O sistema (ilegal) de transporte privado que funciona

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Por Lisa Margonelli

O 20º maior sistema de transporte público dos Estados Unidos – que conta com o trabalho de 120 mil motoristas por dia – é lucrativo e também ilegal. Não é um sistema de transporte público de verdade, mas um conjunto descentralizado de 350 licenciadas e 500 não-licenciadas “vans de um dólar” que correm pelas ruas do Brooklyn e do Queens, transportando passageiros em lugares onde os ônibus não prestam o serviço ou não são o suficiente. A frota de vans é uma pequena amostra de como nós poderíamos complementar o transporte público ao incluir pequenos empresários no ramo, dando as pessoas alternativas de transporte e criando empregos.

Para descobrir como funciona o universo das vans (vou explicar o porquê de serem ilegais em seguida), eu passei uma manhã circulando com um dos pequenos empresários do Brooklyn, Winston Williams da Blackstreet Van Lines. Entrei na van de Winston, rosa, coberta de patrocínios e propagandas na rua Livingston no centro do Brooklyn e me sentei no banco da frente, e fomos pela avenida Flatbush. Quase todas as vans são do modelo Ford E350, com uma grande traseira, portas laterais e assentos o suficiente para levar até 14 pessoas. Quando se percebe as vans funcionando no Brooklyn e Queens e como elas funcionam, é impossível deixar de nota-las. Winston olha o retrovisor e explica que o truque é manter certa distância entre as vans, para aumentar as chances de pegar os passageiros. Numa corrida de $2 dólares, ele precisa transportar 14 pessoas nos 9km de viagem para ter algum lucro. O custo do licenciamento, seguro, equipe e combustível das 8 vans na sua frota é considerável.

Algumas pessoas dizem que as vans transportam passageiros que, normalmente, andariam de ônibus, mas o professor assistente de Planejamento Urbano da Universidade de Columbia, David King, e o estudante de doutorado Eric Goldwyn dizem que não é bem assim. As vans parecem complementar o serviço de ônibus, e elas possuem grandes vantagens. Goldwyn andou em várias vans e fez algumas pesquisas onde descobriu que em alguns pontos existem 4 ônibus por hora e entre 45 e 60 vans, o que significa que os passageiros não têm que esperar nem um minuto pela corrida. Também, que as vans podem ser bem mais rápidas que o transporte público. Uma linha que sai de Chinatown pode cruzar a cidade e fazer em menos de 20 minutos o que o transporte público demoraria 1 hora e 13 minutos, no mínimo. E, para motoristas regulares, há outras vantagens. “Eu ouvi dizer que eles prestam outros serviços – por exemplo, eles esperam enquanto um pai leva a criança até a porta da escola e volta. ”  Esse é um tipo de serviço que não podemos esperar dos ônibus.

A van de Winston, rosa e cheia de propagandas, dá a impressão que do lado de dentro há um ambiente de festa. Mas não é bem assim. Os passageiros, a maioria da Jamaica (como Winston) ou de Trinidade e Tobago, se sentam silenciosos. Uma mulher de Trinidade, vestida com traje social, me ouve entrevistar Winston, e diz que as vans são uma maneira comum de transitar na cidade. O interior da van é limpo, cinza e comum – tudo é parte do planejamento de Winston de manter todas as vans com o mesmo padrão.

Ele gostaria de, eventualmente, ter uma rota em Flatbush e levar jovens de classe média de Williamsburg até Manhattan. Se parece improvável, não é: pense na incrível popularidade dos food-trucks, que eram conhecidos como “restaurantes de baratas” há apenas 10 anos. Uma frota de vans, levando conforto e bons preços para jovens de 20 anos poderia facilmente dar certo. Se as vans forem ecologicamente corretas – com motores flex ou a gás natural – podem fazer parte de uma cidade mais limpa. (Como outra medida para manter o negócio lucrativo na rota, Winston permite que um produtor musical chamado Dollar Van Demos grave clipes de rap em suas vans para postar na internet.) Mas o negócio não pode crescer enquanto as vans não forem conhecidas e atrativas às pessoas que ainda não conhecem o serviço, nos diz Winston.

E é aí que a ilegalidade entra. Winston costumava ter todas as suas vans pintadas com uma faixa verde, fazendo com que elas fossem facilmente reconhecidas na vizinhança. Enquanto esse “uniforme” era bom para os negócios, suas vans atraíram a atenção de vários policiais, que o multaram por parar para pegar passageiros, o que acabou com o lucro do serviço. Esse é o paradoxo do trabalho de Winston: ao mesmo tempo em que é totalmente licenciado, segurado e inspecionado, suas vans são proibidas de fazer o que elas foram pensadas para fazer: pegar passageiros nas ruas.

