Você odeia o estado?

Por Murray N Rothbard

Ultimamente tenho pensado sobre quais são as questões cruciais que dividem os libertários. Algumas que têm recebido muita atenção nos últimos anos são: o anarcocapitalismo vs. o governo limitado, o abolicionismo vs. gradualismo, direitos naturais vs. utilitarismo, e a guerra vs. a paz. Mas cheguei à conclusão de que, por mais importante que sejam estas questões, elas realmente não vão ao cerne da questão, a linha divisória crucial entre nós.

Tomemos, por exemplo, dois dos principais trabalhos anarcocapitalistas dos últimos anos: o meu “Por Uma Nova Liberdade: O Manifesto Libertário” e “As Engrenagens da Liberdade” de David Friedman. Superficialmente, as principais diferenças entre eles são a minha adesão ao jusnaturalismo e a um código de lei libertária racional, em contraste com o utilitarismo amoralista de Friedman que clama para troca de favores políticos e trade-offs entre agências policiais privadas não-libertárias. Mas a diferença realmente é mais profunda. Ao longo do “Por Uma Nova Liberdade: O Manifesto Libertário” (e da maior parte do resto do meu trabalho também) vê-se um ódio profundo e penetrante ao estado e a todas as suas obras, com base na convicção de que o estado é o inimigo da humanidade. Por outro lado, é evidente que David não odeia o estado de forma alguma; ele apenas chegou à convicção de que o anarquismo e forças policiais privadas concorrentes são um melhor sistema social e econômico do que qualquer alternativa. Ou, mais elaboradamente, que o anarquismo seria melhor do que o laissez-faire que por sua vez é melhor do que o sistema atual. Em meio a todo o espectro de alternativas políticas, David Friedman decidiu que o anarcocapitalismo é superior. Mas superior a uma estrutura política existente que é muito boa também. Em suma, não há nenhum sinal de que David Friedman em qualquer sentido odeie o estado americano existente ou o estado per se, que o odeie profundamente em seu interior como a uma gangue de ladrões predatória, escravizadores, e homicidas. Não, existe simplesmente uma convicção de que o anarquismo seria o melhor de todos os mundos possíveis, mas que a nossa atual situação não é tão distante dele em conveniência. Pois para Friedman não há sentido em dizer que o estado – qualquer estado – é uma gangue criminosa e predatória.

A mesma impressão se vê nos escritos, por exemplo, do filósofo político Eric Mack. Mack é um anarcocapitalista que acredita em direitos individuais; mas não há nenhum indício em seus escritos de qualquer ódio passional ao estado, ou, a fortiori, qualquer acusação de que o estado é uma besta fera inimiga e que vive de espólios.

Talvez a palavra que melhor defina a nossa distinção é “radical”. Radical no sentido de estar em total e completa oposição ao sistema político existente e ao próprio estado. Radical no sentido de ter integrado a oposição intelectual ao estado com um ódio corajoso a seu abrangente e organizado sistema de crime e de injustiça. Radical no sentido de um profundo compromisso com o espírito de liberdade e antiestatismo que integra a razão, a emoção, o coração e a alma.

Além disso, em contraste com o que parece ser verdade hoje em dia, você não tem que ser um anarquista para ser um radical em nosso sentido, assim como você pode ser um anarquista mesmo faltando a centelha radical. Não consigo pensar em um único governista limitado dos dias de hoje que é radical – um fenômeno verdadeiramente surpreendente, quando pensamos em nossos antepassados liberais clássicos que eram genuinamente radicais, que odiavam o estatismo e os estados de seus dias com uma paixão muito bem integrada: os Levellers, Patrick Henry, Tom Paine, Joseph Priestley, os jacksonianos, Richard Cobden, e assim por diante, uma votação nominal verdadeira dos grandes nomes do passado. O ódio radical de Tom Paine ao estado e ao estatismo foi e é muito mais importante para a causa da liberdade que o fato de que ele nunca cruzou a linha divisória entre laissez-faire e anarquismo.

E mais perto de nossos dias, as minhas primeiras influências, como Albert Jay Nock, H. L. Mencken e Frank Chodorov, foram magnificamente e soberbamente radicais. O ódio ao “Nosso Inimigo, o Estado” (título de um livro de Nock) e todas as suas obras brilhou através de todos os seus escritos como uma estrela farol. E daí se eles nunca fizeram bem todo o caminho para o anarquismo explícito? Muito melhor um Albert Nock do que uma centena de anarcocapitalistas que estão todos muito confortáveis com o status quo existente.

Onde estão os Paines e Cobdens e Nocks de hoje? Por que quase todos os nossos governistas de laissez-faire limitado são conservadores débeis e patriotas? Se o oposto de “radical” é “conservador”, onde estão os nossos radicais de laissez-faire? Se os nossos estatistas limitados forem verdadeiramente radicais, não haveria praticamente nenhuma divisão entre nós. O que divide o movimento agora, a verdadeira divisão, não é anarquista vs. minarquista, mas radical vs. conservador. Senhor, dá-nos radicais, sejam eles anarquistas ou não.

