A descentralização chegou: qualquer um pode ser empreendedor sem ter de pedir autorização ao estado

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Por Jeffrey Tucker

E se cada indivíduo deste planeta, independentemente de sua classe social, idioma ou nacionalidade, pudesse abrir uma loja de comércio varejista cujos produtos estejam disponíveis para todos?

Ainda mais importante: e se ele pudesse fazer isso sem ter de pedir permissão para nenhum burocrata?  Para completar: e se não houvesse nenhum obstáculo artificialmente criado pelo estado no caminho dessa pessoa?

Isso não era possível há 12 meses.  Mas hoje já é.

E se esse empreendimento pudesse ofertar bens e serviços em troca de pagamentos oriundos de qualquer parte do mundo, mas sem ter de recorrer a bancos, a qualquer sistema de pagamento convencional, ou a qualquer outro intermediário financeiro?

Isso não era possível antes da invenção das criptomoedas, mas hoje já é.

E se esse empreendimento fosse tão descentralizado, que nenhum governo no mundo pudesse fechá-lo?

Ninguém poderia imaginar isso há uma década, mas já é a realidade hoje.

A tecnologia que tornou tudo isso possível não é nenhum site de internet, mas sim um aplicativo que qualquer pessoa pode baixar gratuitamente.  Foi lançado recentemente e já está sendo utilizado por milhares de pessoas ao redor do mundo.

Ele se chama OpenBazaar e seu endereço é OpenBazaar.org.

Seu slogan é “Livre mercado para todos. Sem taxas. Sem restrições.”

Como dito, qualquer pessoa pode baixar o aplicativo, fazer compras e montar seu próprio empreendimento, sem taxas, sem ter de recorrer a extensões, sem ter de instalar recursos adicionais (os famigerados plugins) e sem ser submetido a nenhuma outra exigência irritante.  O sistema de pagamento é a moeda digital internacional, o Bitcoin, que não depende de nenhum sistema financeiro e monetário nacional.

A plataforma do OpenBazaar, assim como a plataforma do Bitcoin, não possui um ponto central de falha, de modo que é impossível ele ser perseguido, fechado e destruído pelos governos.

A plataforma opera sob o sistema peer-to-peer (arquitetura de redes de computadores em que cada um dos pontos ou nós da rede funciona tanto como cliente quanto como servidor, permitindo compartilhamentos de serviços e dados sem a necessidade de um servidor central), de modo que não é necessário pedir nenhuma permissão para terceiros.

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E aí surge a pergunta: se não há uma supervisão central, como é que o comprador e o vendedor poderão se certificar de que a outra parte cumpriu o combinado?  Como pode o comprador ter a garantia de que o vendedor não irá simplesmente pegar o dinheiro e sumiu?  Como pode o vendedor saber se o comprador realmente pagou pela mercadoria que já foi enviada?

A plataforma utiliza outra inovação, que foi criada há apenas alguns anos: ela se chama multisig ou multi-assinatura.

O OpenBazaar explica:

Se ambos concordam com um preço, então o cliente cria um contrato entre vocês dois com a sua assinatura digital, e envia esse contrato para um terceiro, que será o moderador.  Esses moderadores também são pessoas que utilizam a rede do OpenBazaar — pode ser tanto o seu vizinho quanto uma pessoa do outro lado do planeta —, nas quais o comprador e o vendedor confiam caso algo dê errado.  Esse moderador visualiza o contrato e cria uma conta multisig para a qual o Bitcoin deve ser enviado.  Essa conta requer que duas de três pessoas dêem o seu ciente para que o Bitcoin possa ser liberado.

O comprador então envia a quantia mutuamente acordada para o endereço multisig.  Você recebe uma notificação dizendo que comprador enviou os fundos para o endereço, e então você envia a mercadoria e notifica que ela foi enviada.  O comprador a recebe alguns dias depois e notifica que a recebeu.  Isso irá liberar os fundos do endereço multisig para você.  Você recebeu seus Bitcoins e o comprador recebeu a mercadoria.  Nenhuma taxa foi cobrada, ninguém impediu a sua transação comercial.  Todos estão satisfeitos.

Para que tal invenção fosse possível, era necessário antes de tudo existir o Bitcoin, o qual surgiu em 2009 como resposta à urgente necessidade de se ter uma moeda que pudesse ser transacionada pela internet, que operasse fora das fronteiras determinadas pelos governos e que não fosse controlada por nenhum Banco Central.  A própria invenção do Bitcoin baseou-se nas inovações ocorridas nos sistemas de processamento distribuído, na criptografia, e em registros contábeis (armazenados nas nuvens) que mantêm um registro histórico de quem é dono de quê.  (Veja um resumo aqui).

Com o surgimento agora do OpenBazaar, podemos testemunhar mais um tijolo sendo colocado na construção de uma infraestrutura comercial globalmente aberta, expansível para toda a população humana e que funciona fora das estrutura legais de qualquer país.  Trata-se de uma tremenda dádiva criada pela genialidade humana e um inequívoco sinal auspicioso quanto às perspectivas para a nossa liberdade.

Tijolo por tijolo

E, no entanto, cada inovação depende de várias inovações anteriores.  E é por isso que ninguém deveria se esquecer do que realmente deu impulso a essa conquista.  O Silk Road (fevereiro de 2011 a outubro de 2014) foi o primeiro e mais famoso mercado digital a aceitar o Bitcoin.  Ele foi fechado pelo governo americano porque havia se tornado um meio para a distribuição de produtos como a maconha, que hoje já se tornou lícita em vários locais.  Por estar à frente do seu tempo, o fundador e criador Ross Ulbricht foi condenado a nada menos que duas sentenças de prisão perpétua.

A inovação varejista de Ross inspirou outros a verem o extraordinário potencial da ideia.  O Silk Road errou exatamente em ser muito centralizado.  Tão logo o FBI descobriu seu administrador, os burocratas o capturaram com a janela do admin aberta, e com isso conseguiram acesso a todos os dados.

Isso não é possível de acontecer com o OpenBazaar, pois a própria plataforma é literalmente distribuída por todo o mundo; e, assim como o Bitcoin, que se comporta como uma hidra, a plataforma do OpenBazaar se aproveita da ordem espontânea e sem fronteiras do espaço digital de uma maneira que maximiza a liberdade humana.

Sempre que falamos sobre essas inovações, é difícil resistir à tentação de falar em detalhes sobre essa extraordinária tecnologia.  Porém, em última instância, não estamos realmente falando de tecnologia; não estamos realmente falando de criptografia, redes distribuídas, sistemas de pagamento multisig e afins; estamos, isso sim, falando da incessante busca de cada ser humano por sua autonomia universal, livre de amarras artificiais criadas por burocratas.  É realmente disso que estamos falando.

Tenho em mente uma mulher simples em Moçambique, desesperadoramente pobre, mas com um grande talento para a costura.  Talvez ela seja boa em fazer belas gravatas-borboletas artesanais.  Ela possui um smartphone com acesso à internet, cujo custo muito provavelmente chega a um quarto da sua renda.  Com essa rede, ela pode alcançar todo o planeta com seu produto, e até mesmo construir um grande negócio.  Com o desenvolvimento e difusão do Bitcoin, ela pode auferir uma renda que irá se tornar um capital a ser investido na expansão de seu empreendimento, o qual poderá agora se tornar muito próspero, com uma clientela literalmente global.

Não foram as ajudas estrangeiras ou os governos que fizeram isso. Foi o poder do empreendedorismo na era digital.  Graças a tecnologias como o OpenBazaar, nosso longo prazo está mais promissor.

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