David King, da Universidade de Columbia, ironiza o fato de que todas as vans são 100% ilegais (pelas regras de paradas), mas algumas são 200% ilegais (porque nem se dão ao trabalho de se licenciar). Winston diz que a polícia não para as vans sem licenças que estão no negócio, mas só vão atrás das vans legalizadas por infrações de parada em locais inadequados. “As leis são feitas para envolver suas ações”, nos relata Winston, dizendo ainda que o anúncio cor de rosa na van é, ao mesmo tempo, uma tentativa de ter um pequeno lucro adicional enquanto ele trafega pela cidade, e uma forma de tentar chamar a atenção para saber se há alguma lei específica sobre a publicidade nas vans. Pouco depois, uma das 500 vans totalmente ilegais encosta nele e, em Jamaicano, Winston acusa o motorista de ser um terrorista: “Não é que eu tenha ódio deles. Mas eu estou tentando construir um negócio enquanto eles estão trabalhando com base na força bruta ”.

A existência de leis e a falta de fiscalização coloca os motoristas licenciados em uma situação que Winston descreve como um “Catch 22” [Nota do Tradutor: No Brasil, Ardil 22 – uma expressão na trama para descrever uma situação paradoxal, onde uma pessoa não pode evitar um problema por causa de regras contraditórias]. Em 1993, Nova York baniu completamente as vans. Foi necessária a intervenção de alguns ativistas donos de vans com a ajuda do grupo libertário Institute For Justicepara que fossem legalizados. Proposital ou não, a péssima política da cidade contra as vans “meio-legalizadas” e a incapacidade de fazer valer a lei contra as vans não licenciadas limitam o crescimento que poderia ser um recuso útil no transporte urbano. Winston descreve uma década e meia de perseguição estilo Coiote e Papa-Léguas por causa da lei, concluindo que “espere até acontecer uma greve de trens, um apagão, um furacão ou outro 11 de Setembro, e as pessoas praticamente estarão arrancando as portas das vans para entrar ”. No último ano, quando a cidade tentou diminuir as rotas de ônibus, eles até tentaram obrigar as vans a trocarem suas rotas também, mas o programa foi cancelado devido ao desinteresse dos motoristas nas novas rotas e dos passageiros nas vans.

Você pode estar se perguntando por que, exatamente, as vans são ilegais na maioria dos estados. A resposta está na história do transporte público. Até a década de 1950, a maioria dos sistemas de transporte nos EUA eram concessões, controlados por algumas empresas que detinham o monopólio, e que deveriam providenciar transporte para a cidade inteira. Em troca, eles tinham o direito de ser o único serviço autorizado na cidade. O número de usuários do transporte público cresceu rapidamente após a Segunda Guerra Mundial, mas as empresas de transporte faliram, pois, com o aumento das cidades, a área de cobertura que elas deviam suprir ficaram cada vez maiores, resultando numa insuficiência do serviço, e cada vez mais investimentos do governo federal em rodovias – tudo isso contribuiu para que a população comprasse mais e mais carros, e abandonasse o transporte público. A maioria das 200 empresas de transporte privado do país quebrou na década de 1950. No fim da década, as cidades tomaram o controle de empresas de transporte quebradas e tentaram reergue-las, mantendo para si o monopólio no direito à prestação do serviço. No início da década de 60, o FED [Nota do Tradutor: Banco Central dos EUA] se envolveu numa tentativa de alavancar tais sistemas, mas sem muito entusiasmo. Enquanto isso, empresas privadas eram impedidas de transitar nas ruas, mesmo que oferecessem melhor serviço do que as agências públicas.

O que é mais interessante sobre as vans é que se elas forem propriamente licenciadas e seguradas – e razoavelmente legais – é que elas poderiam migrar para onde os passageiros desejassem e onde elas poderiam ser mais rápidas e eficientes do que o transporte público, que necessita de mais infraestrutura e planejamento. Em algumas cidades, o transporte público é o mesmo há décadas, e não se adapta aos hábitos e vidas dos habitantes. As vans estão na rua para ganhar dinheiro, e isso não é ruim para os passageiros. As vans ajudaram os passageiros durante o Furacão Irene, quando os metrôs de Nova York foram desativados. Inclusive a van rosa de Winston.

// Tradução de José Pagio. Revisão de Ivanildo Santos III.

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