Doutrinalmente educados, culturalmente obedientes

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Por Sarah Sales

A formação etimológica da palavra cultura diz muito sobre as razões pelas quais o estado deposita nela tanto interesse. Cultura do latim Culturae se refere à “ação de tratar”, “cultivar”, “cultivar a mente e os conhecimentos”. Para o antropologista cultural Geertz a cultura é: “Padrão de significados transmitido historicamente, incorporado em símbolos, um sistema de concepções expressas em formas simbólicas por meio das quais os homens se comunicam, perpetuam e desenvolvem seu conhecimento em relação à vida”, responsável por dar continuidade a cada grupo, costume e ideal humano, demonstrando traços universais e peculiaridades de cada nação. Para o antropólogo cultural Herskovits, “A Cultura é direcionada pelo contorno que lhe confere a crença básica que une homens em uma nação”. Seguindo todos estes contextos, cultura é a forma como o homem se coloca no mundo, colocação esta que depende do processo de endoculturação (processo permanente de aprendizagem de uma cultura que se inicia com assimilação de valores e experiências a partir do nascimento de um indivíduo e que se completa com a morte).

Embora por toda a vida, o processo de endoculturação tende a ser mais proeminente durante a infância, onde a criança inclina-se a ser moldada pelo ambiente em que se enquadra, por não conseguir modular o ambiente e a organização social de sua interação. Estudos psicológicos apontaram que até mesmo brincadeiras e interações simples podem ser capazes de influenciar nas percepções do processo de observação e assimilação, enquanto diferenças nas tradições acadêmicas podem influenciar nos comportamentos voltados para o individualismo x coletivismo.  A psicologia frequentemente defende a necessidade de uma exposição pura ao conteúdo apresentado às crianças, para que elas possam ser capazes de decidir de forma íntegra sobre o que acreditar, considerando que tudo aprendido por uma pessoa na infância poderá ser usado como base para seus julgamentos e percepções futuras.

Se o fator de percepção é moldado durante a infância, dificilmente a criança tornar-se-á um adulto com percepções próprias baseadas no que ele realmente acredita e sim no que lhe foi manipulado enquanto criança.

Evidentemente a prática de uma exposição pura sobre a assimilação de valores e fatores sociais, não é respeitada pelo estado.  O investimento em educação vem sido pesadamente revestido em doutrinação escolar com base na hegemonia partidária precária que o Brasil tem enfrentado nos últimos anos.  Enquanto as pessoas enxergam a educação escolar como evidências da boa vontade e preocupação do estado com o cidadão, o estado fundamenta de forma branda seu real objetivo: enraizar sua importância e programa eleitoral na mente das crianças que se tornarão adultos inofensivos, pouco questionadores quanto ao papel e ações do governo. Uma população educadamente manipulada torna-se menos resistente à opressão, fator este que acontece porque o ato de influenciar de forma ideológica a percepção de uma criança faz com que enquanto adulto suas capacidades de consentimento (ato de conceder ou não aprovação) desapareçam. O crítico e jornalista H.L. Mencken deixou isso muito claro quando certa fez parafraseou: “O estado não quer apenas que você obedeça às suas ordens inquestionavelmente. O estado quer fazer com que você queira obedecê-lo voluntariamente”. A educação é capaz de fazer com que um indivíduo obedeça voluntariamente. A partir do momento em que se programa um ideal na mente de uma pessoa, ela passa a até mesmo emprestar suas capacidades de escolha em prol da realização daquele ideal, pensando ser para um “bem maior” ou um “bem comum”.

A partir do momento em que o ser começa a perceber os aspectos culturais em sua volta e aprende-lo de forma tendenciosa, há um aumento da homogeneização dos pensamentos, que ocasionalmente impede uma possível evolução de ideias.  Estudos apontam que ao sair do ensino médio, 89% dos alunos não conseguem dominar o necessário em matemática, mais de 50% sentem grande dificuldade em português e de um modo quase geral os alunos consideram disciplinas como história e sociologia de nível baixo ou zero de dificuldade. É intuitivo pensar que ciências exatas (inclui-se a linguagem) produzam maior consenso em seus resultados, enquanto ciências humanas (muitas vezes ligadas à percepção do ser) deveriam causar uma margem ampla para maiores discussões. Ao contrário, o que encontramos nas escolas é uma falta de consenso em disciplinas exatas e grande consenso em disciplinas humanas. Os alunos sentem maior dificuldade em encontrar soluções para problemas matemáticos que possuem uma resposta única, mas respondem de forma quase automática e homogênea questões relacionadas ás suas sapiências. A partir do momento em que, de maneira quase geral as percepções ligadas ao ser são as mesmas e não causam discussões entre diferentes tipos de pessoas, percebemos o grande poder controlador e espoliador que através da educação o estado vem exercendo de modo muito sutil, mas eficiente.

Quanto mais distante o aspecto cultural se mantém do plano educacional, maiores são as chances de se obter uma educação autônoma, livre de ideologias – ameaça a qualquer governo que incansavelmente luta contra ela -.  A partir do momento em que o estado diz “sim” para uma educação autônoma, ele diria “sim” para a perda do controle da mente de seu povo, ele diria “sim” para o fim dos pressupostos que asseguram sua própria sobrevivência e é por isso que ele continua dizendo “não”. Lutando para obter uma educação cada vez mais padronizada e uma cultura cada vez mais distante do verdadeiro “cultivo ao conhecimento”.

A partir do momento em que o estado assumiu o monopólio da educação, pessoas aprenderam a vê-lo como fornecedor do bem comum, protetor contra desastres, fornecedor do bem estar social, intensificando cada vez mais a percepção pessoal da necessidade de um estado paternalista. É por isso que é tão difícil convencer pessoas do contrário, toda uma percepção treinada durante anos para pensar dessa forma não é facilmente desconstruída, mas é possível. A essas pessoas, muitas vezes não foram apresentadas novas ideias, novos conceitos e muitas nem mesmo sabem que estes existem.  Por isso, fundamente-se com ideias novas e saiba apresenta-las, quebre a concepção comum! Parafraseando Étienne de la Boétie: Todo e qualquer governo depende do consentimento das pessoas; tão logo o público retirar seu consentimento, qualquer regime estará condenado

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