O que você pode fazer para defender a liberdade

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Por Leonard Read

“Eu quero menos conversa e mais ação”.

Assim falam os americanos quando repentinamente acordam para o fato de que suas liberdades estão em perigo. Conversa, dizem, é inútil; só a ação fará diferença. No entanto, talvez a conversa e a ação não sejam necessariamente opostas.  E se estudar, falar, escrever e explicar fosse a única ação válida possível? E então?

Existem somente dois tipos de ação: física e intelectual. Os supostos salvadores da liberdade pregam a ação física? Se sim, como? Usar a força física contra outrem, exceto defensivamente, significa destruir a liberdade de outrem, o que, por definição, não é liberdade. Adotar essa tática – empregar a força física contra outrem em qualquer forma ou grau, exceto em legítima defesa – serviria meramente para substituir a forma existente de compulsão por uma nova, trocando violência por violência, revolução! Na melhor das hipóteses, é o tribunal de ultima instância e não é, realmente, o que a maioria das pessoas tem em mente quando insistem que querem “ação”. A maioria delas quer dizer somente que querem “que algo seja feito” e rápido! Elas querem lutar de forma pacífica. A ideia de usar punhos e armas praticamente nunca é uma opção. Portanto, de acordo com sua própria tese, o que resta é, logicamente, a ação intelectual. 

A mania de organização

Como, então, você pode lutar pela liberdade por meios intelectuais? A melhor coisa a fazer, muitos pensam, é se organizar – o que é uma forma de ação. Quase sempre pensam em termos de organizar outrem para fazer algo em vez de se organizar como indivíduo. Essa tática danosa é empregada como se a organização tivesse o poder de, alguma forma, absolver os indivíduos de fazerem qualquer coisa além de se filiarem a ela. Essa mania de organização é quase sempre pouco mais do que um esforço, sem dúvida inconsciente, de transferência de responsabilidade de uma pessoa para outra, cuja competência é frequentemente desconhecida.

Responsabilidade e autoridade sempre caminham de mãos dadas. Assim, se esse processo de organização for bem sucedido, a autoridade sob suas próprias ações é perdida precisamente na medida em que a responsabilidade é transferida para outra pessoa. O cidadão que “quer ação” e recorre a esse tipo de tática acaba se afastando ainda mais do seu objetivo. Na verdade, a organização é, com frequência, uma mera tentativa de “passar a bola”. Ainda assim, por incrível que pareça, o mero ato parece ter um estranho poder de conferir um sentido de dever cumprido naqueles que organizam.

Embora a organização seja muito usada, parece que é pouco entendida. No campo da expansão da liberdade individual, a figura da organização é estritamente limitada, do ponto de vista técnica, nas suas possibilidades. Ao menos que essas limitações sejam cuidadosamente observadas, a organização imporá mais danos do que benefícios; ameaça, não estimula, a propagação do conhecimento. Séria é ideia de que se não houvesse organizações, não poderia haver o socialismo!  

Em prol da cooperação voluntária

As organizações podem, no entanto, servir a um propósito muito útil no desenvolvimento e expansão do entendimento da liberdade, caso ela se limite a sua esfera oportuna. Para efeitos da promoção da liberdade, a qual depende unicamente do avanço da compreensão individual, a única utilidade da organização seria acomodar e facilitar a questão do estoque, recebimento e posse de ativos físicos, os quais podem incluir computadores, a própria sede, bibliotecas especializadas, impressoras, telefones e muitas outras ferramentas úteis aos indivíduos que estão tentando aumentar sua compreensão sobre a liberdade. Essas acomodações físicas podem servir ao objetivo da troca e disseminação das ideias e do conhecimento de forma eficiente. Elas podem ser usadas para assegurar as vantagens derivadas da especialização e da divisão do trabalho.  A organização, limitada a essa forma de cooperação voluntária, é um meio eficiente para o cumprimento das metas desejadas. 

As organizações, todavia, como os governos, se expandidos além de sua devida esfera, tornam-se prejudiciais ao alcance do objetivo original. Esse fato ressalta a necessidade de análise mais detalhada sobre os limites da organização. Da mesma forma que o governo se torna perigoso quando seus poderes coercivos, restritivos e destrutivos são expandidos sobre áreas criativas, também as organizações voluntárias pervertem e destroem os benefícios do intelecto quando a capacidade de combinação chega a tal ponto os julgamentos individuais são sujeitados ao desejo da maioria ou do grupo. A verdade, como vista por cada pessoa, é a melhor coisa que a mente humana tem a oferecer. Sua distorção, inevitável quando se forma um grupo, realmente prejudica o entendimento. 

Tente o auto-aperfeiçoamento

Se a organização não é a melhor forma de garantia a liberdade, então, qual é? Minha resposta – auto-aperfeiçoamento – é a essência da simplicidade. As razões por trás dessa resposta, todavia, não são tão simples.

