Odiar o governo e os governantes não é o mesmo que defender a liberdade

revolucionc3a1rioPor Jeffrey Tucker

Há sempre aqueles defensores da liberdade que, ao verem a ascensão de candidatos radicais que representam uma ameaça à ordem política estabelecida — como o caso de Donald Trump e Bernie Sanders nos EUA —, se sintam animados, pois isso, segundo eles, representa um aberto descontentamento com ostatus quo.

Mas há um problema: o poder estatal ao qual nos opomos não é idêntico à elite governante (oestablishment) que rejeitamos.  É perfeitamente possível você derrubar o establishment e, ainda assim, ficar com uma gigantesca máquina de exploração legalizada.  Todas as agências reguladoras, todas as leis criadas por políticos, todas as regulamentações e todos os demais poderes estatais continuam intactos.

E com um novo problema: outra pessoa estará agora no comando do estado.  Simplesmente houve uma troca da elite governante.  E o novo establishment pode ser ainda pior do que aquele do qual você acabou de se livrar.

Com efeito, normalmente é.  Talvez sempre.

A anatomia do establishment

O que é um establishment?

Trata-se de uma grande rede de lobistas e grupos de interesse, que cooperem entre si e que já desenvolveram uma confortável, longa e estável relação com o poder estatal.  O establishment inclui os grandes bancos, as empreiteiras que conseguem contratos polpudos com o estado, os grandes sindicatos, o funcionalismo público, as grandes indústrias protegidas por tarifas de importação, e as grandes empresas protegidas por agências reguladoras.  Todas essas instituições operam em uma relação de troca de favores com os políticos, com os burocratas responsáveis pelas regulamentações, com as famílias tradicionais da política, com os intelectuais e jornalistas pró-estado etc.

A história é antiga.  A Rússia czarista já apresentava um establishment profundamente enraizado: a igreja, as grandes empresas, o governo e a aristocracia — todos atuavam em conjunto por meio de uma estável e confortável relação.  A corrupção era explícita.  E então, a partir de 1915, com a guerra, com o recrutamento compulsório e com a inflação galopante, a situação se tornou intolerável.  O establishment fracassou e foi derrubado.  O que surgiu em seu lugar foi um governo de transição e, em seguida, o regime bolchevista.

A República de Weimar, na Alemanha, também tinha um establishment enraizado: grandes bancos, governo, grandes empresas e todo o estamento burocrático trabalhavam em conjunto.  A corrupção era óbvia.  E então se tornou intolerável com a hiperinflação e com a profunda recessão econômica.  As pessoas sofrerem profundas privações e começaram a buscar respostas.  Nesse ambiente, a mensagem e os discursos de Hitler começaram a ressoar e ele passou a ser visto como um mensageiro da verdade.  Ninguém esperava os resultados.

A lista de establishments fracassados que foram substituídos por outros ainda piores é, com efeito, bem longa: no século XX, México, Rússia, Espanha, Itália, Cuba, Argentina, Venezuela; no século atual, Iraque, Síria e Líbia.

A fusão entre estado e establishment fez com que vários movimentos revolucionários dessem errado.  O Leste Europeu derrubou seus establishments em 1989, mas manteve seus estados, dando origem a economias mistas e social-democratas.  A Rússia se livrou dos bolcheviques em 1990 e colocou em seu lugar uma oligarquia autoritária.  Sim, em ambos esses casos, os regimes subsequentes eram melhores do que os anteriores.  Porém, como bem ilustram os exemplos italiano, russo, francês e alemão, isso nem sempre ocorre.  Os resultados diferem de acordo com os planos e desígnios dos novos detentores do poder.

Revolução boa?

O caso clássico de uma revolução tida como bem-sucedida é a Revolução Americana.  Segundo seus apologistas, os americanos se livraram da monarquia britânica e inventaram o conceito de liberdade.  Mas será?  A própria guerra pela independência criou um novo establishment formado por políticos, generais militares, financistas que emprestavam dinheiro para o governo, e latifundiários influentes.  Doze anos após a Declaração de Independência, estes grupos se uniram e formaram um novo governo que, com o tempo, se tornou tão opressivo e restritivo quanto — e, alguns quesitos, muito mais que — aquele que os revolucionários derrubaram.

E isso ocorreu não obstante a existência de uma cultura intelectual — bem como de normas políticas — de cunho liberal-clássica.

