Capitalismo, o eterno culpado

boi-de-piranha-620x350

James Peron

Nós, defensores dos direitos individuais e do livre mercado, não podemos vencer o debate intelectual com a esquerda ideológica. Isto porque não existe debate intelectual com a esquerda. Não pode haver um debate, pois os oponentes do capitalismo simplesmente não estão abertos a uma discussão racional. Eles sabem que o capitalismo é inerentemente mau, e nenhum argumento, evidência ou mesmo fatos os convencerão do contrário.

Considere este exemplo. O socialismo fabiano foi fundado em 1883, no mesmo ano da morte deKarl Marx, quando um pequeno grupo de intelectuais reuniu-se na 17 Osnaburgh Street em Londres para ouvir palestras sobre a prometida nova ordem mundial socialista. Desse encontro foi formada a Sociedade Fabiana, dedicada à evolução gradual propositada de uma sociedade socialista na Inglaterra.

Os Fabianos foram uma influência forte, se não a mais forte, na formação do Partido Trabalhista do Reino Unido, tendo figuras como George Bernard Shaw e Sidney e Beatrice Webb na vanguarda da divulgação das virtudes do stalinismo e do comunismo soviético. Sua lista de membros continha a nata dos intelectuais ingleses, incluindo R. H. Tawney, G.D.H. Cole, Harold Wilson, Harold Laski,Oswald Mosley (o fundador do fascismo inglês), Bertrand Russell, Clement Attlee, John Strachey, Stephen Spender, George Orwell e outros.

Por mais de um século, a Sociedade Fabiana continuou a promover a agenda marxista em vários países do mundo. Na virada do século passado, os Fabianos desenvolviam eloquentemente as virtudes do socialismo e os vícios do capitalismo. Eles nunca se cansaram de dizer como o capitalismo levaria a pobreza e a miséria para a grande massa dos trabalhadores do Reino Unido. Eles prometeram que somente uma sociedade socialista centralmente planejada poderia alcançar a riqueza e a prosperidade. Os trabalhadores, notaram os socialistas, nunca poderiam encontrar a felicidade e a autossatisfação enquanto estivessem entrincheirados na pobreza da economia capitalista.

A Sociedade Fabiana ainda existe. Não faz muito que, na BBC World, assisti a um documentário intitulado Big Ideas. Ele foi vendido como um antídoto ao pessimismo do politicamente correto. Na verdade, foi tudo menos isso. Em vez disso, todo o programa, chamado The Good Life, concentrava-se em um economista, Michael Jacobs, que vem a ser o secretário-geral da Sociedade Fabiana.  Jacobs continuou com a clássica retórica Fabiana do século passado, castigando o capitalismo por levar milhões à pobreza? Claro que não. A risada de milhões de trabalhadores que assistiam ao programa em suas televisões coloridas teria abafado a retórica.

Ao invés disso, ele prosseguiu argumentando como a riqueza do capitalismo não leva à felicidade. Ele lamentou a abundância do trabalhador médio e ridicularizou aqueles que trabalham duro para prosperar. Isto, ele disse, era claramente culpa do capitalismo. Parece, então, que o capitalismo leva a tanta prosperidade, fazendo com que as pessoas busquem bens de luxos e bem de consumo que denotam status. Antes que você pense que isso é um exagero, a BBC descreveu o programa desta forma:

Evan Davis apresenta uma série que testa ideias no centro do debate. Evan é acompanhado por Michael Jacobs da Sociedade Fabiana, o qual argumenta que, embora o Reino Unido tenha se tornado mais próspero, nós temos sacrificado nossa qualidade de vida. Nós estamos trabalhando muito, comprando muitos supérfluos, e destruindo o meio ambiente. Contudo, a resposta está nos indivíduos ou a ação governamental pode criar uma vida melhor para todos? [1]

Quando foi apontado a Jacobs que os indivíduos que não queriam trabalhar duro não necessitavam fazê-lo, ele não se convenceu. O problema com a riqueza do capitalismo do consumidor é que o próprio sistema força as pessoas a competirem entre si. O individuo que quer sair, talvez para ler as obras de Marx, não pode fazê-lo devido à estrutura do sistema. Ele é vítima do capitalismo. As pessoas deveriam, ao invés disso, ser livres para se concentrarem nas coisas “importantes”, isto é, as coisas que Jacobs acha importante.

É claro, a solução para esse problema estrutural é a “propriedade coletiva” dos meios de produção. Jacobs deseja regulamentações e leis para evitar a concorrência e a geração de riqueza.

