A defesa do socialismo é, inescapavelmente, uma apologia da violência

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Por Carlos Marcelo Velloso Wendt

Há uma piada mais ou menos assim:

“Dois caipiras andavam pela estrada quando um deles quase pisou num objeto estranho. O outro o interrompeu e apontou para aquilo que ele achava ser estrume.

‘Eu te salvei de pisar nessa m…! ‘, exclamou.

O caipira que foi salvo respondeu: ‘Isso não me parece m…, apesar de ser marrom. Acho que é chocolate ou alguma coisa assim’.

E então eles começaram a discutir e resolveram decidir se era esterco ou chocolate pegando um naco daquilo e comendo pra provar. Descobriram que não tinha gosto de chocolate.

‘Ocê tinha razão! Ainda bem que a gente comeu m…, se não, a gente teria pisado nela!’.

E saíram se vangloriando do sucesso de sua experiência empírica.”

De maneira semelhante, muitos tentam ver o lado bom de uma revolução socialista ter acontecido na Rússia. “Assim, temos certeza de que economia planificada não dá certo.” Ou comentam, com razão, sobre o “laboratório” das alemanhas ou das coreias.

Qualquer pessoa em sã consciência e intelectualmente honesta há de reconhecer que o lado capitalista (ou menos intervencionista) apresentou muito mais qualidade de vida e liberdade que o lado socialista.

Mas, um momento. Por um acaso a importância de saber a priori que o socialismo é improdutivo e ditatorial não estaria justamente em utilizar esse conhecimento em um debate com esquerdistas e, assim, evitar que a nação passasse por privações econômicas e por um genocídio?  E não foi justamente isso o que aconteceu com os países socialistas? Como podemos nos alegrar por saber que exatamente aquilo que nossos argumentos tentaram evitar não foi impedido?

O fato é que grandes massas da Rússia, da China e de Cuba, por completo desconhecimento das implicações de se ter uma economia planificada, aderiram aos movimentos revolucionários socialistas, o que significa que os pensadores liberais e conservadores desses países fracassaram em espalhar suas ideias.

“Mas sem essas experiências empíricas, será que o socialista não teria ainda mais força no debate, já que não teria casos reais dos quais se envergonhar? E como poderíamos provar que as ideias dele estão erradas, sem esses ‘laboratórios’?”.

É aí que entra o raciocínio crítico. Como já diria o narrador do Telecurso 2000: vamos pensar um pouco.

Criando cenário

Vamos conjecturar sobre o que deve acontecer para que se consiga coletivizar a economia inteira do país. O foco não será o problema do cálculo econômico sob o socialismo, que mostra como esse plano gera uma irracionalidade na alocação de recursos. O que queremos ver agora é: o que deve ser obrigatório para um regime que busca ser socialista?

Imagine que você é um esquerdista bem-intencionado e idealista. Acredita que se deve primeiro ter um estado máximo que dissolva as classes sociais e torne todos iguais. Esse é o socialismo. Cumprida essa parte, passaremos para o comunismo, e esse mesmo estado máximo se extinguirá e a sociedade não terá classes nem posses e nem estado. Ou seja, haverá uma anarquia igualitária. Deixemos de lado o quão utópico é acreditar que todos permaneceriam iguais, estáticos, como se fossem robôs, sem o uso da força. Tenhamos paciência.

Agora, pense no que deverá acontecer para você conseguir estatizar toda a economia, conforme prega o socialismo. Pergunte-se:

Como posso fazer o estado ter o controle sobre todos os meios de produção?

Bem, você terá que dominar o estado, estar em seu comando. É mais comum haver uma revolução armada, mas você também pode se eleger democraticamente, por meio de um discurso de luta de classes.

Uma vez que eu me torne chefe-de-estado, como posso tomar controle das propriedades privadas dos burgueses?

Muito simples. A ideia dos comunistas de primeiramente agigantar o estado e usá-lo para socializar os meios de produção para depois, de alguma forma, acabar com o próprio estado, era justamente se aproveitar do aparato de coerção estatal. Você, líder socialista, deve usar a força bruta para tomar posse das fábricas e de todos os bens de capital, em geral. Não importa se você é revolucionário ou foi democraticamente eleito. É exatamente isso o que deve ser feito, se quiser garantir que tudo seja controlado pelo estado, que está sob seu domínio.

Sim, a tomada dos meios de produção será violenta. De que outra forma o estado conseguiria ter controle de todos os ativos do país? Uma desapropriação seguida de indenização, talvez. Só que, sendo um socialista que acredita na causa, é improvável que você queira se sujeitar a dar alguma compensação àquele maldito burguês.

