Ao contrário do que tenta mostrar “Jornada nas Estrelas”, sempre haverá escassez

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Por Jonathan Newman

Com o sucesso de alguns recém-lançados filmes de ficção científica, como “Perdido em Marte” e “Interstellar“, além de novas encarnações de “Jornada nas Estrelas” e “Guerra nas Estrelas“, não se pode negar que o ser humano anseia as novidades do futuro e exercita a imaginação sobre o que a tecnologia avançada pode realizar.

Muitos olham para o exemplo destes mundos fictícios como uma indicação de como a vida futura poderá ser quando a tecnologia se tornar capaz de prover soluções para resolver todas as nossas necessidades básicas — uma condição que alguns chamam de “pós-escassez”.

Normalmente, as pessoas que anseiam por esse futuro são as mesmas que exortam o governo a fazer intervenções para garantir que cada indivíduo ganhe um “salário digno” sempre que robôs e a automação passam a dominar toda uma linha de produção. São as mesmas que dizem que as condições da “pós-escassez” irão solapar completamente as economias e até mesmo a própria ciência econômica.

No entanto, a escassez jamais poderá ser eliminada, pois as nossas infinitas e insaciáveis necessidades humanas sempre superarão os finitos meios disponíveis neste finito universo. A escassez existe até mesmo nos seriados e filmes que supostamente representam mundos sem escassez.

Um perfeito exemplo do que se seria a “pós-escassez” e seu contraste com o conceito de escassez nos dias de hoje é apresentado na série “Jornada nas Estrelas: A Nova Geração”[1].

No último episódio da primeira temporada, a nave Enterprise[2] se depara com uma “antiga” nave espacial flutuando pelo espaço. O tenente-comandante Data e o Oficial de Segurança Worf encontram três seres humanos da Terra, congelados em câmaras criogênicas há 400 anos, o que fornece à tripulação do século XXIV a oportunidade de interagir com pessoas da época dos telespectadores.

Um desses seres humanos do final do século XX, Ralph Offenhouse, estava preocupado em readquirir o controle sobre aquilo que ele esperava ser uma gigantesca fortuna: uma carteira de ações da bolsa de valores, a qual teria então 400 anos de idade. Com efeito, uma das primeiras coisas que ele pediu depois de ser descongelado e ressuscitado foi uma cópia do The Wall Street Journal.

O Capitão Picard[3] informou-lhe, então, que “Muito mudou nos últimos 300 anos. As pessoas não são mais obcecadas com a acumulação de “coisas”. Nós eliminamos a fome, o desejo e a necessidade de posses. Nós trabalhamos para melhorar a nós mesmos e ao resto da Humanidade. Crescemos e saímos da nossa infância”.

A série apresenta uma abordagem marxista de como os humanos passaram a ser capazes de navegar através do espaço com replicadores de alimentos, aparelhos que emitem raios, e diversos tipos de tecnologia que tornariam até mesmo a nossa atual busca por recursos escassos uma mera curiosidade.

Durante os séculos que separam a tripulação da Enterprise e seus visitantes congelados na cápsula do tempo, a tecnologia mudou de tal forma, que passou a fornecer meios abundantes para as necessidades materiais das pessoas. Consequentemente, a sociedade humana suplantou o capitalismo e o comércio e entrou para a fase do socialismo, como Karl Marx havia previsto em sua teoria da história.

A economia presente no universo de Jornada nas Estrelas é o tema de um livro a ser publicado por Manu Saadia, intitulado “Trekonomics”. Saadia propõe que devemos levar o gênero sci-fi a sério e nos preparar para a era da “pós-escassez”.

Segundo o autor:

Uma boa ficção científica, como Jornada nas Estrelas, pode ser muito divertida. Mas é, ao mesmo tempo, algo muito sério. Seu objetivo central é explorar as mudanças que estão à nossa frente. Quais são as consequências econômicas, sociais e até mesmo psicológicas das mudanças tecnológicas? O que vai acontecer aos seres humanos em um mundo que funciona com autômatos?

