O que a A Arte da Guerra e a Arte de Empreender tem em comum

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Por Matthew Mccafrey

A Arte da Guerra de Sun Tzu é merecidamente reconhecida como uma das grandes obras sobre estratégia. Embora trate especificamente de estratégias de guerra, no decorrer dos séculos, tem sido usada muito mais como manual de negócios. De forma brilhante, assim como bons escritos econômicos, ela expressa ideias complexas de forma simples e concisa, e sua prosa dramática gerou diversos insights valiosos sobre conflitos.

Contudo, mesmo que as analogias entre as salas de reuniões e os campos de batalha possam parecer atraentes, elas são errôneas. Economistas como Mises enfatizaram que a competição de mercado e a competição militar não poderiam ser mais diferentes; uma é produtiva e aumenta o bem-estar humano, enquanto a outra é destrutiva e prejudica a vida humana e a economia.

No entanto, a Arte da Guerra permanece popular no mundo dos negócios porque a obra não trata, realmente, de conflitos armados. Trata, sim, da busca por formas de evitar ou resolver conflitos de forma vantajosa. É esse tipo de ideia que oferece insights ao mundo empresarial.

Para o mundo empresarial, um dos principais atrativos da obra de Sun Tzu é sua ênfase no pensamento empresarial. Para ele, a excelência estratégica diz respeito à criação de oportunidades e à tomada de riscos, as mesmas habilidades necessárias para o sucesso no mercado, onde a incerteza desafia constantemente o bom julgamento de futuros empresários.

Um bom processo decisório também deve ser “maleável”, de forma que seja possível aproveitar todas as oportunidades de forma instantânea, adaptando-se perfeitamente às mudanças das condições de mercado. Os estrategistas clássicos perceberam que o sucesso competitivo depende da habilidade de um indivíduo controlar e manipular as condições internas e externas de conflito. Isso significa conhecer as próprias habilidades e fraquezas, assim como aquelas da concorrência, como resumido no mais famoso aforismo de A Arte da Guerra “Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas”.

As qualidades que esses estrategistas clássicos recomendam aos grandes generais são, na verdade, os traços de empresários bem sucedidos. Por exemplo, os empresários são decisivos e dispostos a suportar a incerteza do mercado – sem medo de aplicar recursos em projetos que podem fracassar. E devem estar dispostos a superar as dificuldades no caminho para o sucesso, sem jamais tomar nada como certo, isto é, serem vítimas da complacência e arrogância – traços que os consumidores frequentemente punem com severidade.

A comparação entre as ideias estratégicas e econômicas levanta uma questão importante: se as analogias com respeito a mundo dos negócios são tão obvias, e os textos antigos realmente têm algo em comum com o pensamento econômico, por que os estrategistas clássicos não perceberam que suas ideias eram aplicáveis à troca pacífica? Uma resposta simples é que a economia de mercado como a conhecemos não existia na China antiga (especificamente, durante os períodos da Primavera, Outono e dos Estados em Guerra). Uma resposta mais completa é que não poderia ter existido. Isto é, à China antiga lhe faltava muito da estrutura institucional necessária para o desenvolvimento do empreendedorismo e do comércio – direitos de propriedades, individualismo, e o reconhecimento social da importância do lucro.

Como William Baumol argumenta, as instituições de uma sociedade influenciam o curso tomado pelas suas energias empresariais. Muitas das grandes mentes da Renascença – por exemplo, os inventores e inovadores perfeitamente capacitados para aumentar o bem-estar por meio do mercado – eram empresários militares à serviço de cidades-estados concorrentes. As instituições políticas ofereceram patrocínio e possibilidade de crescimento, enquanto as oportunidades de comercialização das ideias eram escassas, quando não inexistentes. Isso quer dizer, os estados da China antiga, juntamente com inúmeros outros ao longo da história, não tinham as “virtudes burguesas” que Deirdre McClosky afirma ter estabelecido as bases para a Revolução Industrial.

Essa é, então, uma explicação para o surgimento d´A Arte da Guerra e outros clássicos chineses da estratégia.  O baixo reconhecimento das virtudes do comércio, presumivelmente, tornava a análise da competição de mercado pouco interessante. Sem uma base institucional e cultural para o empreendedorismo de mercado, o pensamento clássico voltou-se para a análise de formas destrutivas de competição que ofereciam melhores oportunidades “de lucro” – especificamente, a chance de exercer influência dentro da burocracia estatal. Espalhar ideias sempre significou encontrar um lugar nas cortes, tornando-se conselheiro de confiança dos poderosos. Isso, pelo menos, os estrategistas clássicos tinham em comum com intelectuais do Renascimento como Machiavel – quem, talvez não por coincidência, também escreveu um livro intitulado A Arte da Guerra.

A lição é de que todas as sociedades enfrentam o problema do desenvolvimento e manutenção das instituições que permitem o progresso das empresas – aquelas instituições que direcionam o melhor da energia criativa humana para melhorar a vida dos outros, não ao serviço do Estado militar. A ideologia tem papel fundamental nesse processo social e pavimenta o caminho para a paz e a prosperidade comercial. Em vez de um manual para a competição violenta, obras como A Arte da Guerra podem nos ajudar a desenvolver uma estratégia na batalha das ideias. No fim das contas, as ideias moldam a sociedade e nossa função nela, e depende de nós abraçarmos e divulgarmos aquelas que nos afastam da destruição da guerra e nos aproximam da “destruição criativa” das empresas.

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