Mas, digamos que, em nome da paz, você aceite comprar dele a empresa, pacificamente. Ok, mas e se alguém não aceitar nenhum valor que seja oferecido? Ou será que, no país inteiro, todos vão aceitar pôr à venda sua propriedade? Se alguém quiser continuar mantendo suas posses, você não vai querer correr o risco de entrar na História como um mero social-democrata que fez tudo pela metade.

Considerando que a intenção desse exemplo é mostrar o que acontece ao se planificar a economia, você deve levar até o fim o seu ideal. Terá de usar as forças armadas para tomar de assalto todas as instalações fabris e fazendas.

Agora, sim, o estado poderá decidir o que será feito com os bens de produção, seja industrial ou agrária. Veja: você terá de abrir mão de qualquer pacifismo se quiser socializar a economia.

“Agora que eu já estatizei toda a economia, o que impede os cidadãos do país de tentar abrir o próprio negócio e se tornar um explorador de mais-valia?”

Aí está outro problema. Você terá de manter o exército socialista — ou melhor, a sua milícia armada revolucionária — em alerta contínuo. O estado não pode simplesmente deixar que as pessoas tentem produzir bens por conta própria, pois isso contraria o princípio fundamental do socialismo. Tudo o que for produzido, de aviões a alfinetes, terá de ser feito pelo estado.

Logo, haverá uma situação de eterna vigilância, na qual sempre se usará a força bruta para fechar negócios clandestinos. É como se a guerra às drogas fosse ampliada para todos os setores da economia, não apenas aos narcóticos.

Ou seja: o país será um ambiente militarista, onde o estado, para ter o controle total da economia, terá de sertotalitário. Sim, chega a ser ridículo de tão redundante. É como explicar que o círculo é circular. Como você poderia esperar que houvesse um estado máximo que não fosse ditatorial? Mesmo que o líder socialista tenha sido eleito democraticamente, ele terá de acabar com o que resta de liberdade ao ter controle sobre a economia.

Você, que acredita em independência entre os três poderes e oposição forte para manter o equilíbrio das instituições, pense. Será possível manter esse sistema de freios e contrapesos se a economia for centralizada? Imagine o Judiciário dependente de recursos materiais e financeiros, controlados pela burocracia central. O mesmo vale para a oposição.

A diferença entre alguém que socializa o sistema por dentro, pelas próprias vias legais, e alguém que faz uma revolução, é que o primeiro não tem uma data em que se possa precisar o momento em que o país passou a ser socialista. Quando os rebeldes ganham uma guerra civil, fica claro. Mas no caso de um governante que, pouco a pouco, nacionaliza cada setor, é difícil definir quando passou de meramente intervencionista para, de fato, socialista.

A Venezuela, por exemplo, já é uma ditadura, ainda que idiotas úteis neguem porque “lá tem eleições”. Não é surpreendente que haja tanta repressão. Se quase toda a produção já é estatizada, é natural que Maduro precise ser linha-dura com todos os revoltosos que sofrem com o típico desabastecimento advindo do problema do cálculo econômico. Mas é difícil definir quando se tornou socialista.

A certeza é que, seja por golpe ou por sufrágio, o governo que estatizar a economia será uma ditadura totalitária. E qualquer um que se oponha é um ser monstruoso por não entender a grandeza do plano do grande líder e merece ser morto. A Grande Fome da Ucrânia, a Revolução Cultural da China e o paredón de fuzilamento em Cuba são casos de matança típicos de um regime que leve a sério a planificação econômica. Nada foi deturpado.

Retomemos a questão do militarismo. Se os países socialistas precisam de um aparato de coerção para mandar na população, é lógico que o clima será sempre beligerante. Qualquer um que for pego comercializando sem estar sob o comando do estado será um traidor da Pátria, alguém que se vendeu ao imperialismo estadunidense. Nem precisa ter feito algo contra o socialismo, na verdade. Muitos idiotas úteis que obedeçam a todas as ordens do comando central podem ser presos por motivos inventados, somente para esse comando usar um bode-expiatório contra quaisquer problemas.

E, para demonstrar todo o seu poder, o país sempre fará grandes desfiles militares em algum feriado nacional. Vários tanques paquidérmicos e caminhões lança-míssil colossais mostram que “a minha arma é maior que a sua”. Um tanto freudiano. Veja a URSS, China, Cuba e Coreia do Norte. Será mera coincidência? Será que é porque eles deturparam o socialismo? Qualquer país socialista, obrigatoriamente, será extremamente militarista. Não haveria como manter essa planificação na marra, sem todo esse aparato.

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Seguindo adiante com o raciocínio.