A tendência a fugir da responsabilidade pessoal – mais a crença de que, de alguma forma, milagres intelectuais podem ser operados por nós sobre outro alguém – é muito forte para ser rejeitada facilmente. A menos que compreendamos que essas inclinações e crenças são totalmente desprovidas de mérito, continuaremos a ceder ao seu poder. Eu desejo argumentar que o auto-aperfeiçoamento é o único caminho prático para a liberdade.

Existe algum livro ou artigo escrito por alguém em qualquer momento da história que pode ser considerado como a última palavra sobre a liberdade? Talvez, o melhor que pode ser dito é que as mentes mais brilhantes de todos os tempos têm buscado compreende-la e que, de vez em quando, um pequeno raio de luz iluminou o que antes era a escuridão e a falta de compreensão. Esses poucos estudiosos foram os primeiros a dizer: “quando mais exploro, mais percebo que há muito a aprender”.

A razão para tal dificuldade na compreensão da liberdade é que a liberdade, tal como a verdade, é objeto de uma busca sem fim! A compreensão da liberdade requer aventurar-se em áreas desconhecidas ou, provavelmente, em áreas que foram abandonadas ou que a maioria das pessoas considera tabu. Você não notou o vigor que empregamos quando uma liberdade atual é ameaçada e, então, quando é perdida, quão logo nos referimos a ela como um “ganho social”? Como alguém que caiu nessa armadilha, ou quem passou a pensar em uma nova restrição como um “ganho social” pode, possivelmente, identificar as liberdades que perdeu?

Todo o indivíduo deve perceber que não dominou a essência da liberdade até que ele compreenda por inteiro, e possa explicar de forma competente, essa ideia: com o governo corretamente limitado às suas funções legítimas de defesa, nossos problemas de interdependência podem ser resolvidos por meio do esforço voluntário, e somente por meio do esforço voluntário. Se essa é uma avaliação correta, então a maioria das pessoas não está qualificada na compreensão desse tópico.

Em resumo, ninguém entre nós pode se considerar algo mais do que um estudante da liberdade. Ninguém sabe de tudo e nem nunca saberá.

Tentando ser um estudante da liberdade, devemos olhar para dentro de nós mesmos. Em um mundo de pessoas, é somente dentro de cada um de nós que áreas férteis e exploráveis existem. O melhor explorador de um indivíduo é o próprio indivíduo. Não é possível transferir a outrem o que não possuímos. E mesmo depois que tivemos algum progresso na compreensão, o máximo que podemos fazer pelos outros é tornar de seu conhecimento o que descobrimos por meio de nossas reflexões, ou o que pensamos edificante para o outro. Se o que oferecemos é, na verdade, compartilhado, está além de nosso poder; e deveríamos aceitar tal fato.

Admite-se que a atitude do estudante, essa busca dentro de nós mesmos, pode, às vezes, parecer pouco compensadora. Mas se a compreensão da liberdade deseja ser expandida, não podemos desistir, por mais que possa parecer um gasto exagerado de tempo e esforço.

Nessa linha, uma declaração fictícia atribuída a Jesus é encorajadora se você pensa nele em termos simbólicos de verdade e bem infinito, e de suas próprias fraquezas e inabilidades como arbustos no caminho; e de nossas próprias e raras virtudes e habilidades como terreno fértil.

Jesus apareceu nos degraus da Sinagoga e começou a pregar. Pareceu imediatamente óbvio que ele tinha se dado conta da rudeza da multidão – e lamentava tal fato. Ele tinha sido escolhido – disse ele – para oferecer um caminho de salvação ao mundo; isto é, para todos os seres humanos. Com uma tarefa de tal importância, não se podia pensar em termos de custo ou perda de tempo. Sua missão, disse, era semear a boa vontade entre os homens na esperança de colher a paz. Muita dessas sementes seriam desperdiçadas. Algumas cairiam no meio dos arbustos espinhosos e não teriam chance alguma de crescer, mas o semeador não poderia parar ou olhar para trás, lamentando seu desperdício. Algumas delas cairiam no meio das pedras, onde haveria pouca terra para que florescessem; mas o semeador não desanimaria. Algumas delas cairiam em terra boa e cresceriam fortes!   

A única ação prática

Ação? O pensador casual pode imaginar que o melhor caminho é tentar dizer a outrem o que fazer e como pensar. Contudo, a razão fornece uma resposta contrária. Sugere que a busca da compreensão pessoal é a única ação prática que pode ser tomada. Se uma pessoa aumenta sua própria compreensão do verdadeiro e do falso, a compreensão assim adquirida será buscada por outrem. A razão recomenda que uma pessoa não “coloque a carroça na frente dos bois”; que primeiro uma pessoa deve aprender; que influenciar a outrem seguirá de forma natural. A razão diz que a influência nas áreas criativas não terá efetivamente antes do aprendizado; e que o aprendizado nunca terá fim.

Algumas pessoas dirão que as conclusões aqui expostas são auto-evidentes; contudo, argumentarão que essa abordagem sugerida aos estudantes – esse processo de auto-aperfeiçoamento – é muito lento frente aos desafios atuais.

Ação? Para os autoritários, é a força física. Para os libertários, primeiro é compreensão e depois explicação – a última sendo a “conversa”, na forma verbal ou escrita.

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