Noah Smith faz um prognóstico similar:

O surgimento de novas tecnologias significa que todas as questões econômicas irão mudar. Em vez de termos um mundo definido pela escassez, viveremos em um mundo moldado aos nossos desejos. Seremos capazes de decidir o tipo de pessoas que queremos ser e o tipo de vida que queremos viver, em vez de o mundo decidir isso por nós. A utopia de Jornada nas Estrelas nos libertará dos grilhões desta “ciência lúgubre”, que é a economia.

Ambos argumentam que os mercados e o comércio se tornariam desnecessários tão logo alcançássemos as supostas condições de “pós-escassez”. O próprio estudo da ciência econômica será uma coisa do passado, assim como videocassetes e toca-fitas.

A escassez é fundamental no universo.

No entanto, e infelizmente para todos nós, a escassez sempre continuará a existir. E a única maneira de maximizar a satisfação do ser humano que vive em meio a um conjunto limitado de recursos é por meio de mercados livres: propriedade privada e o livre sistema de preços. A escassez é um fato fundamental de nosso universo — estamos irrevogavelmente vinculados a ela pelas leis da física e pela lógica.

Mesmo no mundo imaginário de Jornada nas Estrelas, não apenas escassez ainda está presente, como também a propriedade privada (ou auto-propriedade) é uma constante. No mesmo episódio citado acima, o Capitão Picard e a tripulação têm um tenso confronto com os Romulanos[4], que invadiram o espaço da Federação[5]. Ambos os lados estavam investigando a destruição de alguns dos seus postos avançados na chamada “Zona Neutra”[6]. Neste caso, vemos que o espaço não apenas não é a fronteira final, como também, aparentemente, possui fatias que são propriedade de alguém. No episódio, vemos que tanto os postos avançados dos romulanos como os da Federação também são escassos e também são propriedade.

Outro exemplo ocorre quando Ralph Offenhouse estava vagando pela ponte principal da Enterprise durante este confronto com os romulanos.  O capitão Picard ordena aos agentes de segurança: “Tirem esse cara da minhaponte!”

Ou seja, não podemos conceber nem sequer um universo fictício sem escassez. Não é possível haver tempo, espaço, ou qualquer coisa que tenha capacidades ilimitadas de satisfazer nossos desejos. Tal universo seria eterno, atemporal, abstrato e com a capacidade de agradar e satisfazer a todos. É difícil imaginar um programa de TV com base em tal universo, simplesmente porque não haveria conflitos para os personagens terem de superar.

O que Manu Saadia e Noah Smith querem dizer com “pós-escassez”, portanto, é apenas que algumas coisas serão mais abundantes do que antes. Mas esta perspectiva não significa o fim da economia e da ciência econômica, pois mesmo hoje vários bens são mais abundantes do que eram no passado.

Não importa o que aconteça, os indivíduos ainda terão de continuar fazendo escolhas sobre como utilizar de maneira mais eficiente os recursos escassos. Podemos, no máximo, fazer as coisas ficarem relativamente menos escassas, mas nunca poderemos revogar a escassez como condição fundamental de nosso universo.

Vencer a “subsistência” não é o mesmo que vencer a “escassez”.

Suponha que todas as famílias do mundo tenham todas as suas necessidades biológicas abundantemente satisfeitas. A comida é fornecida por replicadores, como aqueles que existem na Enterprise. Todo mundo tem a quantidade exata de abrigo de que necessitam. Super-medicamentos e todos os serviços de saúde são prontamente fornecidos com o toque de um botão em sua própria casa.

O que isso significa?  Significa apenas que as pessoas poderiam perseguir outros objetivos que não a mera sobrevivência; objetivos como a arte, o entretenimento, a aprendizagem ou o simples relaxamento. Nossa demanda por bens e serviços não acaba tão logo ultrapassamos o nível mínimo do consumo voltado exclusivamente para a subsistência. Isto é o óbvio ululante para qualquer um com os meios para ler este artigo.

