3 tipos de ignorância econômica

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Por Steven Horwitz

Nada me anima mais do que expor a ignorância econômica.

Eu sei que não estou sozinho. Considere a crítica merecida que Bernie Sanders recebeu nas redes sociais por não entender o porquê de os empréstimos estudantis terem taxa de juros que varia de 6% a 10%, enquanto uma hipoteca pode ser obtida a míseros 3%. (Obviamente, a resposta é que a hipoteca tem um colateral na forma de uma casa, constituindo-se em um empréstimo de risco mais baixo ao emprestador que um empréstimo estudantil, que não tem colateral e, portanto, requer uma taxa de juros mais elevada para cobrir um risco mais elevado) [Nota do Revisor: É engraçado notar que o estado concentrou de tal forma o setor bancário no Brasil, que os juros de empréstimos estudantis visando o lucro nos EUA são menores que os de qualquer coisa que não receba subsídios no Brasil].

Quando falamos de ignorância econômica, os libertários rapidamente recorrem à famosa observação de Murray Rothbard sobre a questão:

Não é nenhum crime ser ignorante em economia, a qual, afinal, é uma disciplina específica e considerada pela maioria das pessoas uma “ciência lúgubre”.  Porém, é algo totalmente irresponsável vociferar opiniões estridentes sobre assuntos econômicos quando se está nesse estado de ignorância.

A ignorância econômica toma formas diferentes, e alguns tipos de ignorância econômica são menos escusáveis que outras. Mas a implicação mais importante da observação de Rothbard é que o pior tipo de ignorância econômica é a ignorância sobre a ignorância econômica. Existem diversos níveis de culpabilidade por não saber certas coisas sobre economia, mas o que é sempre inaceitável é não reconhecer que você pode não saber o suficiente para falar com autoridade ou mesmo entender os limites do conhecimento econômico.

Vamos explorar três tipos diferentes de ignorância econômica antes de retornarmos ao problema generalizado de não saber do que você não sabe.

1. O que não é debatido

Vamos começar pelo tipo menos desculpável de ignorância econômica: não conhecer teorias ou resultados consolidados na economia. Podem não haver muitas dessas, mas existem mais do que muitos não especialistas normalmente acreditam. A inabilidade de Bernie Sanders entender o porquê que empréstimos sem colateral têm taxas de juros maiores entraria nessa categoria, já que essa é um fato estabelecido de economia financeira. O ataque de Trump (ou de Sanders) ao livre mercado seria outro exemplo, já que a ideia de que o livre mercado beneficia os países que comercializam entre si no longo prazo é bem aceito entre os economistas.

Trump e Sanders, e muitos outros, que fazem alegações sobre economia – mas que permanecem ignorantes de ensinamentos básicos como esses – deveriam ser vistos como altamente culpáveis por aquela ignorância. Mas o sentimento mais profundo de muitos que cometem tais erros é que eles são ignorantes de sua ignorância. Frequentemente, eles nem mesmo sabem que existem consenso entre os economistas dos quais são ignorantes.

2. Interpretando os dados

Um segundo tipo de ignorância econômica que é, em minha opinião, menos culpável é a ignorância dos dados econômicos. Como Rothbard observou, a economia é uma disciplina específica, e não se pode esperar que não-especialistas conheçam todas as teorias e fatos relevantes. Existem muitos dados econômicos disponíveis e, normalmente, eles requerem interpretação estatística cuidadosa para serem facilmente aplicáveis às questões de política pública. As fontes de dados econômicos também requerem interpretação teórica. Os dados não falam por si próprios: devem ser integrados em uma relação de causa e efeito no âmbito da teoria econômica.

Dito isto, no mundo da internet, muito dos dados econômicos básicos estão disponíveis e não são difíceis de achar. O problema é que muitas pessoas acreditam que certos fatos empíricos são verdadeiros e não veem razão para verificá-los contra os dados. Por exemplo, Bernie Sanders afirmou recentemente que os norte-americanos estão trabalhando 50 a 60 horas por semana. Não há dúvida de que alguns estão, mas a tendência de longo prazo é que a média de horas trabalhadas por semana caia, com a média atual sendo de aproximadamente 34 horas/ semana. Vidas mais longas, e menos anos de trabalho entre faculdade e aposentadoria também significam uma redução nas horas trabalhadas e um aumento no tempo de lazer para o norte-americano médio. Esses dados são facilmente acessados em uma variedade de sites.

O problema da interpretação estatística pode ser visto com os dados sobre desigualdade econômica, em que as pessoas equivocadamente focam em capturas de dados estatísticas sobre a parcela da renda nacional detida por ricos e pobres como evidência do declínio do padrão de vida dos pobres ou sua inabilidade de sair da pobreza.

As pessoas que desejam opinar em tais questões podem, novamente, ser perdoadas por não conhecerem todos os dados em uma disciplina específica, mas se elas optarem por engajar-se no tópico, elas deveriam estar cientes de suas próprias limitações, incluindo sua habilidade para interpretar os dados que estão discutindo.

3. Diferentes escolas de pensamento

O terceiro tipo de ignorância econômica, e a menos culpável, é a ignorância de perspectivas múltiplas dentro da disciplina de economia. Existem diversas escolas de pensamento na economia, e muitas questões empíricas e fatos históricos tem uma variedade de explicações. Então, um filme como o A Grande Aposta que claramente sugere que a crise financeira e a Grande Recessão foram causadas por falta de regulamentação podem ser persuasivos para pessoas que nunca ouviram uma explicação alternativa que culpa a combinação da política do Banco Central dos Estados Unidos (Fed) intervenção governamental equivocada no mercado imobiliário pelos problemas. Uma pessoa pode fazer levantar reflexões sobre a Grande Depressão e a diferença entre as explicações hayekianas e keynesianas dos ciclos de negócios de modo geral.

Essas questões que envolvem escolas de pensamento são exemplos excelentes da observação de Rothbard sobre a natureza específica da economia e o que se pode esperar do não especialista. É, na verdade, irreal esperar que não especialistas conheçam todos os argumentos das mais diversas escolas de pensamento.

Combinando ignorância com arrogância

O que está falta em todos esses tipos de ignorância econômica – e o que é frequentemente faltante para os próprios economistas – é o que podemos chamar de “humildade epistêmica”, ou uma disposição a admitir quão pouco eles sabem. Não economistas são frequentemente incapazes de reconhecer o quão pouco sabem de economia, e economistas são frequentemente incapazes de admitir o quão pouco sabem de economia.

O real ‘know-how’ econômico não é somente um domínio de teorias e fatos. É uma profunda compreensão da variedade de interpretações daquelas teorias e fatos e a humildade frente aos limites da aplicação daquele conhecimento na tentativa de administrar a economia. Os economistas mais inteligentes são aqueles que sabem dos limites do conhecimento econômico.

Comentaristas com opiniões em questões econômicas, sejam candidatos à presidência ou amigos do Facebook poderiam, pelo menos, indicar que eles podem ter vieses ou pontos cegos que levam a usos de dados ou estruturas interpretativas com as quais os especialistas podem discordar. O pior tipo de ignorância econômica é o tipo de ignorância que é a pior em todos os campos de conhecimento – ser ignorante de sua própria ignorância.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Santos III.

 

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