De conservador a anarquista

 

 

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Por Steve Patterson

Há quatro anos, eu me tornei anarquista, e jamais me arrependi. Hoje, minha filosofia política corre pelas minhas veias. Porém, nem sempre foi assim. Eu era um jovem e apático conservador. Então, fui introduzido ao libertarianismo, que lentamente me tornou um anarquista. Isso pode parecer loucura, mas eu lhes asseguro que é um processo bastante normal e que muitas pessoas trilharam o mesmo caminho.

Tudo começou em 2007. Na época, eu não me envolvia muito em política. Meus pais eram conservadores, e eu, também. O Youtube era algo relativamente novo, e me recordo de ter topado com um vídeo de Ron Paul. Fiquei imediatamente intrigado. Ali estava um velho engraçado dizendo o oposto de seus colegas republicanos em pleno debate, denominando-se um “conservador constitucional”. Isso parecia atraente. Ele dizia todas essas coisas fascinantes que eu nunca tinha ouvido, e quanto mais vídeos assistia, mais animado ficava. Depois de algumas semanas, já tinha me tornado o apoiador nº1 da plataforma de governo desse tal de Ron Paul. Mal sabia eu que esse contato com uma filosofia política mudaria a minha vida.

Se você conhece algo sobre Ron Paul, você sabe que ele é uma exceção à regra. Ele foi um político, sim, mas diferentes dos outros. Os políticos são (corretamente) conhecidos como pessoas lisas, covardes e sem princípios cuja ambição política prevalece sobre qualquer pingo de integridade que tenham. Ron é o oposto. Ele desafia o oxímoro “político de princípios”. Ele tem sido considerado a única exceção à gangue 435 (N.R: O autor faz referência ao número deputados na House of Representatives). E isso fica claro quando ele fala. Ele não apela para retórica vazia ou atraí a multidão com lugares-comuns. Ele realmente acredita no que diz e fala com convicção, algo não existente entre os políticos em geral.

Em última instância, para mim, Ron Paul é um nerd fascinante e de princípios. Ele é um homem extremamente bem-educado em todas as áreas do pensamento político, especialmente a economia. Ele coloca as ideias filosóficas acima da política e das eleições. Na verdade, ele utilizou suas campanhas presidenciais como plataformas educacionais. Ron não achava que poderia ganhar, mas sabia que mais pessoas descobririam o poder das ideias de livre mercado caso ele se candidatasse à presidência.

Ron Paul curou minha apatia. Mas como ele lhe diria, as ideias de Ron Paul são mais importantes que sua pessoa. Milhões de pessoas foram influenciadas não somente pela filosofia da liberdade, mas também por sua encantadora personalidade. Os princípios básicos de governo limitado ressoavam através de todos os espectros políticos, independentemente da identificação particular da pessoa como democrata, conversador ou apático.

Dada a minha ideologia conservadora, eu sabia que muitas pessoas defendiam a Constituição, mas que poucas o faziam de forma consistente. Elas apoiavam a intervenção militar no exterior, mas eram contrários à ideia de exigir que o Congresso declarasse formalmente a guerra. Eles reclamavam sobre o Departamento de Educação, mas apoiavam somente cortes pequenos ao seu orçamento. Ron disse o que os conservadores tinham muito medo de dizer: tirem o governo da educação de nossos filhos. Nós não precisamos de um corte de 10% no orçamento; nós precisamos abolir o Departamento por completo! Os conservadores dizem que apoiam a responsabilidade individual e não querem um estado-babá. Então, como podem apoiar a guerra às drogas? Se um adulto decide pacificamente fumar maconha no porão de sua casa, e não prejudica ninguém ao fazê-lo, nós não precisamos que o estado-babá microgerencie sua vida e o jogue na cadeia. Supostamente, os conservadores querem que você seja livre para tomar decisões erradas, desde que você pague pelas consequências das mesmas.

Provavelmente a posição mais polêmica defendida por Ron Paul dizia respeito ao exército dos Estados Unidos. Ele pensava, como um conservador tradicional, que deveríamos ter muito cuidado antes de intervir em questões externas. Ele também pensava que o Pentágono não era infalível: os oficiais que dele fazem parte são propensos às mesmas perdas e má gestão vistas no Departamento de Educação. E isso não agradou a algumas pessoas; não deveria. Ron simplesmente aplicou os mesmos princípios em todo espectro do governo.

Ele era consistente, e sempre acabava voltando ao seguinte princípio: qual é o papel adequado do governo? Antes de discutir sobre o corte de 10% no orçamento do Departamento de Educação, não deveríamos discutir se ele deveria efetivamente existir? É apropriado, ou mesmo constitucional, para o poder executivo enviar tropas para outros países por um período extenso de tempo sem uma declaração formal do Congresso? Antes de reduzirmos migalhas dos gastos governamentais, temos que estabelecer de forma clara o que o governo deveria efetivamente fazer.

