Como vivem os milionários do Bitcoin

Aqueles que ostentam sua riqueza são imediatamente vistos como pobres deslumbrados.
Inventado por uma pessoa — ou por um grupo de pessoas — utilizando o pseudônimo de Satoshi Nakamoto, o Bitcoin foi lançado no dia 3 de janeiro de 2009. A ideia básica por trás do Bitcoin era a de criar, por meio de um algoritmo matemático, uma substância escassa e fungível.

Nakamoto desenvolveu um sistema de software que permite às pessoas obterem Bitcoins como recompensa por solucionarem complexos enigmas matemáticos. As moedas resultantes são então utilizadas para transações online. Nakamoto também se certificou de que o número total de Bitcoins jamais poderá exceder 21 milhões.

Ou seja, ele criou um ativo cuja oferta é limitada, mas cuja demanda tende a ser crescente.

Caso o Bitcoin, no futuro, venha a substituir o atual dinheiro fiduciário, nunca mais haverá qualquer ameaça de inflação.

A cada escolha, uma renúncia

Já virou rotina repetir os números. Neste exato momento, um Bitcoin vale mais de US$ 13.000[próximo de R$ 50.000]. Quem começou a comprar Bitcoins lá atrás, quando cada unidade ainda custava centavos de dólar, já se tornou um multimilionário. Consequentemente, essa pessoa tem a oportunidade de viver cada sonho que sempre teve. Hoje. Agora.

Mas há um problema: para cada sonho realizado, ela tem de abrir mão de uma parte de sua propriedade. E cada dígito dessa propriedade é difícil de ser conseguido. Mais ainda: não só é extraordinariamente lucrativo, como também é hoje a coisa mais singularmente demandada no planeta terra.

Portanto, sim, tal pessoa até poderia estar realizando seus sonhos. Só que não. Em vez disso, ela se tornou viciada em ver, diariamente, seu patrimônio aumentando e aumentando e aumentando …. e aumentando ainda mais, e mais e mais. E mais de novo. E mais ainda. O maior desafio, aparentemente, é não morrer antes de fazer algo com os Bitcoins acumulados. Isso parece fácil, olhando de fora.

O que você gasta hoje

Eis o real problema de se usar (em oposição a simplesmente poupar) Bitcoins: de um lado, não há nenhuma falta de opção nas quais gastar (vender) seus Bitcoins. Você pode trocá-los por dólares [ou reais] e conseguir absolutamente tudo o que quiser. Só que, ao vender seus Bitcoins, você não mais os tem.

Se você gastar hoje US$ 1, isso significa que você abriu mão de ter US$ 2 daqui a talvez a um mês. Gastou US$ 50 mil em um carro? Lamento, pois são US$ 50 mil que poderiam ter virado US$ 100 mil daqui a algum tempo, e aí você poderia comprar dois carros. Consequentemente, em vez de ter algo que gera retorno financeiro, tudo o que você tem agora é apenas um carro que leva você de um lugar a outro, exatamente como seu carro anterior também fazia. Logo, sendo racional, você prefere continuar com seu carro antigo, por mais supostamente constrangedor que isso seja.

Quer posar de bacana e comprar um Tesla? Você, que se tornou milionário, pode adquirir um hoje e nem balançar seu patrimônio. Só que esses US$ 75 mil gastos iriam se transformar em US$ 100 mil nos próximos meses. Logo, ao comprar o Tesla hoje, você simplesmente está abrindo mão de US$ 100 mil no futuro. Muito arriscado. É melhor continuar pegando ônibus.

O mesmo se aplica às suas roupas. Quer se vestir elegantemente? Para quê? Honestamente, quem se importa com suas roupas? Cada peça de roupa chique representa um dinheiro que poderia estar multiplicando de valor na sua carteira cripto, virando ouro como os cachos da Rapunzel, com a diferença de que as tranças continuam crescendo. Logo, como qualquer pessoa racional, você continua utilizando sua calça jeans surrada, suas blusas amarrotadas e seu tênis que você comprou há uns dois anos, a última vez em que você se deu ao luxo de comprar algo para ostentar.

O gasto ideal: zero

Entre os que se tornaram ricos com a criptomoeda, a moda é ser pobre. Você tem de viver com frugalidade. Tem de ser munheca. Sovina mesmo. Nenhum sinal de ostentação. Nenhum sinal de riqueza. Você poderia doar para a caridade, mas por quê? Em seis meses, sua doação pode ser multiplicada por cinco. Você pode vir a se tornar um adorado benfeitor de grandes causas. Algum dia. Certamente a caridade pode esperar até lá.

Muito melhor do que ostentar é demonstrar sinais de pobreza. Você compra apenas em grandes redes que oferecem grandes descontos (como WalMart e Sam’s Club), pesquisa sempre antes de gastar, frequenta brechós e opta por bens de segunda mão. Acima de tudo, você vende no eBay o máximo possível de coisas que você tem — por que compramos tantas coisas no passado? — para então poder comprar mais criptomoedas.

Você se gaba perante todos sobre quão pouco gasta e quão pouco consumista você é. Cada barganha conseguida se torna um motivo de orgulho. Sempre que possível, voce deixa de almoçar. Para que almoçar? São $9 que poderão virar $18 daqui a uns meses, e aí você poderá comprar dois almoços. Por que alguém almoçaria hoje?