Se você quer ter controle sobre os seus subalternos, não apenas terá que impor medo, como também ser respeitado. Ser adorado. Ser venerado. Essa é outra característica indispensável para quem quer centralizar a economia: o culto ao líder. Ou melhor, “Querido Líder”. Ou “El Comandante”. Ou ainda, “Grande Timoneiro”.

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E mais essa:

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Opa, engano. Ou não.

Talvez você tenha sentido falta de um cartaz desses com Stálin. É que nenhum deles supera isso:

Agora, pense no mercado de trabalho.

A pessoa não pode escolher para qual empresa trabalhar e nem mesmo ser autônoma, pois toda a produção é do estado. Por exemplo, na URSS, grandes massas de migração forçada ocorriam pelo país, por pura arbitrariedade de Moscou. As pessoas não escolhiam ir trabalhar porque queriam ganhar seu próprio dinheiro, mas porque o estado decidia. Não havia “querer”.

Mao Tse-Tung, em seu Grande Salto Para Frente, resolveu obrigar todos os camponeses a ter uma pequena fundição de aço no quintal de sua casa. Obviamente que, sem experiência alguma com o ramo, os agricultores fabricavamum metal de péssima qualidade. Já ouviu falar em Teoria das Vantagens Comparativas? Sem contar os vários acidentes que ocorriam com o fogo, num local onde era comum haver palha e feno. Imagine a cena. Este é só mais um exemplo da completa cegueira da falta de um cálculo econômico.

Deixando de lado essa questão consequencialista, o fato é que não havia liberdade para poder trabalhar ou deixar de trabalhar. A pessoa era obrigada a servir ao estado, e no que ele decidisse. Não há outra palavra para isso senão escravidão.

Vamos para os setores específicos. Se o estado controla todos os meios de comunicação, como você espera haver liberdade de imprensa? Não é que seja uma mera ditadura autoritária, em que os jornais, particulares, sofram censura. Aqui, a ditadura é totalitária, e toda a imprensa é estatal. Nem há censura a ser feita. A imprensa servirá para noticiar os feitos do grande líder, e tudo de ruim será mostrado como uma sabotagem de traidores e de imperialistas. Não há como criticar o governo.

Agora, pensemos nos telefones e correios. Mesmo países não socialistas têm ou tinham monopólios estatais sobre esses setores, que, por acaso, são muito convenientes de se ter sob controle. Ou você acredita que o estado faz isso porque quer “desenvolver” o país? Mesmo que o governo não tenha poder sobre esses meios, por ter havido alguma privatização, ele ainda pode fazer interceptações, escutas e coisas do gênero.

Agora, imagine um estado socialista, totalitário, com todos os meios à disposição para vigiar a vida das pessoas. Se você quer ter uma ideia de como é isso, assista ao filme alemão “A Vida dos Outros“. É o mais puro retrato do Grande Irmão.

Sobre a cultura. Ao controlar todos os meios de produção, o estado também dominará o próprio estilo de vida. Se ele controla a produção de alimentos e de vestuário, determinará qual será a dieta das pessoas e o que elas poderão vestir. O governo da Coreia do Norte é dono de todos os salões de cabeleireiro. Não é surpresa que ele decida o estilo de penteado dos homens e das mulheres. Os filmes, naturalmente, serão pura propaganda revolucionária. Assim como a imprensa, servirão como instrumento para deixar a população sempre em estado de alerta contra os invasores estrangeiros que querem acabar com aquele paraíso socialista. Exatamente como no livro “1984”.

Se a grande massa acreditar em um inimigo em comum (como a “Eurásia”), poderá ser manipulada mais facilmente.

Por fim, a educação. Será que os países socialistas têm fama de possuir alta escolaridade porque eles se preocupam com as criancinhas? Ora, qual forma melhor de dominar o pensamento da nação do que ensinar as pessoas, desde pequenas, a moral socialista? Lembre-se de que, se você quer criar o “novo homem socialista”, deve enfiar na cabeça dos alunos o que é certo e o que é errado. Não existe educação pública. Apenas doutrinação pública.

Diz-se que, porque a educação dá aos cidadãos chances na vida, seria um fator igualitário na largada, e não na chegada. Pessoas que não defendem o socialismo e que são contra igualdade forçada de resultados caem nesse embuste de que é necessário apenas igualdade de oportunidade. Não percebem que escolas públicas, mesmo em países não socialistas, acabam sendo usadas para mostrar aos alunos como o estado é a cura de todos os problemas da humanidade, e como o capitalismo “gera pobreza”.

