Nem de esquerda, nem de direita

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Por Leonard Read

[Nota do Editor: O artigo abaixo foi escrito em 1956.]

“Mas vocês não são de esquerda, nem de direita!”

Essa observação, feita após um discurso meu, foi apropriada e rara. Rara porque quase nunca ouço tal observação; e apropriada por demonstrar um entendimento correto.

A maioria de nós parece estar sempre tentando encontrar simplificações – generalizações práticas – que ajudem nossa linguagem. Elas substituem as definições longas e complexas. Ainda assim, devemos ter cuidado para que tais simplificações não se transformem em um engodo semântico e não passem a prestar um desserviço a quem as use. Temo que esse seja o caso em relação aos termos “esquerda” e “direita” quando usados por libertários, os quais, espero demonstrar, não são nem de esquerda, nem de direita, segundo o uso atual desses termos.

Tanto “esquerda” quanto “direita” são termos que descrevem posições autoritárias e a liberdade não tem um relacionamento horizontal com o autoritarismo. A relação do liberalismo com o autoritarismo é vertical. Ele está acima da sujeira dos homens que escravizam homens. Mas voltemos ao começo.

Houve um tempo em que “direita” e “esquerda” eram designações apropriadas e pertinentes em relação a diferenças ideológicas. Os primeiros esquerdistas eram um grupo de deputados recentemente eleitos para a Assembléia Nacional Constituinte no começo da Revolução Francesa em 1789. Foram rotulados ‘de esquerda’ porque, por acaso, se sentavam do lado esquerdo da assembléia francesa.

 […] Os legisladores que se sentavam do lado direito ficaram conhecidos como o Partido da Direita, ou direitistas. Os direitistas ou ‘reacionários’ se colocavam a favor de um governo nacional altamente centralizado, de leis especiais e privilégios para sindicatos e vários outros grupos e classes, do monopólio econômico do governo em várias áreas, e da manutenção do controle governamental sobre os preços, a produção e a distribuição. (Dean Russell, The First Leftist [Irvington-on-Hudson, N.Y.: Foundation for Economic Education, 1951], p. 3.)

Os esquerdistas eram, na prática, ideologicamente similares àqueles que hoje identificamos como “libertários”. Os direitistas eram seus oponentes ideológicos: estatistas, intervencionistas – em suma, autoritários. “Esquerda” e “direita” na França, durante os anos de 1789-90, tinham rigidez semântica e alto grau de precisão.

Mas o termo “esquerdista” foi logo apropriado pelos autoritários jacobinos e passaram a significar o contrário de sua definição anterior. “Esquerdista” se transformou em descrição dos igualitaristas e passou a ser associado com o socialismo marxista: comunismo, socialismo, fabianismo.

E os “direitistas”? Onde se encaixavam depois da inversão semântica do termo “esquerdista”? Moscou tirou partido disso: qualquer idéia que não fosse comunista ou socialista era decretada e propagandeada como “fascista”. É por isso que qualquer ideologia que não seja comunista (de esquerda) é agora rotulada fascista (de direita).

Vamos dar uma olhada na definição de fascismo no dicionário Webster’s:

Qualquer programa que pretenda estabelecer um regime nacional centralizado e autocrático, com políticas fortemente nacionalistas, exercendo controle governamental sobre a indústria, o comércio e as finanças, censura rígida e supressão da oposição por meio da força.

Qual seria, na verdade, a diferença entre o comunismo e o fascismo? Ambos são formas de estatismo, autoritarismo. A única diferença entre o comunismo de Stálin e o fascismo de Mussolini é um detalhe insignificante na estrutura organizacional. Mas um é de “esquerda” e outro é de “direita”.

Onde ficam os libertários no mundo de palavras criado por Moscou? O libertário está, na realidade, em oposição ao comunismo. Ainda assim, se o libertário emprega os termos “esquerda” e “direita”, estará caindo na armadilha semântica de ser um “direitista” (fascista), por não ser um “esquerdista” (comunista). Esse é um cemitério semântico para os libertários, um jogo de palavras que nega sua existência. Se aqueles que têm relações com Moscou insistirão nessa tecla, há várias razões para um libertário fugir dela.