Esqueça, portanto, aquela imagem de milionários gordos, felizes e opulentos. Os cripto-milionários são magricelas, mesquinhos e vivem na penúria.

No linguajar da comunidade Bitcoin, tais pessoas são chamadas de HODLers [o certo seria holder(pessoa que segura, que retém), mas um entusiasta, na pressa de escrever em um chat, digitou erroneamente hodl, e aí a gíria pegou]. Hodlers são pessoas que abrem mão do consumo presente em troca de … algo no futuro. Obviamente, no futuro, o dinheiro irá para algum lugar. Pode ser um iate. Pode ser uma casa. Pode ser até uma Maserati. Ou podem ser intermináveis viagens para… a Nova Zelândia, que é o único lugar para onde as pessoas realmente parecem querer ir de qualquer jeito. O sonho é livre.

Enquanto isso, você está viciado no hábito de transformar qualquer renda em criptomoeda, vivendo como um indigente, se assemelhando a um maltrapilho, mantendo distância dos shoppings, dos ingressos caros para shows e da primeira classe dos aviões.

Você nunca foi tão rico na sua vida. E você nunca viveu tão humildemente.

Na comunidade Bitcoin, jamais ouse mostrar sinais de riqueza e ostentação. Alguém pode pensar que você é um pobre deslumbrado.

Você pode ir ao cinema, mas isso seria insanidade. Espere uma semana, e aí você poderá baixar o filme no Torrent e assistir no seu iPhone — se o aparelho não estiver ocupado minerando Bitcoin Platinum. Ou então você pode até ceder à tentação e ir ao cinema uma vez ao ano, mas você contrabandeará sua própria cerveja e sua própria pipoca, pois quem seria maluco de pagar aqueles preços?

Lembra-se da época em que um Bitcoin valia US$ 350? Quem tinha Bitcoins à época vivia como se não houvesse amanhã, gastando a rodo e esbanjando em bebidas, carrões, romances temporários, e festas de arromba em barcos. O que elas tinham na cabeça? Caso tivessem poupado, seriam hoje bilionárias. Jamais cometa esse erro novamente. Se tiver de comprar algo, que sejam CryptoKitties.

O que é realmente real

Esse dinheiro digital e virtual se tornou algo real, se por “real” você se refere a dígitos em uma tela de computador. Os dígitos são tudo o que interessa. O valor só faz crescer, e ele cresce até mesmo nos fins de semana. Com efeito, cresce até mesmo enquanto você dorme. Hoje, nada se compara. Todas as coisas físicas parecem ridículas em comparação. A única realidade é virtual.

Faça uma viagem no tempo e volte à grande hiperinflação alemã da República de Weimar. Na época, quando o dinheiro perdia poder de compra aceleradamente (a um ritmo de 6% por hora), os esbanjadores e gastadores eram os espertos, e os poupadores e frugais eram os tolos. Os pródigos eram aqueles que deveriam ser imitados, ao passo que os antiquados personificavam a ignorância quanto aos novos tempos. A cultura da frugalidade e da poupança passou a ser vilipendiada e se transformou em uma cultura do consumismo guiado pelo pânico.

Como consequência da morte da moeda, toda a sociedade se desintegrou e virou de cabeça para baixo. Quando a moeda morreu, a moral e a decência morreram juntas.

A causa de tudo? O aumento desbragado da oferta monetária, o que destruiu toda a poupança das pessoas em um curtíssimo período de tempo, gerando até mesmo mortes por inanição. O mesmo está ocorrendo neste exato momento na Venezuela. Eis o que a hiperinflação pode fazer quando não há alternativas ao dinheiro estatal.

Repudie a prodigalidade

Por outro lado, o mercado altista do Bitcoin funciona de maneira exatamente oposta. Trata-se de uma cripto-deflação na qual a unidade monetária se torna cada vez mais valiosa em termos de bens e serviços, ganhando poder de compra.

Sob esse arranjo, a sociedade também passa por uma transformação radical, mas a transformação ocorre na direção moralmente correta: os poupadores e os frugais estão no controle, ao passo que os esbanjadores não sabem o que está acontecendo. É a reviravolta perfeita para um século de inflação.

A hiperinflação da República de Weimar levou a Hitler. A grande cripto-deflação global levará a algo muito diferente. Quem sabe à liberdade. Ela está criando uma nova classe baseada não em privilégios e gastança, mas na poupança, na frugalidade e no mérito. Tais pessoas não roubaram nada, não recebem dinheiro público e não vivem à custa de ninguém. Ao contrário, elas colocaram toda sua fé em algo novo, e não somente em uma tecnologia nova. Trata-se de uma nova maneira de viver, uma que repudia a prodigalidade em todas as suas formas.

As pessoas dizem que os entusiastas do Bitcoin estão arriscando tudo em uma ilusão. Talvez seja o oposto. Talvez sejam eles que finalmente descobriram a irrefutável verdade de que aquilo que você gasta hoje irá apenas reduzir sua riqueza potencial de amanhã. Após 100 anos vivendo sob uma moeda estatal que perde poder de compra a cada ano, essa simples verdade parece já ter evaporado do consciente das pessoas. O Bitcoin veio apenas ressuscitá-la.

E este pode ser o real e duradouro legado da revolução tecnológica trazida pelo blockchain: a restauração da frugalidade como a base da construção de riqueza, algo de que toda a sociedade irá se beneficiar caso saiba aproveitá-la.

Por Jeffrey Tucker

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