Para mim, ele estava cirurgicamente correto, e revelava uma verdade inconveniente: republicanos e democratas não são tão diferentes entre si. Um partido pode querer aumentar os gastos em 5%; o outro, reduzir o gasto em 5%, mas ambos favorecer ostatus quo e apoiam o governo inchado em suas respectivas áreas. Democratas e conservadores são como dois lados da mesma moeda. O conservadorismo constitucional, eu pensava, representava uma alternativa real.

Mas minha jornada não parou por aí, pois Ron tinha implantado uma pequena semente em minha cabeça. Quando falava, ele mencionava com frequência a “escola austríaca de economia”.  Eu nunca tinha ouvido falar dela, mas, uma hora, decidi ver qual era. O que eu descobri mudou a minha vida. Encontrei o website Mises Institute, que tinha uma lista extensa de artigos e vídeos sobre economia austríaca. Foi paixão à primeira vista. O poder explanatório da economia era estonteante. Após mergulhar na literatura disponível, não acreditei simplesmente que o governo era ineficiente, mas entendi o porquê o era. Tudo isso teve um enorme impacto em minha filosofia política, e foi o primeiro passo na minha transição para o libertarianismo radical.

Agora acredito que seja impossível ter um entendimento claro sobre como o mundo funciona sem a bagagem teórica e prática que a economia proporciona. A função coordenativa dos preços, lucros e prejuízos em um mercado é surpreendente. Sem exagero – é praticamente milagrosa. Escreverei sobre isto em outra oportunidade. Suficiente dizer, a economia tornou-se um pilar em torno do qual eu desenvolveria minhas outras crenças políticas.

Quando mais eu aprendia – e me aprofundava na EA – mais “radical” eu me tornava. Não somente o governo era ineficiente na entrega de cartas, mas era também ineficiente em todos os setores que sofriam algum tipo de intervenção dele. Os mesmos princípios econômicos se aplicam aos Correios e ao Registro de Patentes. É claro, isso não era radicalismo pelo radicalismo, era simplesmente o produto de minhas análises. Se você aplicar os princípios econômicos de forma consistente em todos os setores, o que sobra é uma perspectiva sombria quanto à instituição ‘governo’. Até aí, todavia, não tinha me tornado um anarquista.

Eu acreditava firmemente no minarquismo. Os mercados poderiam lidar com tudo, exceto alguns serviços-chave: a justiça, o exército e a polícia. É claro, isso seria considerado um governo extremamente limitado frente aos padrões atuais.

Meu primeiro contato com um anarquista ocorreu, ironicamente, no gabinete de Ron Paul. Tive a oportunidade de ser estagiário em seu gabinete por um semestre, e um dos seus colabores se considerava um anarquista. Ele era um cara bacana, mas eu não levei as suas ideias muito a sério.

Mas isso mudou no verão de 2010. Tive a sorte de participar de uma conferência doMises Institute – uma organização pela qual tenho profunda admiração. A conferência foi chamada de Mises University, e teve  duração de uma semana, focando unicamente em economia austríaca. Eu me senti extasiado e esta acabou sendo uma das semanas mais intelectualmente estimulantes de minha vida. Eu estava rodeado das pessoas mais espertas que já tinha conhecido.

Algumas palestras sugeriram a possibilidade de uma sociedade totalmente sem estado – a ideia de que empreendedores privados poderiam oferecer todos os serviços atualmente nas mãos do governo – incluindo justiça, exércitos e segurança pública. Supostamente, pela mesma razão que não queremos que o governo monopolize a produção de calçados, nós não queremos que monopolizem o sistema judicial ou a defesa nacional. Eu ainda não estava convencido.

Na metade daquela semana, fui forçado a dar pequenos retoques às minhas crenças, e passei a me considerar um “secessionista” por alguns dias. Todavia, ainda não um anarquista. Eu concordava com algumas ideias centrais – que a tributação é fundamentalmente coerciva e, portanto, uma forma de roubo. Eu concordava que os mercados eram baseados em interações voluntárias e pacíficas, enquanto os governos eram necessariamente baseados em violência ou ameaças de violência; e concordava que, em um mundo perfeito, não necessitaríamos de nenhum tipo de coerção – as decisões voluntárias reinariam. Contudo, pensava, nós não vivemos em um mundo perfeito e, certamente, em algumas circunstâncias, grandes grupos de pessoas não se importariam com os “direitos” de um indivíduo. A não existência do estado parecia boa em teoria, mas na prática, as pessoas não respeitariam os direitos de propriedade de um anarquista solitário, declarando sua independência no meio de uma cidade.

Até que, numa das noites daquela semana, fui desafiado por outro estudante chamado Dan. Ele era um cara forte, ex-fuzileiro naval ou algo do gênero, e nós estávamos bebendo em um dos bares da cidade após as palestras daquele dia. (É claro, “beber no bar” na Mises University significava, na verdade, “falar alto sobre ideias de nerds num lugar público”. Eu me lembro de algumas pessoas dançando, mas a relação era de três (nerds) falando sobre história de política monetária para cada pessoa comum que lá estava).