Uma desvantagem importante do uso por parte dos libertários da terminologia direita-esquerda é a grande oportunidade para se aplicar a “teoria do meio termo”. Há vinte séculos aceita-se no ocidente a teoria aristotélica de que a posição mais razoável é aquela exatamente entre dois extremos, politicamente conhecida hoje em dia como a posição “no meio do caminho”. Agora, se os libertários usam os termos “esquerda” e “direita”, eles se declaram de extrema-direita, por estarem extremamente distantes, em suas convicções, do comunismo. Mas a palavra “direita” tem sido, com sucesso, identificada com o fascismo. Logo, cada vez mais pessoas são levadas a acreditar que a melhor posição é em algum ponto entre o comunismo e o fascismo, sendo ambos nada mais que autoritarismo.

Porém, a “teoria do meio termo” não pode ser aplicada com eficiência indiscriminadamente. Por exemplo, há certa lógica quando, ao termos de decidir entre não comermos absolutamente nada ou a gula, escolhermos o meio termo entre os dois extremos como a melhor posição. Mas, por outro lado, não há lógica nenhuma em escolhermos o meio do caminho ao decidirmos se devemos roubar mil dólares ou nada. O meio termo recomendaria roubarmos 500 dólares. Assim, o meio termo não teria mais lógica quando aplicado ao comunismo e ao fascismo (dois nomes para a mesma coisa) do que quando aplicado ao roubo de duas quantias.

O libertário não pode ter nenhuma relação com “direita” ou “esquerda” porque rejeita qualquer tipo de autoritarismo – o uso de força policial para controlar a vida criativa do homem. Para ele, comunismo, fascismo, nazismo, fabianismo, o estado de bem-estar social – enfim, todos os igualitarismos – se encaixam na definitiva, e talvez cínica, descrição de Platão, séculos antes destes sistemas coercitivos serem desenvolvidos:

O maior de todos os princípios é que ninguém, homem ou mulher, esteja sem um líder. Nem deve o espírito de alguém ser habituado a deixá-lo fazer qualquer coisa por sua própria iniciativa, nem por zelo, nem mesmo por prazer. Mas tanto na guerra quanto na paz, a seu líder ele deve direcionar seus olhos e segui-lo fielmente. E mesmo nos assuntos menores ele deve se proteger sob alguma liderança. Por exemplo, ele deve se levantar, ou se mover, ou se lavar, ou se alimentar […] somente se tiver recebido ordens para tal […] Em poucas palavras, ele deve ensinar sua alma, através do hábito, a nunca sonhar agir independentemente, e, na verdade, a se tornar incapaz disso.

Os libertários rejeitam esse princípio e assim, não se colocam nem à direita, nem à esquerda dos autoritários. Eles, como os espíritos humanos que libertariam, ascendem – estão acima – sobre a degradação. Sua posição, se fôssemos usar analogias direcionais, seria acima – como um vapor que se separa do esterco e sobe a uma atmosfera saudável. Se a ideia de extremismo for aplicada a um libertário, que seja baseada no quão extremas são suas posições ao se opor às crenças autoritárias.

Estabeleçamos os conceitos de emergir, de libertar – o qual é o próprio significado do liberalismo – e o significado da teoria do meio termo se tornará inaplicável, já que não pode haver meio do caminho entre o zero e o infinito. E é absurdo sugerir que exista.

Que termo simples os libertários deveriam aplicar para se distinguirem da definição moscovita dos “esquerdistas” e dos “direitistas”? Não consegui até agora inventar nenhum, mas até que eu consiga, devo me contentar em dizer “sou libertário”, e estar disposto a explicar a definição do termo a qualquer pessoa que procure significados ao invés de rótulos.

// Artigo Original

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