Ter de trabalhar é o equivalente a ser escravo? Para a esquerda, sim

Por Julian Adorney

Ter de trabalhar é algo coercivo?  Ter de trabalhar representa um atentado contra as liberdades individuais?  A se julgar pelo que dizem as esquerdas, e até mesmo a esquerda libertária, sim.

Para muitos progressistas, todo o necessário para se abolir as liberdades de um indivíduo é fornecer a ele um emprego considerado ruim (segundo os padrões progressistas).  A Amazon, por exemplo, é constantemente criticada pelo seu ambiente de trabalho, com vários detratores como o site Business Insider chamando-o de “campo de escravos“.

[N. do E.: segundo a reportagem — que beira o cômico para os padrões brasileiros —, a Amazon comete o inaceitável crime de pagar um salário mínimo (em libras esterlinas), exige metas de produtividade, e maliciosamente se recusa a empregar uma vultosa mão-de-obra permanente (pois não quer correr o risco de lidar com sindicatos grevistas), preferindo utilizar a agências de emprego para conseguir empregados temporários. Para completar, a reportagem, em tom de espanto, diz que “apesar dos baixos salários, há várias pessoas à procura desse emprego”].

Pode-se dizer que essa comparação entre “empregos ruins” e campos de trabalho forçado — um luxo comparativo a que se podem dar apenas os países ricos —, no mínimo, faz uma confusão básica a respeito da natureza fundamental da coerção.

Vários esquerdistas, dentre eles a própria esquerda libertária — como, por exemplo, Susan Webber do site Naked Capitalism —, argumentam que, dado que temos de trabalhar para viver, o trabalho é uma atividade coerciva.  Se você tem de fazer X para viver, então certamente quem controla sua capacidade de fazer X está coagindo você.

O problema com esse argumento é que o estado natural em que vivemos não é um paraíso rousseauniano, mas sim um lugar brutal no qual a maioria morreria rapidamente caso o trabalho e o progresso não houvessem criado moradias, vestuários e uma crescente quantidade de alimentos. O estado natural do homem é o da pobreza. A pobreza é a condição natural e permanente do homem ao longo da história do mundo.  E, caso ainda estivéssemos nesse estado, estaríamos hoje diariamente efetuando um infindável trabalho exaustivo e maçante apenas para caçar, matar e cozinhar qualquer coisa que fosse capaz de nos manter vivos.  A jornada de trabalho abrangeria todo e qualquer momento do dia em estivéssemos acordados, e o salário seria apenas a refeição ocasional que conseguíssemos fazer.

E foi o capitalismo — empreendedorismo, divisão do trabalho, propriedade privada, acumulação de capital e investimentos — que praticamente aboliu essa condição miserável e nos proveu com a abundância com a qual hoje estamos acostumados.

Não há nada impedindo as pessoas de voltarem a viver nesse estado de coisas no mundo moderno — por exemplo, isolando-se numa floresta —, mas a beleza do capitalismo é que ele nos oferece uma maneira para sairmos dessa existência desgraçada e miserável.

Quando uma empresa oferece um emprego a um indivíduo, ela não o está ameaçando com a frase “trabalhe ou morra!”, da maneira como faziam os senhores de engenho; ela está simplesmente prometendo a este indivíduo que, se ele ajudar a empresa a ser bem-sucedida, a empresa lhe dará dinheiro, o qual representa um meio para melhorar seu padrão de vida.  Trata-se de um arranjo moral: você me ajuda, eu lhe ajudo.

Há também outro argumento progressista muito frequentemente repetido: o ambiente de trabalho seria coercivo em virtude de uma desigual distribuição de poder.  Segundo tal raciocínio, o fato de os patrões poderem demitir aqueles empregados que não fizerem X seria um ato de coerção.

Tal raciocínio, obviamente, desconhece a natureza do trabalho e ignora o poder dos empregados.

