Como a disciplina de história virou propaganda política… e deixou de fazer sentido

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Por Paul Rosenberg

Embora eu [hoje] ame História, considerava-a um emaranho confuso de informações em meus dias de escola. Eu era capaz de memorizar datas e eventos (seja qual fosse a utilidade disso), mas não conseguia ir à fundo em nenhum tópico: ela não tinha sentido, propósito ou clareza.

Eu passei décadas vasculhando livros e museus antes de encontrar o problema: a História que lhe foi ensinada na escola não foi exatamente uma mentira, mas foi editada cuidadosamente antes de ser apresentada. Os fatos úteis foram apresentados, enquanto os inúteis foram excluídos.

A grande questão, é claro, era a seguinte: quem decidiu o que era “útil”?

No caso dos livros escolares, a resposta à questão de “quem decidiu” é simples: o grupo que pagou pelos livros.

Como resultado, os livros didáticos apresentam a História que faz o governo parecer bom. Afinal, o governo paga por todos os livros. E como as escolas privadas normalmente acabam usando os mesmos livros que as escolas públicas, ambos os alunos – de escolas públicas e privadas – são afetados da mesma forma.

A verdade é que os livros de história são escritos para justificar a ideologia que está no poder. Essa é exatamente a forma errada de escrever a história, isto é, forçar que o passado justifique o nosso estilo de vida atual, encaixando fatos específicos de acordo com uma estrutura [resultado] preestabelecida.

Em outras palavras, praticamente todos os livros didáticos defendem uma conclusão político-ideológica específica. E como a maioria dos autores e editores não desviam da norma, livros de história produzidos privadamente sempre seguem a mesma linha.

Mas o fato importante aqui não é que os governos fazem coisas ruins [e, sim, o fazem] – mas sim que nunca fomos expostos às grandes lições e verdades da história. Nossos intelectos foram privados de informações relevantes.

Eu estou fazendo a minha parte, contudo, o meu alcance – comparado com livros didáticos – é microscopicamente pequeno.

Por hoje, então, quero tratar de dois tópicos:

  1. Explicar o porquê os governos têm que manipular a história.
  2. Mostrar alguns exemplos de como isso acontece na prática.
Legitimação é a missão número um do governo

Os governos não têm escolha: eles têm que moldar a história. A razão para tal é simples: a legitimação é indispensável para eles. A população deve acreditar que apoiar o governo (dar o seu sangue e o seu suor) é uma preocupação maior e mais elevada do que sua própria vida. Sem isso, o governo teria que sobreviver somente com base no medo e na dor…e essa não é uma estratégia inteligente.

Então, convencer pessoas a passarem suas vidas a serviço do governo é a missão número um de qualquer estado que se preze. Esse sempre tem sido o caso, independentemente do tipo de estado em questão – monarquia, teocracia, democracia, república socialista ou o que quer que seja.

E entre as melhores formas para assegurar legitimidade de longo prazo é treinar a população para ver o regime atual como um fim necessário e óbvio do desenvolvimento humano. E isso requer que a história ensinada culmine, naturalmente, no glorioso presente.

Por exemplo, os Godos, ao tentar substituir os Romanos como lordes da Europa, promoveram seu próprio mito da criação, afirmando que sua raça havia começado na Batalha de Troia – o mesmo lugar de origem da história de Roma, segundo reza a lenda. A história era uma fraude ridícula, mas eles a promoveram, e seu povo acreditou nisso mesmo assim. Este conto associava os Godos a Roma, tornando-os sucessores naturais do Império Romano.

Mas a mentira dos Godos fez mais que legitimar o seu poder ao permitir que seu povo se sentisse mais orgulhoso – sensação que tem um poder instintivo natural – não importando quão patentemente falsa fosse a história.

A mesma fraude do autoelogio continua, hoje, ao redor do mundo. Aos franceses são dadas razões para sua superioridade. Aos italianos, também, e assim por diante. Nós somos repetidamente treinados nisto (nas escolas, principalmente) com juramentos, hinos e histórias patrióticas. Isso acontece mais ou menos em toda entidade política no planeta. É necessário para a dignificação efetiva da autoridade governamental.

A verdade é um aspecto secundário

A verdade, quando comparada com a necessidade urgente de legitimidade do estado, é também um aspecto secundário nos livros de história – uma preocupação menor. O grande exemplo moderno disso é o genocídio armênio.

Esse evento revoltante foi praticamente excluído dos livros de história norte-americanos, assim como os de várias outras nações. A verdade tem sido sacrificada em prol da felicidade dos amigos turcos.

Como foi a elite turca que ordenou e/ou permitiu o Genocídio Armênio, é natural que ela preferisse que o evento sumisse da história. E como a Turquia tem um papel estratégico na região, os Estados Unidos e muitos outros países estão efetivamente dispostos a esconder a verdade se isso vier a agradar os líderes turcos.

Eu trabalhei muitas décadas no mercado editorial, e tive a oportunidade de trabalhar com um dos editores que foi forçado a fazer alterações desta natureza. Ele estava em sua mesa certo dia quando seu telefone tocou. A voz do outro lado da chamada se identificou como um oficial do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Meu amigo perguntou-lhe a que se devia a ligação. “É sobre o livro de história que você está editando”, o homem disse. “Nós precisamos reduzir aquela seção que trata do genocídio armênio”.

Meu amigo ficou horrorizado e reafirmou que a história era verdadeira. “Sim”, disse o homem, “mas nós temos que manter os turcos felizes”. As 2-3 páginas que meu amigo tinha escrito foram reduzidas para 2-3 parágrafos, e foi um triunfo ter conseguido manter aquelas poucas palavras.

Essa história pode dificilmente ser considerada isolada, mas a maioria das pessoas envolvida aprendeu a calar sobre suas histórias – elas geram muitos problemas, e a maioria das pessoas não tem interesse nessas histórias.

A legitimação institucionalizada

A modificação da história, todavia, é feita de forma indireta mais que direta. As instituições educacionais do Ocidente são efetivamente agências governamentais; a verba e a aprovação de seu funcionamento são oriundas do governo – e todos os envolvidos sabem disso. Como resultado, eles mantêm suas áreas de pesquisa alinhadas com o que torna seus empregadores felizes.

Os estudantes universitários sabem muito bem que exprimir opiniões políticas erradas pode prejudicar de forma muito sólida o seu coeficiente de rendimento, sem falar o que passam os estudantes de faculdade. Da mesma forma, se os professores começarem a sair da linha, eles são rápida e desagradavelmente forçados à conformidade.

Por exemplo, praticamente todos os programas de antropologia e arqueologia são profundamente focados em “formação de estados”. O estado está no centro de suas teorias, suas investigações, e suas conclusões. Escrever um artigo contrário a essa posição significaria suicídio de carreira..

Eu suspeito que os oficiais governamentais raramente precisam ligar para universidades da forma que ligaram para meu amigo na editora. Neste momento, realmente não há necessidade. A legitimação do governo é socialmente esperada nas universidades ocidentais, além de grande parte das universidades orientais. É assim que as coisas funcionam atualmente.

E…

E é por isso que a História nunca realmente fez sentido. Fazer sentido não era a preocupação primária. Não era você que era estúpido.

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