Uma má interpretação do anarquismo

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Por Benjamin Tucker

Este artigo foi originalmente publicado na edição de 8 de março, 1890 da revista Liberty.]

Um dos jornais mais interessantes que chegam a este escritório é o Personal Rights Journal de Londres. Em grande parte, escrito por homens como J. H. Levy e Wordsworth Donisthorpe, ele não poderia ser de outra forma. Virtualmente, ele defende a mesma fé política que um defensor daLiberty. Ele quer dizer com Individualismo o que a Liberty quer dizer com Anarquismo. Que ele não perceba esse fato, e que assume que o Anarquismo seja algo além do que o individualismo completo é, é a principal diferença entre nós. Este mal entendimento do Anarquismo é muito clara e inteligentemente exibido em uma passagem que eu copio de uma palestra perspicaz e instigante sobre “The Outcome of Individualism“, proferida por J. H. Levy ante o National Liberal Club em 10 de janeiro de 1890, e impressa no Personal Rights Journal de janeiro e fevereiro:

Se estamos sofrendo com um veneno, achamos vantajoso tomar um segundo veneno, que aja como um antídoto para o primeiro. Mas, se formos sábios, limitamos nossa dose do segundo veneno de modo que os efeitos tóxicos de ambos combinados sejam mínimos. Se tomarmos mais dele, ele produz efeitos tóxicos próprios, além daqueles necessários para neutralizar, tanto quanto possível, o primeiro veneno. Se tomarmos menos dele, o primeiro veneno, em alguma medida, fará seu trabalho ruim sem controle. Isto ilustra a posição do Individualista, contra o Socialista de um lado e o Anarquista do outro. Eu reconheço que o governo é um mal. Ele sempre significa o emprego da força contra nossos companheiros e – na melhor das hipóteses – sua sujeição, em maior ou menor medida no campo da conduta, ao desejo de uma maioria de seus concidadãos. Mas se esta interferência organizada ou regularizada fosse completamente abolida, ele não escaparia da agressão. Ele estaria, numa sociedade tal como a nossa, passível de bem mais violência e fraude, o que seria um mal muito pior do que a interferência do governo precisa ser. Mas quando o governo pressiona a interferência além do ponto de manter a mais ampla liberdade igualmente para todos os cidadãos, ele é, ele próprio, o agressor, e não menos porque seus motivos são bons.

Nomes à parte, a coisa que o Individualismo favorece, de acordo com o precedente, é a organização para manter a mais ampla liberdade igualmente para todos os cidadãos. Bem, isso é precisamente o que o Anarquismo favorece. O Individualismo não quer tal organização por mais tempo do que o necessário. Tampouco o quer o Anarquismo. A suposição do Sr. Levy de que o Anarquismo não queira de maneira alguma tal organização surge de sua falha em reconhecer a definição Anarquista de governo. O governo foi definido repetidamente nestas colunas como a sujeição do indivíduo não-invasivo a um desejo que não o seu próprio. A sujeição do indivíduo invasivo não é governo, mas resistência e proteção contra o governo. Por estas definições, o governo é sempre um mal, mas a resistência a ele nunca é um mal ou um veneno. Chame tal resistência de um antídoto, se quiser, mas lembre-se que nem todos os antídotos são venenosos. O pior que pode ser dito da resistência ou da proteção é, não que ela seja um mal, mas que é uma perda de força produtiva em um esforço necessário para se superar o mal. Pode ser chamada de um mal apenas no sentido de que um trabalho necessário e não especialmente saudável pode ser chamado de uma maldição. A ilustração do veneno, boa o suficiente com as definições do Sr. Levy, não tem qualquer força com o uso Anarquista dos termos.

O governo é invasão, e o estado, como definido na última edição da Liberty, é a encarnação da invasão em um indivíduo ou em um bando de indivíduos que assumem agir como representantes ou mestres de todo o povo dentro de uma dada área. Os Anarquistas se opõem a todo governo e especialmente ao estado como o pior governador e principal invasor. Do ponto de vista da Liberty, não existem três posições, mas duas: uma, aquela dos socialistas autoritários, que favorecem o governo e o estado; a outra, aquela dos Individualistas e Anarquistas, contra o governo e o estado.

É verdade que o Sr. Levy reconhece expressamente a liberdade de definição e, portanto, eu não devia ter dito uma palavra se ele tivesse simplesmente declarado a posição Individualista sem interpretar erroneamente a posição Anarquista. Mas tendo em conta esta interpretação errônea, devo pedir-lhe para corrigi-la, a menos que possa demonstrar que a minha crítica é inválida.

Eu posso adicionar, em conclusão, que muito provavelmente a disposição do Individualista de dar maior proeminência do que o faz o Anarquista à necessidade de organização para proteção é devida ao fato de que ele parece ver menos claramente do que o Anarquista que a necessidade de defesa contra invasores individuais é grandemente e talvez, afinal, inteiramente devida às opressões do estado invasivo e que, quando o estado cair, os criminosos começarão a desaparecer

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