O motivo de um libertário ser a favor da desestatização da educação não é só porque escolas particulares ensinam melhor. É para evitar que uma geração inteira se torne adoradora do Leviatã.

Até porque, mesmo que todas as escolas oferecessem uma “educação de qualidade”, isso não resolveria o problema da diferença de oportunidades. Uma criança que, além de frequentar uma boa escola, ainda tivesse pais responsáveis, se sairia melhor que uma que não tem tanto apoio familiar. O próximo passo para os defensores das “oportunidades iguais” seria, então, mandar todas as crianças para colégios internos, mesmo sem consentimento dos pais, pois assim todos os alunos viveriam exatamente no mesmo ambiente. Mas é claro que sempre haveria um novo problema que tornaria as oportunidades desiguais. Daí, mais intervenção estatal na vida do cidadão.

Hayek já explicou que cada indivíduo tem uma coleção única de conhecimentos e experiências, de modo que igualdade de oportunidade se torna uma ilusão. A esquerda não descansaria até que houvesse igualdade de resultados. Ou seja, socialismo.

Aliás, educação é bem mais amplo que a mera escolarização, mesmo que particular. Educação se aprende no dia-a-dia, com os pais e com pessoas próximas. Ainda que estejamos falando no sentido estrito de instrução técnica, isso não significa que precise ser feito naquele ambiente burocratizado de sala de aula. É comum em muitos países haver o homeschooling, ensino em casa. Atualmente, ainda existem diversos cursos on-line como oKhan Academy, o Coursera e o Veduca. Sem contar as diversas vídeo-aulas de canais no YouTube.

Não caia na armadilha de que o estado é o único capaz de “democratizar” o ensino.

Conclusão

Resumindo o socialismo: ele, obrigatoriamente, será uma ditadura totalitária, militarista, personalista e genocida. Tudo isso foi concluído a priori. Não se precisaria de nenhuma fila de racionamento e de nenhum massacre. De quebra, é demolida qualquer desculpa de que “aquilo não foi socialismo de verdade”.

Se um regime teve essas características, é só mais uma prova de que ele foi, de fato, socialista.  A economia planificada não só é irracional economicamente, como também, e sobretudo, é imoral e desumana.

Agora, um desabafo. Na oitava série, enquanto os professores de História e Geografia explicavam sobre a economia planificada, eu já pensava: “Se um estado controla toda a economia, tem como não ser uma ditadura? Quer dizer, isso não concentraria poder demais nas mãos de um pequeno grupo de governantes?”

Eu me perguntava em pensamento, mas tinha vergonha de compartilhar essa ideia na sala de aula. Até porque ela estava num nível rudimentar, e não tão detalhada quanto neste artigo. Mas eu já tinha uma intuição de que não havia como ter liberdade numa economia centralizada. Agora, se alguém do ensino fundamental consegue notar isso, como pode haver acadêmicos que acreditam em socialismo com liberdade?

Eu via uma professora reclamar que a URSS não deu certo porque se burocratizou demais e tinha mais de mil ministérios. Ao passo que minha resposta mental era: “Mas como você espera ter uma economia planificada sem um grande aparato burocrático? Será que ela não percebe isso? Ou será que sou eu que estou pirando?”.

Depois que li alguns artigos do IMB e assisti a alguns vídeos do liberal Milton Friedman e do conservador Olavo de Carvalho, vi que existiam pensadores de peso de diferentes correntes que já haviam se pronunciado sobre o tema e com a mesma resposta. Socialismo é não ter para onde correr. É coerção. É escravidão. É morte.

Por isso, é revoltante ouvir alguém dizer que “deturparam Marx” e que “socialismo verdadeiro nunca existiu”. E não ouço isso vidno de leigos. Professores de economia já disseram pérolas como:

“Aquilo que houve na União Soviética não era socialismo, era ditadura”.

Claro, ele quer centralizar a economia e não ter uma ditadura. Será que nunca parou para pensar nas implicações políticas desse sistema?

“No socialismo, o estado controla só a economia, não a vida particular das pessoas”.

Como se não houvesse uma enorme intersecção entre a esfera econômica e a civil.

“Socialismo verdadeiro nunca existiu, porque socialismo é democrático”.

Só se, com “democrático”, você quiser dizer ditadura da maioria.

“A socialização é só dos bens de produção, não de consumo”.

Obrigado deus-estado por, ao menos, me deixar ficar com a roupa do corpo!

Por isso, senti a necessidade de compartilhar esse pensamento. Se eu puder compartilhar essa ideia para iluminar a escuridão, as tentativas de se implantar o socialismo no Brasil perderão força. Assim, não precisaremos comer m… como aquele caipira e servir como ratinhos de laboratório.

 

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