O que os economistas neoclássicos têm em comum com o marxismo e com os socialistas utópicos

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Por Ludwig Von Mises

Todas as doutrinas que tentaram descobrir alguma tendência específica na sequência dos acontecimentos da história humana não conseguem concordar entre si, ao se referirem ao passado, a respeito de fatos estabelecidos historicamente.

E, sempre que elas tentaram prever o futuro, os eventos posteriores provaram-nas espetacularmente erradas.

A maioria destas doutrinas caracterizou-se pela referência a um estado de perfeição nas questões humanas.  Elas colocaram este estado perfeito ou no começo ou no fim da história, ou tanto em seu fim quanto em seu começo.

Consequentemente, para as doutrinas que diziam que o estado de perfeição vigorou no início da história, todos os acontecimentos posteriores eram uma manifestação de uma deterioração progressiva da humanidade.  Já para aquelas doutrinas que enfatizavam que o estado perfeito ocorrerá no fim da história, todos os acontecimentos indicavam, a seu modo, uma melhoria progressiva da humanidade.  Já para as doutrinas que diziam que o estado perfeito vigorou no início e vigorará no fim, todos os acontecimentos nada mais são do que um período de deterioração progressiva seguido por um de melhoria progressiva.

Em algumas destas doutrinas, a ideia de um estado perfeito estava arraigada em dogmas e crenças religiosas. No entanto, não cabe à ciência laica fazer uma análise dos aspectos teológicos desta questão.

O que deve ser ressaltado, por sua obviedade, é que, em um estado perfeito das interações humanas, não pode existir história. A história é o registro das mudanças. O próprio conceito de perfeição, no entanto, implica a ausência de qualquer mudança, já que um estado perfeito só pode ser transformado em um estado menos perfeito, isto é, só pode ser prejudicado por qualquer alteração.

Quando alguém situa o estado de perfeição apenas neste suposto início da história, está afirmando que a era da história foi precedida por uma era na qual não havia história, e que, um dia, alguns acontecimentos perturbaram a perfeição desta era original, inaugurando assim a era da história. Por outro lado, ao se presumir que a história tende à realização de um estado perfeito, se está afirmando que a história chegará, um dia, ao seu fim.

É da natureza humana se esforçar incessantemente para substituir condições menos satisfatórias por condições mais satisfatórias. Esta motivação estimula as energias mentais e instiga o homem a agir. A vida em uma estrutura perfeita reduziria o homem a uma existência meramente vegetativa.

A história não se iniciou com uma Era de Ouro. As condições em que o homem primitivo vivia parecem bastante insatisfatórias para os observadores de épocas posteriores. Ele estava cercado por inúmeros perigos, que, para o homem civilizado, não mais representam uma ameaça — ou pelo menos não na mesma escala. Comparado a gerações posteriores, ele era extremamente pobre e bárbaro. Teria ficado exultante caso tivesse a oportunidade de aproveitar qualquer uma das conquistas de nossos tempos, como, por exemplo, os métodos farmacêuticos para tratar de ferimentos.

A humanidade tampouco poderá alcançar algum dia um estado de perfeição. A ideia de que um estado de indiferença e de falta de propósitos é, além de desejável, a condição mais feliz que a humanidade poderá alcançar é um delírio que, não obstante, permeia a literatura utópica. Os autores destes projetos descrevem uma sociedade na qual nenhuma alteração será necessária, pois tudo já atingiu a melhor forma possível.

Na Utopia não haverá mais motivo para a busca por melhorias, pois tudo já será perfeito. A partir deste ponto, todas as pessoas serão inteiramente felizes.

Karl Marx e os socialistas utópicos

Neste sentido, Karl Marx também deve ser descrito como utópico.  Ele também tinha como meta um arranjo social no qual a história teria seu curso interrompido.  No esquema de Marx, toda a história é a história das lutas de classe. Uma vez que as classes e luta de classes fossem abolidas, a história já não mais poderia existir.

É verdade que o Manifesto Comunista apenas declara que a história de toda a sociedade que existiu até então — ou, como Engels acrescentou posteriormente, com maior precisão, a história após a dissolução da era de ouro do comunismo primevo — é a história das lutas de classe e, logo, não exclui a interpretação de que após o estabelecimento do milênio socialista algum novo conteúdo histórico possa surgir.

Mas os outros escritos de Marx, Engels e seus discípulos não dão qualquer indicação de que um novo tipo de mudança histórica, de natureza radicalmente diferente daqueles das eras anteriores de lutas de classes, poderia vir a surgir. Quais outras mudanças podem ser esperadas, uma vez que a fase mais elevada do comunismo, na qual todos conseguem tudo aquilo de que precisam, foi atingida?

A distinção que Marx fez entre o seu próprio socialismo “científico” e os projetos socialistas dos autores que o antecederam, a quem ele chamou de utópicos, não se referia apenas à natureza e à organização da comunidade socialista, mas também à maneira em que essa comunidade deveria entrar em existência. Aqueles que Marx desacreditou como utopistas construíram o projeto de um paraíso socialista, e tentaram convencer as pessoas de que a sua realização é altamente desejável.

Marx rejeitou este procedimento. Ele alegou ter descoberto a lei de evolução histórica segundo a qual a vinda do socialismo era inevitável.  Ele viu as falhas e inconsistências dos socialistas utópicos — seu caráter utopista — no fato de que esperavam que o socialismo viria a partir da vontade do povo, isto é, de sua ação consciente, ao passo que seu próprio socialismo científico afirmava que o socialismo viria, independentemente da vontade dos homens, da evolução das forças materiais produtivas.