No que mais, é perfeitamente possível haver demanda por alimentos e outros bens especificamente feitos por mãos humanas, mesmo que os robôs ou replicadores possam fazer algo idêntico ou mais preciso e a um custo menor. Vemos isso hoje e estamos longe do mundo de Jornada nas Estrelas.

Há ocasiões em que gostamos de saber que alguma coisa foi feita de uma determinada maneira, e isso se traduz em uma demanda por bens quem têm um processo de produção peculiar, geralmente intensivo em trabalho. Feiras de artesanato são muito comuns, mesmo quando muitos dos itens oferecidos em tais feiras são produzidos maciçamente em outros lugares.

Já ao final do episódio citado, quando Ralph Offenhouse está em uma crise existencial, ele pergunta ao capitão Picard qual o propósito da vida no século XXIV, já que não é “acumular riqueza”:

Capitão Jean-Luc Picard: Necessidades materiais não existem mais.

Ralph Offenhouse: Então qual é o desafio?

Capitão Jean-Luc Picard: O desafio, Sr. Offenhouse, é melhorar a si mesmo. Para enriquecer a si mesmo. Aproveite.

O que Picard não percebeu é que melhorar e enriquecer a si mesmo — ou a própria missão da Enterprise: “explorar novos mundos, pesquisar novas vidas e novas civilizações, audaciosamente ir aonde nenhum homem jamais esteve” — envolve o uso de recursos materiais escassos, tais como naves espaciais, tripulações, planetas a serem explorados, comunicadores, máquinas de teletransporte, phasers, dobra espacial etc.

Picard também não percebeu o quão rico ele é. Riqueza é a capacidade de satisfazer as necessidades, e seu posto na Enterprise faz dele um humano imensamente rico, com  todos os replicadores, o holodeck (simulador de ambiente) e o acesso instantâneo a cuidados médicos de primeira categoria. Para alguém que rejeita a acumulação de riqueza, ele próprio acumulou uma grande quantidade dela.

Embora as necessidades biológicas possam ser abundantemente satisfeitas, os desejos humanos superam o número de estrelas. Sendo assim, a escassez é inevitável da mesma maneira que a gravidade é inevitável.  Assim como também inevitável é o “fluxo contínuo do tempo”, nas palavras de Mises.

O nosso objetivo é a alocação ótima desses recursos escassos, e apenas com mercados livres poderemos “assim fazê-lo”[7].

Tradução de Pedro Borges Griese


[1] Original: Star Trek: The Next Generation

[2] N.T.: Famosa nave espacial de Jornada nas Estrelas. Na série “A Nova Geração” o capitão Picard e sua tripulação viajam pela galáxia a bordo da Enterprise NCC-1701-D.

[3] N.T.: Jean-Luc Picard é o capitão da nave estelar Enterprise e um dos protagonistas da série.

[4] N.T.: Espécie alienígena do universo de Jornada nas Estrelas. São um império galáctico, expansionista, cuja estrutura social se assemelha do Império Romano. Um dos principais rivais espaciais da Federação de Planetas Unidos.

[5] N.T.: A Federação dos Planetas Unidos, na maioria das vezes chamada simplesmente de “Federação”, é um corpo governamental ficcional. Nas séries e filmes, a Federação é descrita como um Estado federal interestelar que abriga mais de 150 plantas-membros. Uma espécie de ONU da galáxia, cujo planeta Terra é um dos principais, sendo os humanos uma das principais raças.

[6] N.T.: No universo ficcional de Jornada nas Estrelas, antes do século XXIV, os romulanos e a Federação entraram em uma imensa guerra espacial. Com a extensão da guerra causando enormes perdas para ambos os lados, um armistício foi negociado cessando as agressões. Estabeleceu-se uma “área espacial” entre as “fronteiras” destes dois estados, onde nenhuma nave, de nenhum lado, poderia avançar. Caso contrário, seria uma violação ao tratado e considerado ato de guerra. Isso resultou em um período de relativa paz, uma espécie de guerra fria. A área entre os estados ganhou o nome de Zona Neutra.

[7] N.T.: Do original “make it so”. Frase de comando muito utilizada pelo Capitão Picard.

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