Ser individualista é ser contra a cooperação?

cooperation

Por Charles W. Johnson

Individualistas têm uma péssima reputação na política atual. Isso não deveria ser nenhuma surpresa; a política nos dias de hoje é dominada pela política eleitoral, e a política eleitoral é uma empreitada essencialmente anti-individualista. Em mercados livres e outras formas de associação voluntária, as pessoas que não conseguem concordar sobre o que vale a pena podem seguir seus próprios caminhos. Entretanto, todo o ponto de termos eleições governamentais é permitir que às pessoas que detêm a maioria política tenham um meio para forçar suas leis, projetos e governantes favoritos sobre as objeções das pessoas que estão na minoria política, fazendo todo mundo obedecer essas leis, financiar ou participar desses projetos e reconhecer  os governantes da maioria.

Ainda assim, mesmo se for pouco realista esperar que o individualismo receba muito respeito de pessoas que estão profundamente envolvidas na política eleitoral, não é pedir demais que elas parem de tentar ganhar pontos políticos espantalhando totalmente nossa posição. Em todo caso, se elas o fizerem, vale a pena esclarecermos as coisas.

Por exemplo, considere “The Social Animal” do colunista neoconservador do New York Times, David Brooks. Ele começa citando o argumento de Barry Goldwater (em The Conscience of a Conservative) de que “Todo homem, para seu bem individual e para o bem de sua sociedade, é responsável por seu próprio desenvolvimento. As escolhas que governam sua vida são escolhas que ele deve fazer; elas não podem ser feitas por qualquer outro ser humano […] A primeira preocupação do conservadorismo sempre será: Estamos maximizando a liberdade?”.

Noções Antiquadas?

Brooks diz que as ideias de Goldwater parecem vir de uma visão da vida humana baseada em indivíduos solitários e ásperos – “o pioneiro corpulento cruzando o Oeste, o empresário tomador de riscos com uma visão, o herói valente lutando contra o inimigo coletivista“. Brooks afirma que “uma maré de pesquisas” nas ciências humanas e sociais demonstrou que as noções individualistas antiquadas de Goldwater não encontram respaldo nas últimas evidências empíricas porque, de acordo com Brooks, seres humanos são criaturas sociais por natureza, intimamente ligados uns aos outros no tecido de uma vida social compartilhada.

Em seguida, ele lista uma série de políticos republicanos que considera muito travados no espectro de livre mercado do velho Goldwater – cortes de impostos, vouchers de educação financiados por impostos, e a “escolha individual financiado pelo governo federal” dos cuidados de saúde. Ele sugere que princípios individualistas de livre mercado impediram os conservadores modernos de proporem uma justificativa convincente para os gigantescos resgates financiados por impostos do governo federal para as principais empresas de investimento e seguradoras. (Aparentemente a falha em fornecer uma justificativa convincente para os regates governamentais das grandes empresas deve ser um problema do individualismo, não um problema com os resgates.) E ele conclui que o legado de Goldwater de individualismo de livre mercado irrealista agora é “o principal impedimento para a modernização Republicana“, que ele acredita que tem prejudicado os esforços de seus colegas republicanos para fornecer respostas plausíveis para “as mais graves preocupações atuais“, que remontam ao fato de que “as pessoas não têm um ambiente seguro em que possam levar suas vidas“.

Talvez Brooks esteja certo sobre o legado de Goldwater estar atrasando os Republicanos politicamente. Ideias individualistas podem ser difíceis de vender, ainda mais quando o foco obsessivo na política eleitoral como uma panaceia para todo mal social garante que ideias genuinamente individualistas quase nunca sejam apresentadas na mídia, ou discutidas em fóruns públicos. Mas quer ele esteja certo ou errado sobre a melhor maneira para os Republicanos se “modernizarem completamente”, eu não ligo muito para o Partido Republicano ou seus prospectos políticos, ou para a reputação de Barry Goldwater. Eu me importo, sim, com os prospectos para o individualismo e para mercados verdadeiramente libertos. E o argumento de Brooks contra eles comete uma série de erros grosseiros e enganosos.