Não obstante todo esse passado, vários dos atuais defensores da liberdade se tornaram tão extasiados com a ideia de simplesmente se opor ao establishment, que acabaram perdendo o foco do real objetivo, que é estabelecer a liberdade.  É por essa razão que, em vários países, muitos estão se deixando levar pelas mensagens de demagogos que alegam merecer seu apoio em suas cruzadas eleitorais pelo simples fato de serem abertamente vocais contra o establishment.

A questão é: por que isso seria positivo para a liberdade?  Tais pessoas, mesmo que genuinamente bem intencionadas, praticamente nada podem fazer para desmantelar o establishment e todo o poder estatal.  Em outras ocasiões, já escrevi que não é a classe política quem comanda as coisas.  Políticos vêm e vão.  A classe política é apenas o verniz do estado; é apenas a sua face pública.  Ela não é o estado propriamente dito.  Quem de fato comanda o estado, quem estipula as leis e as impinge, é a permanente estrutura burocrática que comanda o estado, estrutura esta formada por pessoas imunes a eleições.  São estes, os burocratas e os reguladores, que compõem o verdadeiro aparato controlador do governo.

O establishment é como Maquiavel descreveu: uma máquina estável que mantém seus desafiadores acuados e que sempre procura fazer o sistema funcionar em benefício se si próprio.  O establishment resiste a qualquer arroubo revolucionário ou reacionário que possa causar tumulto e, consequentemente, atrapalhar um esquema tão bem está lhe servindo.

A fogueira das vaidades

Para entender Maquiavel, tenha em mente que sua besta-fera foi o clérigo Savonarola, o proto-ditador de Florença que liderou um movimento de massa formado por malucos pietistas que praticavam a pilhagem e queimavam posses materiais acreditando que isso seria um caminho para o céu.  A Fogueira das Vaidades, 1487, foi um dos resultados.

Este é exatamente o tipo de comportamento que os establishments se esforçam para manter reprimido.

É o ápice da ingenuidade política e da ignorância história acreditar que o populismo anti-establishment e a defesa da liberdade humana são aliados na mesma batalha.  Não são.

Veja os casos recentes do Iraque e da Líbia.  A julgar pelos relatos, as massas estavam lutando contra déspotas e fazendo de tudo para serem derrubados, com a esperança de ter um futuro com direitos humanos e democracia.  O que obtiveram foi o total oposto.  Tarde demais as massas perceberam  que os tão odiadosestablishments que compreensivelmente estavam tentando derrubar era tudo o que havia entre elas e o reinado do terror irrestrito.

Esse é o problema com as revoluções políticas: um grupo de pessoas lidera a revolução enquanto todos os outros apenas seguem.  Se a revolução for bem-sucedida, os líderes esperam ser recompensados.  E a principal recompensa é o controle do aparato estatal que irá assumir o lugar do establishment que foi derrubado.  Faz sentido que o novo regime seja ainda mais impiedoso, implacável, vingativo e sanguinário do que tudo o que veio antes.  Apenas pense em Cuba.

Isso, obviamente, não é um argumento em defesa do establishment.  É, isso sim, um argumento contra a adoção de uma postura anti-establishment como sendo a ideal.  O ideal é a liberdade, e não a simples derrubada da estrutura das atuais elites governamentais.  Um populismo desenfreado e irrestrito pode ser um inimigo da liberdade tão grande quanto o domínio de uma elite governamental já enraizada.

É de extrema importância atentarmos para essa diferença.  Um movimento em prol de uma liberdade duradoura tem de pensar no longo prazo, e jamais pode se deixar encantar pela lábia de demagogos e de partidos que prometem resultados imediatos, por mais afinados que estejamos com as palavras proferidas por eles.  O objetivo, além da derrubada do establishment, é sua substituição por uma sociedade de direitos humanos negativos e que funcione de acordo com padrões civilizados.

De cima para baixo ou de baixo para cima?

Golpes políticos feito de cima para baixo são particularmente perigosos na atualidade.  O establishment já está um tanto perdido por causa das inovações tecnológicas.  A elite governante está gradualmente perdendo o controle das comunicações, da educação, do desenvolvimento industrial, do planejamento civil, do consumo e de quase todo o resto.  Os modelos antigos se tornaram antiquados e desacreditados, e os novos os estão substituindo, organicamente, de maneira duradoura.

Um novo autocrata, seja de esquerda ou de direita, pode colocar tudo isso em risco.  Um movimento político impulsionado pelo ressentimento pode conferir poder a uma nova forma de controle oligárquico, resultando em uma calamidade que ninguém almejava — e que, tão logo tenha poder, ninguém poderá controlar.

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