A liberdade não precisa de reformistas libertários dentro do estado

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Por Daniel Sanchez

O estado, sendo essencialmente um inimigo parasita da fatia trabalhadora e produtiva da sociedade, estimula naturalmente o comportamento parasítico de seus membros.  No entanto, há situações — raras — em que o estado voluntariamente é obrigado a conter e até mesmo a reverter algumas de suas depredações.

Quando o estado voluntariamente limita seu parasitismo, as motivações desta contenção são quase que totalmente pragmáticas.  Os franceses rotularam esse pragmatismo de raison d’etat: quando algo é de vital importância para a sobrevivência do estado, abandona-se a ideologia e adota-se o mais puro pragmatismo para proteger a existência da máquina.

Ou seja, quando o estado — por algum motivo — voluntariamente se restringe e limita seu parasitismo sobre indivíduos produtivos, ele o faz visando ao seu próprio interesse, e não em decorrência de algum princípio ético ou de algum reconhecimento dos direitos desses indivíduos.

Em épocas normais, o estado irá depredar tanto quanto a opinião pública assim o permitir.  Por isso, quando o estado restringe suas depredações, ele o faz com o intuito de evitar uma resistência em massa da população, e também para manter a percepção de legitimidade junto ao público.  Exemplos práticos disso podem ser observados quando o estado anuncia a intenção de criar algum novo imposto ou alguma nova lei, e a população protesta em massa, obrigando-o a voltar atrás.

Políticos ou burocratas que porventura falem sobre “liberdade” ou “princípios”, e que de fato tomem medidas práticas para reduzir o escopo do estado, também estão apenas tentando manter a legitimidade do estado.  Suas atitudes não são expressões de uma genuína solidariedade para com as vítimas do estado.

Todo esse preâmbulo foi para dizer que não há necessidade de libertários íntegros e probos entrarem no estado e se corromper, ou tentarem modificar sua estrutura por meio do voto.  Se o objetivo é fazer o estado reverter sua marcha predatória, essas duas medidas serão praticamente inócuas.

Por isso, o que deve ser feito com urgência é uma alteração na percepção das pessoas quanto à eficiência e à legitimidade do estado.  Acima de tudo, as pessoas têm de ser educadas sobre economia.  Quando houver uma mudança ideológica que eleve o potencial de resistência do púbico a medidas econômicas insensatas e a ações invasivas do governo tanto no campo econômico quanto no social, e que intensifique a demanda do público por mais demandas libertárias, aí então os parasitas mais prudentes dentro do estado (ou que querem ser eleitos para geri-lo) certamente irão tomar a dianteira e implementar medidas que irão limitar o estado com o exato intuito de preservá-lo e protegê-lo.

Não há necessidade de libertários genuínos se apresentarem para preencher essa vaga e sujarem suas mãos.  E, ainda que tais libertários sejam bem-sucedidos no processo eleitoral, iniciar uma mudança dentro da máquina sem que a população esteja educada a esse respeito e esteja preparada para tais mudanças resultará em um retumbante fracasso.

Reformas liberalizantes não são feitas por “servidores públicos” dentro do estado que estão “defendendo a liberdade”.  Antes, reformas liberalizantes são uma manobra tática do próprio estado visando à sua auto-preservação; trata-se de um parasita que está pragmaticamente retirando um apêndice para não provocar, de maneira contraproducente, o hospedeiro.  A função dos libertários é induzir tais reformas, fazendo com que o hospedeiro se torne cada vez mais alérgico ao seu parasita.  E isso deve ser feito por meio de um contínuo esforço visando a uma mudança ideológica e estimulando a resistência potencial das pessoas produtivas.  Quando isso ocorrer, os estatistas mais prudentes irão se apresentar para conter os ímpetos daqueles estatistas imprudentes que estão dentro do estado.

Libertários sujando as mãos para reformar o estado não apenas é desnecessário, como também é muito perigoso.  Sempre há o risco de serem corrompidos e, com isso, sujarem em definitivo o movimento.

Como certa vez relatou Lew Rockwell:

Todos nós já vimos isso milhares de vezes.  Dificilmente são necessários mais do que alguns poucos meses para que um intelectual libertário que tenha ido para o governo “amadureça” e se dê conta de que seus ideais eram ‘muito pueris’ e ‘insuficientemente realistas’.  Um político prometendo tornar o governo mais manso e mais submisso rapidamente se torna um proeminente especialista em criar novas maneiras de tornar o estado mais eficiente no confisco da riqueza alheia.  Tão logo este fatídico passo é tomado, não há mais limites.  Conheço pessoalmente um burocrata americano que havia jurado fidelidade à filosofia libertária e, mais tarde, ajudou a implantar lei marcial no Iraque.

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