Brooks, em última análise, condena políticas de livre mercado porque elas têm cheiro de individualismo, e condena o individualismo porque seres humanos são animais sociais, que vivem vidas interdependentes e ganham tanto utilidade quanto significado através de redes sociais, comunidades e projetos compartilhados. Ele aponta que pensadores conservadores tradicionais como Edmund Burke apreciavam “o valor das redes, das instituições e dos laços sociais invisíveis” – aparentemente acreditando que isso os separa dos individualistas defensores do livre mercado. Claro que seres humanos são criaturas sociais e que redes, instituições e laços sociais invisíveis são todos tremendamente importantes para nossas vidas e subsistências compartilhadas. Mas tentar usar isso como um argumento contra o individualismo não é nada além de um non sequitur pesado. Em algum momento algum individualista negou isso? Individualistas, ao contrário das alegações de Brooks, não têm qualquer objeção geral à socialidade humana. Percebemos o quanto todos nós dependemos uns dos outros em nossas vidas cotidianas. Isso deveria ser óbvio o suficiente a partir do fato de que acreditamos em substituir a regulamentação governamental pelos mercados libertos e por associações voluntárias. Mas se não é óbvio o suficiente, deixemos tão claro quanto pudermos.

Um mercado liberto não é nada mais, nada menos, que uma forma de colaboração social espontânea. Não existe nenhum mercado sem diversas pessoas cooperando umas com as outras para comprar e vender, interdependentes de outras que trabalham, inventam, descobrem oportunidades e geralmente se viram para negociar e escambar. E há miríades de outras maneiras para pessoas livres escolherem cooperar individualmente sem trocas monetárias, como redes familiares, caridades, organizações comunitárias, lojas fraternais ou sociedades de ajuda mútua voluntárias e sindicatos de trabalhadores.

Cooperação ou Coerção

O debate entre individualistas e coletivistas “modernizados” não tem nada realmente a ver com se os seres humanos deveriam ou não viver uma vida social; tem a ver com os termos nos quais nos associamos para trabalharmos e vivermos juntos – se nossas combinações sociais deveriam ser cooperativas ou coercitivas. Combinações sociais só podem ser verdadeiramente cooperativas se elas forem voluntárias – se elas forem organizadas através da persuasão e do acordo de livre entre todos os envolvidos, em vez de através da força e da obediência coagida por alguns em favor de uns poucos.

Aparentemente Brooks acredita que temos apenas duas opções: Ou vivermos como uma massa de eremitas solitários que não cooperam, mas são livres e “individualistas ásperos” do cada um por si, ou então vivemos como uma rede de “criaturas socialmente incorporadas” cooperativas, mas sem liberdade, com impostos e regulamentações governamentais empurrando-nos para baixo para se certificar de que sejamos bons, e estejamos incorporados no conjunto particular de arranjos sociais que o governo favorece – quer qualquer um de nós tenha escolhido fazer outros arranjos com nossos companheiros ou não. Mas onde isso deixa a óbvia terceira opção – a cooperação voluntária?

O individualismo não é uma justificativa filosófica para atitudes antissociais ou para a indiferença ou hostilidade em relação às suas criaturas semelhantes. É o coletivista, não o individualista, que vê seres humanos como criaturas naturalmente truculentas que não se importam o suficiente umas com as outras para conviverem pacificamente e que precisam ter os planos para a colaboração forçados sobre si a partir do topo. Prometendo harmonia e segurança sociais, o coletivismo entrega dissonância e violência.

Os individualistas acreditam no individualismo precisamente porque acreditamos que seres humanos podem e devem ser tanto sociais quanto civilizados uns com os outros ao mesmo tempo – que a vida comunal e social não exige empurrar as pessoas ao redor ou assediá-las para que sigam um grande plano. O que Brooks falha em ver é como – individualmente – podemos pacífica, livre e naturalmente formar comunidades, instituições e laços sociais invisíveis conforme percorremos nosso caminho através do mundo.

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