Há um século, os pioneiros da Sociedade Fabiana estavam dizendo que o capitalismo leva à pobreza que somente o socialismo pode criar riqueza para os trabalhadores. Fechando os olhos para um século de retórica, os Fabianos de hoje estão atacando o capitalismo por criar muita riqueza. Há um século, o trabalhador, vivendo na pobreza, nunca encontraria a felicidade. Hoje, os Fabianos argumentam que a felicidade é ilusória por causa das tentações de riquezas criadas pelo capitalismo. Quando a pobreza era o problema alegado, os Fabianos defenderam o controle estatal. Você começa a ter a impressão de que os “problemas” não os preocupam, e que o eles realmente querem é o controle estatal, pura e simplesmente.

Os socialistas amam afirmar que o capitalismo leva ao monopólio. Eles estavam totalmente convencidos (pelo que, exatamente, nós nunca saberemos) que uma economia de mercado significaria concorrência cada vez menor com o passar do tempo. Eventualmente, a concorrência desaparecia por completo, e o pobre consumidor estaria à mercê de negociantes cruéis em busca do lucro. Ainda assim, um século depois os Fabianos estão condenando o capitalismo por criar muita concorrência. O pobre empreendedor não tem tempo para parar e sentir o cheiro das rosas no caminho. Eu me esqueci de algo?

Objeções ambientais

É claro, os ambientalistas aliados dos socialistas têm reclamações similares. Todos nós sabemos que o capitalismo está destruindo o planeta. Considere recursos “não renováveis”. Os ‘verdes’ adoram argumentar como o capitalismo está esgotando os recursos naturais. Um recurso não renovável é, obviamente, um recurso que, uma vez usado, desaparece. Não importa que todos os recursos naturais que são normalmente usados pelo homem tenham fontes conhecidas que durarão por séculos. O fato é que o recurso não renovável deve desaparecer algum dia – ou assim eles assumem. Existem muitas razões pelas quais isso não é verdade, mas, pelo bem da discussão, vamos considerar que os ‘verdes’ estivessem certos. O capitalismo é mau porque usa recursos finitos.

Mas isso não é tudo. O capitalismo também é mau porque cria recursos que não são finitos destrutíveis. Se você acha que os ‘verdes’ se revoltam quando a sociedade moderna usa um recurso não renovável, veja como eles reagem quando recursos renováveis são usados. O plástico é mau porque ele não se decompõe. Mas quais são as alternativas? Sob qualquer sistema econômico alguns recursos têm que ser usados. Nós podemos usar recursos que são destruídos – mas isso é mau. Ou podemos usar recursos que não são destruídos – algo que é igualmente mau. Como o professor Petr Beckmann notou, os ‘verdes’ tem um argumento único: “se não é renovável, não o use. Ao invés disso, use algo indestrutível; se é indestrutível, tampouco o use. Nada é possível, exceto as duas possibilidades que ele [o ambientalista] se autoconvenceu: um retorno às cavernas ou o apocalipse”. [2]

Nós já vimos muitos exemplos dessa lógica ambientalista do ‘culpado se o fizer’ x ‘culpado se não o fizer’. Tome como exemplo a floresta tropical. Nós já fomos avisados que as incursões do homem à floresta tropical podem nos condenar ao desastre. Escondido atrás de uma samambaia poderia estar um novo vírus mortal, desconhecido pela humanidade. O contato com o mesmo poderia levar à destruição da humanidade, já que as pessoas podem não ser imunes a tais doenças. Não, é muito melhor evitar a floresta tropical! Que lá vivam aquelas tribos primitivas que aprenderam como viver em harmonia com a natureza.

Contudo, não se esqueça de que existe outra razão pela qual a floresta tropical deve ser salva. Afinal, quem sabe qual cura miraculosa poderemos encontrar nas folhas, raízes ou troncos das plantas nativas? Lá podemos encontrar a cura do câncer – a não ser que um vírus mortal nos mate primeiro.

Poucas décadas atrás, os ambientalistas estavam lamentando que, nos Estados Unidos, as áreas de natureza selvagem estavam sendo transformadas em áreas de cultivo. Eles reclamaram sobre as terríveis consequências da depleção da área florestal. O fato é que a área de florestas (extração de madeira) de propriedade privada tem aumentado nos Estados Unidos, levando ao crescimento das florestas, e não à sua redução. Hoje, as florestas dos Estados Unidos são maiores do que eram 100 anos atrás. Então, esses anticapitalistas estão felizes? É claro que não. Agora estão reclamando por causa da redução de área cultivável!