Mas nunca ocorreu a estes autores que aqueles que eles tanto queriam beneficiar por meio de revoluções pudessem ter opiniões diferentes acerca do que lhes é desejável e o que não é.

A utopia de hoje

Uma nova e sofisticada versão da imagem da sociedade perfeita surgiu recentemente a partir de uma interpretação crassa do funcionamento da economia de mercado.

Para lidar com os efeitos gerados por mudanças contínuas no “equilíbrio de mercado” — os esforços para ajustar a produção a estas mudanças, e as alterações nos lucros e nos prejuízos —, o economista tradicional cria um modelo econômico teórico em que há um estado de coisas hipotético, totalmente inalcançável e impraticável, no qual a produção está sempre ajustada aos desejos realizáveis dos consumidores e nenhuma outra mudança ocorre.

[N. do E.: Mises está se referindo à economia neoclássica e aos seus modelos de equilíbrio estático ou estado estacionário, justamente aqueles ensinados hoje na esmagadora maioria das universidades.

Neste modelo, as informações do mercado são objetivas e conhecidas por todos (em termos probabilísticos ou exatos).  Não há a figura do empreendedor.  Não há um investimento bom e um investimento ruim de capital; é tudo apenas capital e tudo é homogêneo.

Ignora-se o fato de que cada ser humano possui uma capacidade criativa ímpar e específica, a qual o permite continuamente perceber e descobrir novas oportunidades de lucro.  Todas as informações são conhecidas e nada se altera; tudo é estático.

O empreendedorismo consiste na capacidade tipicamente humana de criar e descobrir novos meios e fins, e é a mais importante característica da natureza humana.  E isso é ignorado pela economia neoclássica.

E os economistas atuais se baseiam exatamente nesta versão utópica para fazer suas políticas econômicas.]

Neste mundo imaginário, o amanhã não é diferente do hoje, nenhum desajuste pode surgir, e não há a necessidade de qualquer ação empresarial. A conduta dos negócios não exige qualquer iniciativa; ela é um processo automático executado inconscientemente por autômatos impelidos por instintos misteriosos. Para economistas (e, também, para leigos discutindo questões econômicas), não existe outra maneira de conceber o que está acontecendo no mundo real, em constante alteração, do que contrastá-lo desta maneira com um mundo fictício de estabilidade e ausência de mudanças.

Em uma metáfora emprestada da teoria da mecânica, os economistas matemáticos chamam a economia uniformemente circular de estado estático, rotulam as condições que nela predominam de equilíbrio, e classificam qualquer desvio deste equilíbrio de desequilíbrio.

Esta forma de expressar sugere que há algo de incorreto no próprio fato de que sempre há desequilíbrio na economia real, e que o estado de equilíbrio nunca ocorre de fato. O estado hipotético meramente imaginado do equilíbrio imperturbado é retratado como o estado mais desejável da realidade.

Neste sentido, alguns autores chamam a concorrência, tal como prevalece na economia mutável, de concorrência imperfeita [N. do E.: sendo que a concorrência perfeita é outro delírio neoclássico].

A verdade é que a concorrência só pode existir em uma economia mutável. Sua função é exatamente eliminar o desequilíbrio e gerar uma tendência em direção à obtenção do equilíbrio. Não pode existir concorrência em um estado de equilíbrio estático porque neste estado não existe um ponto no qual um concorrente pode interferir de modo a executar algo que satisfaça mais os consumidores do que o que já é feito.

A própria definição de equilíbrio implica que não existe qualquer desajuste no sistema econômico, e, consequentemente, não há a necessidade de se tomar qualquer atitude para acabar com estes desajustes, de qualquer atividade empresarial, de lucros e prejuízos empresariais.

É precisamente esta ausência de lucros que faz com que os economistas matemáticos considerem o estado do equilíbrio inalterado um estado ideal, pois são influenciados pelo preconceito de que os empresários seriam parasitas inúteis, e o lucro, um ganho injusto.

Neste estado de equilíbrio, o homem não é impelido a qualquer ação, pois uma ação pressupõe a sensação de algum tipo de desconforto, já que sua única meta é a remoção do desconforto.

A analogia com o estado de perfeição é óbvia. O indivíduo plenamente satisfeito não tem propósito, não age, não tem incentivo para pensar, passa seus dias gozando tranquilamente a vida. Se essa existência digna de um conto de fadas é ou não algo desejável está ainda para ser determinado. O que é certo é que os homens de carne e osso jamais podem obter este estado de perfeição e equilíbrio.

E não é menos certo que, após sofrerem com as agruras das imperfeições da vida real, as pessoas sonharão com esta realização plena de todos os seus desejos. Isto explica as origens deste elogio emocional ao equilíbrio e a condenação ao desequilíbrio.

O único serviço a que este constructo imaginário se presta é provocar um grande alívio à busca incessante dos homens que vivem e agem pela maior melhoria possível de suas condições. Para o observador científico imparcial não há nada de questionável em sua descrição do desequilíbrio. É apenas o zelo pró-socialista apaixonado dos pseudo-economistas matemáticos que transforma uma ferramenta puramente analítica da economia lógica em uma imagem utópica de um estado das coisas bom e desejável.

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