Coerção, de acordo com o Oxford English Dictionary, significa “a prática de induzir, pressionar ou compelir alguém a fazer algo pela força ou ameaça.”  Envolve uma ameaça de ferir alguém caso tal pessoa não faça X.  Em uma prisão ou campo de trabalho forçado, prisioneiros podem ser espancados ou mortos por não cumprirem ordens.

Isso é fundamentalmente diferente da promessa de um empregador normal, o qual manterá uma relação voluntária com os empregados enquanto essa relação for mutuamente benéfica.  Enquanto o empregado estiver desempenhando um bom serviço, a empresa continuará o ajudando a melhorar seu padrão de vida.  No entanto, se o empregado não mais oferecer valor para a empresa para a qual trabalha, então essa empresa não tem nenhuma obrigação de continuar a ajudá-lo.

Recusar-se a continuar ajudando alguém que não mais lhe ajuda é fundamentalmente diferente de usar de “força ou ameaça”, estas sim inerentes à coerção.  O chicote de um senhor de engenho piora a situação de uma pessoa que não faz o que lhe mandam.  Os salários continuamente pagos por um patrão melhoram a situação de uma pessoa que faz o que lhe pedem.

Sim, é verdade que ser demitido pode deixar um empregado em uma situação ruim.  E isso é ainda pior se ele for demitido sem aviso prévio.  Trabalhar para uma empresa muito exigente, em conjunto com a possibilidade real de ser repentinamente demitido caso não faça um bom trabalho todos os dias, não constitui um tipo de emprego com o qual todos nós sonhamos.  Porém, dizer que isso é igual a um trabalho escravo chega a ser inclusive desrespeitoso para com os empregados, pois se está denegrindo a empresa para a qual trabalham.

A comparação ignora o poder dos empregados.  Eles podem sair de uma empresa sempre que quiserem.  Nada os proíbe disso.  Mais ainda: o fato de poderem sair da empresa sempre que quiserem lhes concede o poder de deixar seu empregador em uma situação difícil.  Em uma pequena empresa, um empregado que pede demissão pode deixar a empresa sem a força de trabalho necessária para continuar com seus serviços.  Se um contador repentinamente sair de uma empresa de contabilidade durante o período de acerto do Imposto de Renda, essa empresa pode ficar em sérias dificuldades para cumprir o prazo de seus acordos com seus clientes.

Mesmo em empresas grandes, empregados que repentinamente pedem demissão geram custos para seus patrões.  Os custos para se encontrar substitutos e treiná-los podem variar entre 20 e 50% do salário anual desse empregado.

No que mais, esse tipo de comparação também ignora o fato de que as pessoas tendem a encontrar empregos que representam sua melhor alternativa.  Esse é o caso da Amazon no Reino Unido, que foi severamente criticada em 2013 por ter construído seus “centros de processamento” em regiões que, segundo o The Guardian, são “locais de alta taxa de desemprego e poucas oportunidades econômicas”.  Ora, mas isso foi ótimo para esses desempregados.  Trabalhadores que até então estavam sem empregos, correram para a Amazon sabendo que, embora não fosse o trabalho dos sonhos, representaria uma alternativa superior à realidade vigente deles: o desemprego.

A questão da coerção é importante de ser entendida porque representa o cerne da diferença entre o governo e o setor privado.  Se você não fizer X, o governo irá punir você: ele pode confiscar seus ativos, jogar você na cadeia e até mesmo matar você.  Isso sim é genuína coerção.  Em comparação, se um patrão pede a você para fazer X, ele não pode lhe ameaçar; tudo o que ele pode fazer caso você diga ‘não’ é parar de continuar lhe dando dinheiro.

Essa diferença ressalta a essencial liberdade que há no mercado.  Em qualquer tipo de relação de mercado, um lado pode optar por se retirar e o outro lado não pode lhe infligir nenhum malefício.  Essa é uma liberdade que notavelmente não existe em nossa relação com o governo.

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