O destino das mulheres

A esquerda feminista, calcada nas teorias marxistas, atacou o capitalismo por ele escravizar as mulheres como máquinas de procriação. Um artigo da revista Socialist Review afirmou que “as próprias estruturas do capitalismo oprimem as mulheres”. Isso se dá porque a classe capitalista precisa da família: “[os capitalistas] necessitavam uma família na qual a próxima geração de trabalhadores (e a geração existente) pudesse ser alimentada, cuidada, socializada e na qual fosse concedida uma rede básica de saúde e educação – com o mínimo custo para a própria classe capitalista[4]. O autor continua “o papel da família na reprodução da força de trabalho foi e é central para a sua existência – e a opressão sofrida pelas mulheres nos dias de hoje”. [5]

Tal pensamento é tipicamente marxista ao argumentar que a família é uma criação da maligna exploração capitalista. Assim, eles deveriam ficar felizes pelas tendências presentes no mundo atual que limitam a função da família. Bem, não; novamente, os malvados capitalistas também são culpados por destruir a família. O mesmo artigo citado acima então lamenta:

frequentemente dito que o próprio sistema capitalista age como destruidor da família. As pressões dos trabalhadores significam que a realidade da família não coincide com o ideal. As famílias são separadas pela emigração, trocas de emprego, ou pelas pressões escolares ou profissionais. A taxa de divórcio aumentou, os jovens não veem a hora de sair de casa, mais e mais pessoas vivem fora de um núcleo familiar tradicional [6].

O autor foi capaz de condenar o capitalismo por criar a família e por destruí-la ao mesmo tempo.

Wendy McElroy nota que as feministas “consideram o casamento como um estado involuntário, no qual as mulheres têm um status de propriedade. Para elas, o casamento e a família são inextricavelmente ligados à propriedade privada, à estrutura de classe e ao modo de produção capitalista. Em outras palavras, a família é um elemento do capitalismo[7]. Assim, a ordem social atual é uma criação (criatura) do capitalismo. Por outro lado, o filosofo anticapitalista John Gray argumentou que o capitalismo é destrutivo à ordem social e diz que “a condenação libertária ao estado e a celebração libertária ao livre mercado são elementos da receita para a crise social e a instabilidade política”. [8]

O sistema internacional de livre comércio, ou capitalismo global, também ofende todos os marxistas. O Iverson Dictionary of Terms and Terminology of Sociology define “terceiro mundo” como aquelas nações que sofrem a exploração do capitalismo.

Aqueles governos não ocidentais menos poderosos e menos influentes, normalmente compostos por pessoas de cor que experimentaram o fenômeno da colonização, são ex-colônias, ou experimentaram o capitalismo moderno como uma forma de imperialista, isto é, aqueles países cuja cultura foi rompida pela industrialização e expropriação de recursos naturais com pouca ou nenhuma preocupação dos capitalistas para com a instabilidade, opressão e exploração das pessoas ou a justa compensação pelo seu trabalho e recursos naturais. [9]

Um grupo “revolucionário” inglês diz que a globalização é a “superexploração das massas do mundo por um grupo de ricos países capitalistas”. Nenhuma surpresa aqui, posto que os marxistas odeiam olivre comércio e se espera que condenem o capitalismo neste sentido. Mas logo no parágrafo seguinte, o grupo lamenta como a “revolução” cubana manteve-se firme em face de um “bloqueio econômico sustentado pela nação mais econômica e militarmente poderosa, os Estados Unidos”. O embargo somente às mercadorias americanas, dado que a maioria dos países ignora o “embargo”, é acusado pela esquerda como responsável pelo pífio desempenho econômico da ilha. Eles dizem que Cuba é pobre porque lhe é negado o acesso aos mercados dos Estados Unidos. E Cuba seria mais rica se pudesse participar da globalização de mercado. [10]

Então, o terceiro mundo é pobre porque não é embargado, e Cuba é pobre porque é embargada. O comércio com o Ocidente leva à pobreza, e a falta de comércio com o Ocidente leva à pobreza. Escolha!

Ainda assim, na África, a esquerda argumenta que a falta de investimento ocidental é prova de racismo latente. E o que os capitalistas deveriam fazer com os lucros dos investimentos no mundo desenvolvido? Se eles expatriam os lucros, são condenados. Se eles os reinvestem, são condenados. Um livro esquerdista da década de 1960, The Political Economy of Growth de Paul Baran, defendeu as duas posições concomitantemente. “É muito difícil dizer qual tem sido o maior mal no que tange ao desenvolvimento econômico de países subdesenvolvidos: a remoção de seu superávit comercial de parte do capital externo ou seu reinvestimento por uma empresa estrangeira”. [11]

Para a esquerda, o capitalismo é o eterno bode expiatório e a explicação para tudo que dá errado no mundo. Sejam quais forem os problemas que existem no Ocidente, é claro, eles são causados pela natureza maligna do capitalismo. E quais sejam os problemas que existem nas nações marxistas, é o resultado da natureza maligna do capitalismo. As pessoas são pobres – culpe o capitalismo. Mas culpe o capitalismo, também, se elas foram “muito” ricas. Para a esquerda, o capitalismo não pode fazer o bem, assim como o demônio não pode fazer o bem. Uma vez que você abandona a razão, nenhum debate racional é possível.

Anúncios

Um comentário sobre “Capitalismo, o eterno culpado

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s