Eu comentei a Dan sobre minha hesitação frente ao anarquismo, e ele disse que compreendia. “Mas”, ele disse, “permita-me fazer uma pergunta: se eu quiser optar por não utilizar os serviços governamentais, eu deveria ser capaz de fazê-lo?” É uma questão simples, mas eu não sabia como respondê-la. Eu queria dizer “é claro que você deveria ser capaz de optar por não utilizar os serviços governamentais! Se você não quiser pagar, você não precisa, mas então não poderá utilizá-los”. Mas, infelizmente, tal confissão seria equivalente a aceitar o anarquismo. Afinal, os serviços governamentais são, por definição, vinculados à tributação e você não pode optar por não pagar tributos: fazê-lo seria optar por não utilizar os serviços governamentais, o que é precisamente do que esses anarquistas estavam falando.

Por outro lado, eu não poderia dizer na cara dele que, sim, Dan nunca deveria ser capaz de optar por não utilizar os serviços governamentais. Eu teria que estar disposto a prendê-lo se ele tentasse. Mesmo se sua decisão de não utilizar os serviços fosse desfavorável – se fosse melhor para ele utilizar os serviços – eu não poderia justificar forçá-lo a pagar por algo que ele não quisesse. Então, fiquei perplexo. Eu não tinha uma boa resposta, e me recordo de ter respondido lentamente: “acho que sou um anarquista agora”.

Eu refleti sobre a questão por alguns meses, tentando justificar a existência de um governo involuntário. Eu li o livro Teoria do Caos de Bob Murphy, que tinha um capítulo dedicado à produção privada da lei. Minha lista de serviços governamentais necessários diminuiu. Então, tornei-me um anarquista retraído. Depois de ter feito o papel de advogado do diabo de mim mesmo – sendo um anarquista chato – eu não consegui encontrar um contra-argumento para as minhas críticas ao governo limitado.

Eu estava chocado. Eu não podia acreditar que tinha me afastado tanto de minha posição original. Eu pensava que anarquistas eram hooligans que quebravam janelas por diversão. Mas esse tipo de anarquismo tratava de propriedade privada e decooperação pacífica e voluntária. Eu vi as contradições e inconsistências do conservadorismo popular, e a única opção era abandoná-lo.

Ao final de 2010, eu saí do armário. Mas eu não sabia como identificar-me. “Anarquista” parecia muito dramático e polêmico. (Acredite ou não, as pessoas o ignoram tão logo o identificam como anarquista). Eu testei algumas denominações como “antiestatista”, mas recentemente me conformei com o que creio o mais apropriado: anarquista de mercado.

Você pode resumir o anarquismo de mercado de maneira sucinta: todos os serviços que são atualmente fornecidos por governos podem mais eficiente e eticamente providos por empreendedores. Sim, existem milhões de definições possíveis, mas esta é a que prefiro: não parece tão radical, não é?

Quatro anos se passaram, e minha convicção se fortaleceu. O poder explanatório do anarquismo de mercado não tem paralelo. A política finalmente faz sentido quando você deixa de lado o romantismo que cerca a instituição ‘governo’ e o patriotismo. Mas o que me surpreende é que a minha própria defesa do anarquismo mudou. Eu ainda sigo integralmente a teoria econômica austríaca, mas agora estou ainda mais convencido pelos argumentos éticos e filosóficos em prol do anarquismo. Para um anarquista, a questão é simples: a tributação é roubo. Roubo é imoral. Por esta razão, a tributação é imoral, o que condena o governo como imoral. Simples e profundo.

Ao me tornar anarquista, vi o absurdo e a ingenuidade inerentes à tentativa de controlar a vida de centenas de milhões de pessoas via planejamento central. Os problemas sociais que envolvem 300 milhões de pessoas não são resolúveis por um pequeno grupo forçando todos a agirem de determinada forma, ameaçando-os diariamente caso não consintam.

Em um nível filosófico, os defensores do governo têm dificuldades: o que exatamente é um governo? Após verificação, “governos” são somente abstrações grandiosas e perigosas; ele não tem uma realidade tangível. Nós vivemos em um mundo habitado por humanos – não “governos” ou “países”. Isso pode parecer absurdo – e não defenderei minha posição agora – mas pretendo falar disso no futuro.

A visão de mundo anarquista é radicalmente individualista, não porque vê as pessoas como tomadores de decisão isolados, mas porque o individualismo é a forma mais filosoficamente crítica de ver o mundo. Ela nos ajuda a evitar abstrações dramáticas e abre as portas do mundo do pensamento econômico. E, neste ponto, não há como voltar atrás; o anarquismo já faz do meu ser

Se alguém se sente intrigado por essa história, somente peço que reflita sobre o tópico de forma sincera. Mantenha suas objeções por quanto tempo puderes, e veja se suas crenças podem resistir à crítica dos argumentos dos anarquistas de mercado. Sugiro humildemente que você comece pela economia austríaca e veja até onde ela o levará. De minha parte, busquei as verdades políticas como um jovem conservador, e acredito que as encontrei no anarquismo de mercado.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Santos III.

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