A militarização da compaixão

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Por Peter Boettke

John Stuart Mill escreveu em seu livro Princípios da Economia Política que “o que frequentemente causa surpresa” em observadores “é a rapidez com que países se recuperam de um estado de devastação; o desaparecimento, em um curto período de tempo, de todos os sinais de prejuízos causados por terremotos, enchentes, furacões e a destruição da guerra. Um inimigo devasta um país com fogo e espada, e destrói ou rouba quase toda a sua riqueza: todos os habitantes são arruinados e, mesmo assim, alguns anos depois, tudo volta ao normal”.

Mill explicou que as condições sob as quais isso acontece são: 1) há livre mobilidade de capital e trabalho e 2) o desastre não aniquilou toda a população e o estoque de capital humano.

Se essas condições são satisfeitas, a recuperação econômica e social acontece com grande rapidez.

Militarização versus descentralização

Essa é talvez uma afirmação chocante diante do trágico sofrimento humano que testemunhamos no Japão (ou no Haiti). É claro que o resultado imediato de um desastre natural, esforços de resgate e assistência humanitária a um nível básico exigem direção extensiva. Mas não devemos ignorar processos descentralizados de coordenação. Após o 11 de setembro e o furacão Katrina, por exemplo, vários esforços descentralizados para prover assistência foram vitais para a sobrevivência de milhares de pessoas. Embora nos concentremos, especialmente no caso do 11 de setembro, nos esforços governamentais, pessoas que não fazem parte do governo, frequentemente, partem para a ação diante de momentos críticos. Não há dúvida de que os policiais e bombeiros de Nova Iorque e a guarda costeira em Nova Orleans exerceram papéis significantes durante os primeiros momentos após os eventos desastrosos. Mas depois do período inicial, o ativismo governamental foi mais contraproducente do que qualquer outra coisa.

Logo após o furacão Katrina , eu iniciei um projeto de pesquisa no Mercatus Center para analisar a eficácia da resposta voluntária à crise através do mercado e da sociedade civil. Famílias e comunidades inteiras foram fortalecidas pela cultura do comércio. Na medida em que o comércio foi impedido, famílias foram enfraquecidas e comunidades permaneceram em ruínas. Essa conclusão vai contra as instituições comuns, que demandam uma abordagem de comando e controle diante de crises.

A linguagem dos desastres e esforços de recuperação é a da centralização — um esforço militar é necessário para lidar com um problema urgente. Mas a militarização da compaixão não é muito eficaz no alcance de melhorias. Como o meu colega Chris Coyne sugere no seu ensaio ”Delusions of Grandeur”, imagine pedir a um bombeiro que está combatendo um incêndio em edifício corporativo para também coordenar a provisão de suprimentos e tratamento médico, supervisionar a reconstrução do prédio e então reconstruir a cadeia de abastecimento da companhia após o fogo ser apagado e o prédio reconstruído. Isso é exatamente o que acontece através da militarização dos esforços humanitários.

A militarização da compaixão não ajuda a fortalecer famílias, reconstruir comunidades ou cultivar o comércio. Ao invés disso, ela centraliza os esforços e ignora o conhecimento local que reside nos indivíduos e está embutido nas comunidades. A intuição nos leva em direção ao comando e controle, mas a ciência econômica vai contra essa intuição e favorece a informação descentralizada possuída pelos indivíduos — que são capazes de compreender os desafios dos “cuidados do pensar e de todos os problemas do viver” (o que Tocqueville argumentou ser necessário para uma sociedade de indivíduos livres e responsáveis). A militarização da compaixão pode ajudar aqueles que, de longe, sentem estar fazendo o seu melhor para lidar com a crise, mas uma vez que ultrapassamos a fase inicial de busca e resgate e seguimos para a fase de reconstrução, o resultado geralmente é caos planejado.

Bloqueios governamentais

O que descobrimos nos nossos estudos sobre a reconstrução após o furacão Katrina foi o papel vital tanto da sociedade civil quanto da vida comercial, em contraste com a direção governamental, nos esforços para alcançar o sucesso na recuperação depois do desastre. Quando o governo tentou guiar os indivíduos nas suas decisões ao invés de permitir que usassem o seu conhecimento local, surgiram bloqueios para a recuperação. A observação de Mill a respeito da incrível rapidez de recuperação foi confirmada naquelas áreas onde o livre movimento de trabalho e capital foi permitido, e frustração foi produzida pelas restrições na liberdade de escolha.

O que testemunhamos no Japão foi um desastre de proporções históricas. O terremoto é o maior já registrado na história daquele país. A magnitude foi bem maior do que a do terremoto no Haiti, embora a riqueza relativa da sociedade japonesa signifique que o número de mortes será muito menor. Infelizmente, o tsunami causou danos terríveis e as consequências da crise nuclear ainda estão por ser determinadas.

O que aprendemos do estudo dos desastres e recuperação é que esforços para fornecer ajuda humanitária imediata sempre terão elementos de caos, mas depois o caos é aliviado não através da militarização da compaixão, mas através do mecanismo do mercado que assume a alocação dos recursos e sinaliza os ajustes necessários através dos preços relativos e do feedback dos lucros e perdas.

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