A divisão do trabalho nos aliena?

Por Sarah Skwire

A divisão do trabalho é, provavelmente, a invenção humana que mais me encanta.

Adam Smith estava preocupado que toda essa especialização nos emburrece.

Na semana passada, cortei a grama, limpei a casa, removi o ninho de abelha de minha varanda e capinei as ervas daninhas de meu quintal.

Fiz tudo isso enquanto estava na Califórnia, aproximadamente 3200 km de distância de minha casa.

E isso só foi possível graças à divisão do trabalho

Com frequência, quando ensinamos ou pensamos sobre a divisão do trabalho, pensamos no exemplo clássico de Smith em A Riqueza das Nações: a divisão do trabalho em uma fábrica de alfinetes.

Entretanto, da forma como essa atividade é hoje executada, não somente o trabalho todo constitui uma indústria específica, mas ele está dividido em uma série de setores, dos quais, por sua vez, a maior parte também constitui provavelmente um ofício especial. Um operário desenrola o arame, outro o endireita, um terceiro o corta, um quarto faz as pontas, um quinto o afia nas pontas para a colocação da cabeça do alfinete; para fazer uma cabeça de alfinete requerem-se 3 ou 4 operações diferentes; montar a cabeça já é uma atividade diferente, e alvejar os alfinetes é outra; a própria embalagem dos alfinetes também constitui uma atividade independente. Assim, a importante atividade de fabricar um alfinete está dividida em aproximadamente 18 operações distintas, as quais, em algumas manufaturas são executadas por pessoas diferentes.

O foco de Smith em sua discussão da divisão de trabalho é a forma pela qual o aumento da especialização maximiza a produtividade dentro de uma indústria. A divisão de tarefas envolvida na produção de alfinetes significa que mais alfinetes podem ser produzidos de forma mais rápida e, frequentemente, com melhor qualidade, do que se nos dedicássemos à produção individual de alfinetes artesanais.

Por conseguinte, essas 10 pessoas conseguiam produzir entre elas mais do que 48 mil alfinetes por dia. Assim, já que cada pessoa conseguia fazer 1/10 de 48 mil alfinetes por dia, pode-se considerar que cada uma produzia 4 800 alfinetes diariamente. Se, porém, tivessem trabalhado independentemente um do outro, e sem que nenhum deles tivesse sido treinado para esse ramo de atividade, certamente cada um deles não teria conseguido fabricar 20 alfinetes por dia, e talvez nem mesmo 1, ou seja: com certeza não conseguiria produzir a 240ª parte, e talvez nem mesmo a 4 800ª parte daquilo que hoje são capazes de produzir, em virtude de uma adequada divisão do trabalho e combinação de suas diferentes operações.

Isso é realmente importante, e um passo crucial em nosso entendimento de como a manufatura e a produção funcionam. Ninguém pode analisar a Revolução Industrial ou as linhas de produção de Henry Ford e não constatar os enormes aumentos de produtividade que são consequência da divisão do trabalho.

Mas Smith também estava preocupado que todo esse aumento de especialização – essa divisão de tarefas em suas menores operaçõesnos emburreceria. Alguém cuja tarefa costumava ser produzir alfinetes se torna uma pessoa cujo trabalho é endireitar ou cortar arames. Essa é um importante declínio nas demandas intelectuais de uma ocupação. Se a divisão do trabalho significa que não precisamos mais realizar uma ampla gama de tarefas diferentes como parte de nosso trabalho, não nos emburreceria?

É uma boa pergunta. Smith não estava errado em fazê-la. E o crescimento dos empregos na indústria artesanal, e depois nas fábricas nos séculos XVIII e XIX, parece ter, de alguma forma, justificado suas preocupações. Esses empregos, tomados individualmente, não eram conhecidos por serem intelectualmente desafiadores. A cultura estava prestes a nos emburrecer?

Alfred North Whitehead respondeu às preocupações de Smith quando disse “a civilização avança ao aumentar o número de operações importantes que podemos executar sem pensar”. O comentário de Whitehead afirma que o aumento da automação que vem com a civilização (máquinas de lavar roupa, máquinas de lavar louças, carros sem motoristas, e assim por diante) nos livra de tarefas tediosas e, assim, nos torna mais civilizados. Eu sou uma grande fã desse argumento (veja, por exemplo). Contudo, tenho um problema com ele: ao ver minha varanda sem abelhas é que a ênfase em ser capaz de “fazer serviços sem pensar” parece corroborar as preocupações de Smith sobre a divisão de trabalho nos emburrecer.

E não estou convencida de que seja isso que a divisão do trabalho proporciona.

Eu acho que deveríamos começar a tratar a divisão do trabalho não como um estreitamento do que podemos fazer, mas como uma ampliação do que nós não temos que fazer.

O que eu quero dizer?

A divisão do trabalho e a especialização crescente da vida moderna significam que quando eu preciso da grana cortada, eu chamo um jardineiro. Quando eu tenho que limpar a casa, eu chamo uma empresa de serviços de limpeza. Quando eu preciso remover o ninho de abelhas, eu não entro em pânico: tomo um drink e chamo um serviço de remoção de insetos. Antes da especialização, eu teria tido que ser meu próprio jardineiro, minha própria faxineira, e minha própria removedora de insetos. E pela minha experiência quando não tinha dinheiro para contratá-los, eu teria que aguentar grama alta, casa bagunçada e uma varanda tomada por abelhas.

A divisão do trabalho significa que nada daquilo é verdade. O mundo está cheio de pessoas que podem fazer por mim as coisas que eu faço mal, enquanto eu me concentro em fazer as coisas que faço bem. Tudo que preciso é pagá-las um valor X pelo serviço, e eles virão rapidamente e farão as suas coisas bem.

É como mágica.

A divisão do trabalho significa que eu posso fazer as coisas que quero e gosto de fazer – como preparar geleias, ler para meus filhos, cultivar uma horta, escrever colunas para o site da FEE, palestrar sobre economia e literatura e trabalhar noLiberty Fund – e evitar coisas que não quero fazer, como limpar o banheiro e matar insetos.

Eu tenho falado sobre a forma como terceirizamos serviços que não queremos fazer, principalmente porque aquele ninho de abelhas ainda me dá arrepios. Contudo, todas as vezes que compro meias para minhas filhas, a divisão de trabalho está me poupando de ter que tricotar todo par de meias que uso. Eu posso usar aquele tempo e esforço para tricotar um blusão (que é mais divertido do que tricotar meias) ou praticar artes marciais ou qualquer outra coisa que queira fazer. O tempo e esforço que eu teria sido forçada a conceder a coisas que odeio e faço mal pode agora ser gasto em aperfeiçoamento nas atividades que faço bem.

E a divisão do trabalho funciona ao longo de todo o processo. Qualquer pessoa que não produz tudo por conta própria está se beneficiando do poder da divisão do trabalho. A criança que corta minha grama não tem que preparar sua própria pizzaporque ele se especializa (por um momento) em cortar grama. Minha empregada não tem que consertar seu próprio carro porque ela se especializa em algo que mais lhe interessa – tornar as casas dos outros mais limpas e organizadas. A divisão do trabalho, no final das contas, melhora a vida de todos.

E nada disso nos emburrece, permitindo, que gastemos nosso tempo e energia com o que preferirmos. Ela nos torna mais livres.

// Tradução de Matheus Pacini. Revisão de Ivanildo Santos Terceiro.

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