Para levar a nossa análise adiante, antiestatistas radicais são extremamente valiosos, mesmo que dificilmente possam ser considerados libertários em qualquer sentido abrangente. Assim, muitas pessoas admiram o trabalho de colunistas como Mike Royko e Nick von Hoffman porque consideram estes homens simpatizantes libertários e companheiros de viagem, o que eles são, mas isso não dá a dimensão da sua verdadeira importância. Em todo os escritos de Royko e von Hoffman, por mais inconsistentes que possam ser, sem dúvida, há um ódio onipresente ao estado, a todos os políticos, burocratas e seus clientes que, no seu radicalismo genuíno, é muito mais fiel ao subjacente espírito de liberdade do que alguém que nos acompanhe friamente ao longo de cada silogismo e entimema até o “modelo” de tribunais concorrentes.

Tomando o conceito de radical vs. conservador no nosso novo sentido, vamos analisar o agora famoso debate “abolicionismo” vs. “gradualismo”. O último golpe vem na edição de agosto da Reason (uma revista em que cada fibra de seu ser exala “conservadorismo”), na qual o editor Bob Poole pergunta a Milton Friedman onde ele está neste debate. Friedman aproveita a oportunidade para denunciar a “covardia intelectual” daqueles que não estabeleceram métodos “viáveis” de conseguir ir “daqui para lá.” Poole e Friedman conseguiram encobrir os verdadeiros problemas. Não há um único abolicionista que não adotaria um método viável, ou um ganho gradual, se fosse o caminho disponível no momento. A diferença é que o abolicionista sempre mantém alta a bandeira de seu objetivo final, não esconde os seus princípios básicos e pretende chegar ao seu objetivo tão rápido quanto humanamente possível. Assim, enquanto o abolicionista aceitará um passo gradual na direção certa se isso é tudo que ele pode conseguir, ele sempre aceita a contragosto, como apenas um primeiro passo em direção a um objetivo que ele sempre mantém incrivelmente claro. O abolicionista é um “apertador de botões”, que pressionaria seu polegar contra um botão que abolisse o estado imediatamente, se tal botão existisse. Mas o abolicionista também sabe que, infelizmente, tal botão não existe e que ele vai pegar um pouco do pão, se necessário – enquanto prefere sempre o pão inteiro se ele puder alcançá-lo.

Deve-se notar aqui que muitos dos mais famosos programas “graduais” de Milton, como o plano de vouchers, o imposto de renda negativo, o imposto retido na fonte e o papel-moeda fiduciário são passos graduais (ou mesmo não tão graduais) na direção errada, para longe da liberdade e daí a oposição de muita da militância libertária a esses regimes.

A posição “apertador de botões” decorre do profundo e permanente ódio do abolicionista ao estado e ao seu vasto motor de crime e opressão. Com tal visão de mundo integrada, o libertário radical nunca poderia sonhar enfrentar um botão mágico ou qualquer problema da vida real com algum cálculo de custo-benefício árido. Ele sabe que o estado deve ser diminuído tão rápido e tão completamente quanto possível. Ponto.

E é por isso que o libertário radical não só é um abolicionista, mas também se recusa a pensar em termos como de um Plano de Quatro Anos para algum tipo de procedimento medido para a redução do estado. O radical – seja ele anarquista ou de laissez-faire – não pode pensar em termos como, por exemplo: bem, no primeiro ano, vamos cortar o imposto sobre o rendimento de 2%, abolir o ICC, e cortar o salário mínimo; pelo segundo ano vamos abolir o salário mínimo, cortar o imposto de renda por outro 2% e reduzir os pagamentos de bem-estar por 3%, etc. O radical não pode pensar em tais termos, porque os radicais veem o estado como nosso inimigo mortal, que deve ser mutilado onde e quando pudermos. Para o libertário radical, deve-se tomar toda e qualquer oportunidade para cortar na carne do estado, seja para reduzir ou suprimir um imposto, uma redução orçamentária, ou um poder de regulamentação. E o libertário radical é insaciável nesse apetite até que o estado tenha sido abolido, ou – para minarquistas – diminuído para um papel minúsculo, de laissez-faire.

Muitas pessoas se perguntam: por que deveria haver quaisquer disputas políticas importantes entre os anarcocapitalistas e minarquistas agora? Neste mundo de estatismo, onde há muito terreno comum, por que os dois grupos não podem trabalhar em completa harmonia até que tenham alcançado um mundo cobdenita, após o qual poderemos expor nossas divergências? Por que brigar por tribunais e outras coisas agora? A resposta a esta excelente pergunta é que poderíamos e iríamos marchar lado a lado, desta forma, se os minarquistas fossem radicais, como desde o nascimento do liberalismo clássico até a década de 1940. Dê-nos os radicais antiestatistas novamente, e a harmonia irá reinar triunfante dentro do movimento.

Tradução de Lacombi Lauss

Revisão de Marcos Paulo Silva

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