DEBATE: A ÉTICA NA INDÚSTRIA FARMACÊUTICA

por Fernando Alves

Andrey Adas*: Infelizmente muitas pessoas se ensandeceram com a afirmativa de que “a saúde não deve ser um direito” sem ao menos entender o porquê da mesma. Certamente entenderam-na como “as pessoas não devem ter acesso à saúde”, o que é justamente o oposto do que diz o texto, que propõe alternativas para um sistema que não está funcionando ao apresentar medidas que facilitariam o acesso à saúde privada, tornando, desta forma, as pessoas menos dependentes da saúde pública.

Considerar saúde um direito não faz com que as pessoas a tenham. Não se cria saúde na canetada. A saúde é criada em laboratórios de medicamentos; em fábricas de equipamentos médicos; em faculdades de medicina, enfermagem, farmácia e afins; em cursos técnicos; em hospitais onde também trabalham assistentes administrativos, faxineiros, cozinheiros e etc; em empresas de tecnologia de materiais; em empresas de software; enfim, em toda a complexa cadeia de empresas que fazem com que os serviços de saúde existam.

Se você é favorável à universalização do acesso à saúde, você deve defender medidas que facilitem o funcionamento de todas as atividades supracitadas. Para se fazer isso é preciso desonerar e desregulamentar. A saúde é um serviço cobiçado e, se o governo parar de atrapalhar tais atividades, a oferta de profissionais da saúde e equipamentos correlatos certamente aumentará, assim como a qualidade e a possibilidade de acesso à mesma.

Somente um mercado de saúde livre das amarras burocráticas do estado e de impostos será capaz de aumentar a oferta, a qualidade e reduzir seus preços. Isto faria, gradativamente, com que mais pessoas estivessem aptas a utilizar serviços privados, desafogando os serviços públicos e fomentando o empreendedorismo na área. Um governo que taxa pesadamente produtos e serviços de saúde, impõe restrições à oferta de vagas em faculdades e impõe impeditivas contribuições trabalhistas às empresas do setor está praticamente mandando seus cidadãos à merda. Isto não é atitude de quem deseja saúde à população.

A lógica utilizada por pessoas que priorizam a saúde pública em detrimento da saúde privada parece ser a seguinte: “Os serviços de saúde são fundamentais e devem ser fornecidos a todos. Logo, vamos deixá-los a cargo do governo.” E, como todos estamos carecas de saber, o governo é aquela entidade abstrata que representa o suprassumo da eficiência, não é mesmo? Não é preciso muito esforço para nos apercebermos do quão perfeitos e belos são os sistemas estatais de saúde, a começar pelo nosso glorioso SUS.
 

Menezes Machado: Uma questão para todos: O que impediria que um grande laboratório, que, por exemplo, fabricasse remédios para a AIDS, eventualmente descobrisse uma cura ou algo bem mais eficaz contra doença, e, propositalmente, decidisse não fabricá-la? Afinal é mais lucrativo ter os remédios que amenizam, porém não curam. O lucro não ficaria acima da vida humana?
 

Carlos Gustavo: O que o faz pensar que os governos, também compostos por pessoas auto-interessadas, não fabriquem problemas para justificar sua própria existência? Porque devemos pensar que na iniciativa privada reinaria o egoísmo e no governo reinaria o altruísmo? Você realmente acredita que as pessoas que conseguem acesso a cargos eletivos são essencialmente melhores em moral que aquelas que empreenderam para ter sucesso? Seria realmente a saída darmos cada vez mais poder a uns poucos políticos acreditando que eles não farão de tudo para manter e aumentar cada vez mais esse poder, ao invés de acreditarmos no poder da concorrência e da liberdade?

Gabriel Blum: Pode até ser que alguém inventasse a cura de uma doença e a escondesse, botando um remédio na praça. Não ia demorar aos COMPETIDORES — que também estão pesquisando a cura — observarem o fato e com base no remédio eles próprios criarem uma cura. A COMPETIÇÃO para ser o primeiro a CURAR a doença causaria a cura a ser posta no mercado. Ou você pode crer que todos os pesquisadores que dedicam 30 anos de vida e trabalho a uma descoberta dessas irão todos formar um complô e rir da nossa cara ao invés de se imortalizarem.
 

Vinicius Carvalho: Monopólio nunca é absoluto. Ainda que alguém descubra a cura, mas a esconda, outrem hão de descobrirem também, mais cedo ou mais tarde. E mesmo que não haja jeito de descobrir a cura, é por um motivo que existem espiões e assassinos.

Andrey Adas: Caro Menezes, há um ponto em sua reflexão que faz toda a diferença. Você diz que a suposta cura seria criada por um laboratório, porém, indivíduos criam inovações. Sua reflexão só seria válida se as pessoas que lucram com os medicamentos de AIDS fossem as mesmas que descobrissem a cura da mesma. Convenhamos. Isto é muito improvável, até porque não faria sentido para eles gastar tempo e dinheiro numa pesquisa do tipo.

Isto posto, vamos adiante. Um indivíduo (ou menos provavelmente um grupo) descobre a cura. Ele vai ter em suas mãos a chance de ficar bilionário e diminuir a lucratividade dos laboratórios que vendem os medicamentos para a AIDS. Suponhamos que estes laboratórios fiquem sabendo disso e tentem comprar dele este “direito” pela invenção. Seria inviável que o laboratório pague mais do que o que ele deixaria de ganhar caso a invenção fosse comercializada. Logo, se o inventor estiver em busca de lucro, ele preferirá ganhar dinheiro com a sua invenção do que receber um valor menor para não comercializá-la.

Vamos supor agora mais uma possiblidade. O inventor tem um contrato com algum laboratório dizendo que tudo o que ele inventa é de direito do laboratório. Novamente, se o inventor estiver motivado por lucro, ele terá uma forte tendência a tentar dar um jeito de passar esta valiosa invenção a outras pessoas, afinal, ele sabe que ela valeria bilhões. Por que ele iria guardar para si algo tão valioso?

Enfim, esta é a minha reflexão. Não acho nem um pouco plausível a possibilidade de algum laboratório conseguir esconder uma invenção tão valiosa, justamente por causa da motivação dos indivíduos ao lucro.
 

Otávio Maia: Não só concordo como deixo um mini documentário produzido pela Reason TV e traduzido pelo canal libertarianismo explicado exatamente o que aconteceu na Europa ate a chegada dos partidos sindicais ao poder criando um ambiente hostil a indústria farmacêutica. O que a fizeram-na correr para os EUA. Recomendo muito ver este vídeo que endossa tudo o que foi dito no post acima com um embasamento muito interessante, explicando sobre as ideias das inovações nesse setor e problemas burocráticos que um modelo estatal de saúde pode ocasionar. Vale cada minuto: https://m.youtube.com/watch?v=Pp-WzlkMi1c


 

[*] – Pseudônimo para “As contradições de Esquerda”. Página que promoveu o debate.

 

Fernando Alves é estudante de administração na Faculdade Pitágoras e colunista do portal Anarcocapitalismo. Escreve artigos sobre economia, política e sociedade para blogs e sites liberais/libertários.

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