficar descontentes com os burocratas, os empreendedores tiveram que demitir funcionários, aumentar o preço dos produtos que vendiam, afim de manter o padrão de vida mesmo com os confiscos, e isso é claro, afetava negativamente a todos, especialmente os mais pobres. Em meio a tudo isso, um fenômeno foi acontecendo, os burocratas foram se tornando cada vez mais e mais ricos, o que era visivelmente injusto, pois eles nada produziam. Essa imerecida riqueza foi despertando cobiça entre os moradores do vilarejo, que começavam a enxergar nessa imoralidade um caminho para a prosperidades.

A população então se reuniu e decidiu: de 4 em 4 anos seriam feitas votações para decidir quem assumiria o controle de Estadius, todos teriam o direito à um voto para decidir quem comandaria Estadius. A partir desse momento, Estadius começou a ter outra função, Estadius agora era usado para conquistar votos, Estadius roubava do povo e construía um hospital “gratuito” com esse dinheiro, e depois roubava mensalmente para o manter.

Do hospital “gratuito” para a escola “gratuita” foi um pulo, cada vez mais coisas gratuitas eram feitas(e saiam mais caras do que nunca). Estadius se tornou o dono daquela sociedade, decidia quem trabalhava pra quem, quem podia ou não prestar serviços de transporte, de alimentação, entre muitos e muitos outros. As pessoas não conseguiam mais imaginar um vilarejo sem Estadius, quem o fazia logo era taxado de utópico, de irrealista, seja na projeção ou na realidade, defender a liberdade era tarefa árdua.

Passaram anos, Estadius só crescia, mas cada vez mais as pessoas do vilarejo questionavam a legitimidade e a necessidade de Estadius. Se libertar das amarras desse gigante era dificílimo, não adiantava responder com agressão, idéias e somente idéias deviam ser as armas contra esse monstro.

Um dia Estadius cresceu demais e virou um peso morto, não mais comandava a sociedade, era carregado por ela, os mercados paralelos foram tirando suas forças pouco a pouco. Estadius não tinha mais força para lutar. Contam as histórias que um aplicativo de celular derrubou um poderoso cartel estatal de transporte, difícil acreditar né? Estadius pouco a pouco caiu, era insustentável, não havia mais como continuar. Estadius conseguia governar servos, mas surgiam homens livres, e homens livres não são governáveis, homens livres preferem a morte à servidão.

Chegamos ao fim da projeção, mas a realidade não deixa de nos mostrar os Estadius que vagam mundo à fora, uns maiores, outros menores, todos gigantes. Devemos lutar contra eles até o ultimo cair por terra, propaguemos idéias, criemos mercados paralelos. Enquanto um homem livre existir, a liberdade inevitavelmente triunfará, a era dos gigantes terá fim, um a um eles cairão, mostrando a todos a ilusão de seu tamanho.


Hiago luiz é estudante de economia da UFRJ, cordenador local do EPL e anarcocapitalista.

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